Literatura
Traído pela história
19 de Julho de 2008 | por Revista Wave

Pai e criador do movimento Surrealista, André Breton teve a trajetória ofuscada pelo sucesso de Dalí

por Daniell Marafon

Pronta para se arreganhar como uma rameira em mais um dia de trabalho, a sala permanecia tensa com o discurso do professor. Na fronte, aglomeravam-se os pseudo-intelectuais e pedantes que jamais admitiriam as horas de Wikipédia, decorando citações com o intuito de chuchar o flácido escroto de seu professor. Mais atrás, os esquerdistas vegetarianos, reconhecíveis pelas suas tentativas de parecerem com um perdido quinto membro de Los Hermanos e frustrados com seus bigodinhos sujos de garotos de 13 anos (a priori, um defeito físico que assolava homens e mulheres dessa categoria) faziam corredor para meia dúzia de alunos sem filiação genérica, de olhos vermelhos, fala mansa e arrastada, de natureza quase baiana, conhecidos pela sua sabedoria em botânica e farmacologia e suas puxadinhas de fumo pagas com o dinheirinho da merenda. Nada mais que uma típica sala de estudantes de Humanas.

O professor, em sua decrepitude acadêmica, discursava um ilegível textinho digitado em uma verdadeira Remington 1943, escarrando incessantemente, arrependendo-se por ter desistido de ser cabeleireiro como seu pai. E então, sem mais nem menos, ele solta duas pequenas palavrinhas: “André Breton”. Silêncio. Desespero. Nenhum dos pedantes abre a boca. Nenhum dos comunistas faz um discurso político. Algo está errado. Muito errado. A coisa piora quando um dos puxadores de fumo passa mal, vomita e desmaia. Finalmente a expectativa se quebra, e uma garota com poucos panos e vários furos no rosto, levanta a mão e pergunta, quase como se o professor a tivesse ofendido: André “Quem”?!.

Exato, quem é André Breton? Seria ele um marchand das artes? Um bravo soldado que serviu na Primeira Guerra Mundial? Ou, quem sabe, um psiquiatra obcecado com a loucura alheia?

Após afastar-se do poeta Tristan Tzara e do movimento dadaísta (o qual se aproximou para a criação da revista Littérature), Breton lançou o Manifesto Surrealista em 1924. Como conseqüência, surgiu o Centrale Surréaliste - uma espécie de centro que agregava artistas interessados em discutir e explorar idéias que ele fundamentara no Manifesto. Ao longo dos anos, nomes como Louis Aragon, Salvador Dalí, Luis Buñuel, Robert Desnos e Philippe Soupault filiaram-se ao movimento, trazendo notoriedade ao grupo.

Alguns anos antes da criação do Centrale Surréaliste, Breton e Soupault haviam criado a técnica da escrita automática no livro Les Champs Magnétiques (pra variar, nunca publicado em terras tupiniquins). A escrita automática era um método de escrita ou desenho espontâneo e automático, realizada sem nenhuma ponderação anterior, visando transferir no papel o inconsciente e o subjetivo (veja abaixo como cozinhar seu próprio poema surrealista).

Em 1927 filiou-se ao movimento comunista, mas por incompetência, não conseguiu deixar crescer um bigodinho a altura de seus camaradas e foi expulso do partido em 1933. Isso não o impediu de nutrir sentimentos esquerdistas, escrevendo assim mais um livro em 1938, na parceria de Leon Trotsky. Exilado no México e sob a alcunha “Diego Rivera”, o grande intelectual marxista redigiu com Breton o manifesto Pour un art révolutionnaire indépendent, defendendo uma arte livre de qualquer convenção social ou estética. Após uma série de perseguições políticas no começo da década de 40, fugiu para os Estados Unidos, conhecendo lá sua terceira e última esposa. Retorna para França em 1946 para encabeçar uma segunda geração de surrealistas e protestar ativamente contra a guerra da Algéria e o neocolonialismo francês. Morreu em 1966, aos 70 anos.

Apesar de todas suas conquistas em vida, a grande problemática por trás de Breton é a sua falta de reconhecimento nos meios mais populares, ou seja, aqueles que não se relacionam direta ou indiretamente com as vias acadêmicas. Ironicamente, o homem que moldou e teceu os princípios do surrealismo, abrindo uma visão sincera na área da estética para questões psicológicas como o sonho, o subjetivo e o inconsciente, não carregou consigo a mesma fama gigantesca do ex-surrealista Salvador Dalí. Breton expulsou Dalí do surrealismo após criticar duramente suas posições favoráveis ao ditador espanhol Francisco Franco (o fascista responsável por milhares de mortes e o catalisador da guerra civil espanhola), assim como suas atitudes rebeldes. Anos depois, o artista gozaria de extensa fama e dinheiro (motivo que levou Breton a cunhar o apelido “Avida Dollars”, um anagrama com o nome de Salvador Dalí significando “ávido pelos dólares”).

Essa injustiça é sustentada pela tendência a exacerbar as mídias visuais em nossa eterna e cretina preguiça em ler, justamente na era em que temos o maior número de pessoas alfabetizadas em toda a história da humanidade - dando origem à ignorância dos fatos aqui presentes. Apoiada por um bando de macacos estúpidos que traduzem em palavras aquilo que acreditam ter visto no Discovery Channel, nós fomos induzidos a acreditar na réplica utilizada pelo próprio Dalí em uma discussão com Breton, em que o próprio denominava-se o surrealismo encarnado. Fato 1: sem Breton não haveria Surrealismo. Fato 2: sem Breton, não haveria Dalí como o conhecemos.

“A beleza há de ser CONVULSIVA – ou não será beleza”. Breton encerrou com essa homônima frase seu romance surrealista Nadja (que pode ser encontrado atualmente em uma bela edição da Cosac&Naify aqui no Brasil), sintetizando nela tudo aquilo que o próprio Movimento Surrealista pretendia alcançar, ou seja, convulsão de cenas etéreas criadas nos mais belos e desconhecidos recantos de nossa mente. Esse foi o seu presente e seu legado a nós. Se Dalí era o espírito do surrealismo, Breton não seria menos que deus. Lê-lo é a única coisa justa que podemos fazer por ele.

Finalmente ensinaremos como cozinhar uma poesia surrealista. É muito simples! Com ingredientes encontráveis em qualquer lar, você poderá criar os mais variados poemas, de tamanho e extensão a gosto:

Ingredientes:

01 Superfície plana
01 ou mais folhas de papel
01 caneta (ou uma lapiseira da Hello Kitty, tanto faz, o importante é que escreva)
01 mão
01 cérebro em relativamente boas condições.

Preparo:

Pegue o papel e coloque sob a superfície plana, depois, com a sua mão segurando a lapiseira da Hello Kitty ou um objeto de escolha capaz de escrever. Destrambelhe a colocar em palavras exatamente a primeira coisa que vier ao seu cérebro, iniciando um fluído de frases, interrompido na hora em julgar certa de parar. Não se esqueça, NÃO pare de untar o poema para correções ortográficas ou estéticas – lembre-se, tem de ser um esforço automático e quase inconsciente. Leve ao forno por alguns minutos e voi la! Você criou seu primeiro poema surrealista.

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Daniell Marafon, 22, é arrogante, pretensioso, egocêntrico e sarcástico – heranças do curso de Filosofia na Unicamp. Músico limitado, desenhista de rabiscos duvidosos, fumante compulsivo e escritor de sórdidas narrativas, atualmente não passa de um pobre e solitário fotógrafo, protótipo de Peter Parker sem teias.

E-mail: daniellmarafon@gmail.com

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Leia também:

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11 comentários

  1. daniel vicolli diz:

    devo dizer ao sr. Daniel Marafon que o completo desconhecimento de sua parte do conteúdo dos manifestos do surrealismo faz com que seu texto ao invés de iluminar jogue ainda mais escuridão à compreensão do que é o surrealismo e que seu artigo por aqui publicado é desinformado e somente faz volume ao lixo publicado por essas bandas por mentes preguiçosas e levianas.
    “o surrealismo é o que será”.
    Daniel Vicolli - ACESSO RESTRITO (publicação do projeto à deriva: uma experiência-piloto)

  2. Daniell Marafon diz:

    Caro Daniel Vicolli. A Revista Wave, sendo o espaço democrático e aberto a todos que é agradece o seu interesse pelo artigo e também pela sua crítica. Mas ‘a priori’, como sou o objeto de sua crítica, já que seu discurso ataca o texto e seu autor, me sinto na obrigação de ponderar sob seus comentários e tecer a minha refutação aos mesmos. Considere isso uma cortesia de minha parte.
    Primeiramente, sua crítica é despojada de qualquer argumentação ou baseamento bibliográfico (nesse sentido me refiro ao meu próprio texto), faltando citações contrapostas a outras fontes que provem que meu “artigo por aqui publicado é desinformado”. Infelizmente, como sua análise não cita referências a esses trechos que jogam”mais escuridão à compreensão do que é o surrealismo”, devemos então classificar seu discurso não mais como crítico, mas sim como meramente opinativo e calunioso, tornando sua tese, pelo ponto de vista da teoria crítica, insustentável (o que é comprovado pelas regras da dialética). É claro, caso haja alguma constatação bibliográfica que esteja errada, saiba que ficarei mais do que feliz em corrigi-la.
    Devo também ressaltar que não sou jornalista, mas sim filósofo, voltado para a área da Estética e da Filosofia da Arte, o que distancia minha pessoa e meu texto de um cunho mais jornalistico e ’sério’ do que provavelmente se era esperado. Desde o princípio me propus a redigir um pequeno artigo de veia mais humorística e informal, sem pretensões acadêmicas. Ademais, em nenhum momento o texto deixou implícito que iria falar sobre o “conteúdo dos manifestos do surrealismo”, mas sim discutir a popularidade ofuscada - principalmente no Brasil – de Breton fora dos meios acadêmicos literários, e na continua confusão popular em relacionar o Movimento Surrealista unicamente a figura de Salvador Dalí. A minha segunda crítica a sua opinião, reside no fato que de acordo com seu comentário, citado a seguir, minha proposta era de discutir o ‘modis operandis’ do Surrealismo, algo que nunca fiz: “faz com que seu texto ao invés de iluminar jogue ainda mais escuridão à compreensão do que é o surrealismo”. A pauta nunca envolveu se aprofundar no Movimento em si, mas apenas falar sobre a ignorância que permeia o nome André Breton, dando uma breve biografia para situar o leitor e depois contrastando o mesmo com a figura de Dalí. Se isso não ficou claro, peço desculpas, e gostaria que ressaltasse os pontos aonde eu me proponho a discutir o Surrealismo ao invés de simplesmente discursar sobre Breton a Dalí para criar um interesse ao leitor no primeiro. Talvez o que tenha lhe incomodada mais fora a “Receita” para escrever um poema surrealista. Novamente me apoio no fato que este texto não tem obrigações acadêmicas, e assim sendo, resolvi trabalhar de maneira mais humorística para aguçar a curiosidade dos leitores sobre a poesia surrealista. Agradeço seus comentários, mas gostaria de pedir gentilmente, se possível é claro, que aprofundasse seus argumentos e os baseasse de maneira mais coerente, para que assim uma discussão formal possa ser realizada sem deixar a impressão que o autor desse texto não tenha se preocupado em redigi-lo.

    Obrigado

    Daniell Marafon

  3. João Paulo M. Rolim diz:

    “… o surrealismo é um movimento de liberação total, não uma escola poética. Via de reconquista da linguagem inocente e renovação do pacto primordial, a poesia é a escritura de fundação do homem. O surrealismo é revolucionário porque é uma volta ao princípio do princípio.”

    Otavio Paz

  4. João Paulo M. Rolim diz:

    Quanto a lapiseira da Hello Kitty quem vai escrever uma menina de quinta à oitava série do ensino fundamental, achei essa receita uma não receita, acho que antes de nos depararmos com qualquer tipo de escrito devemos primeiramente nos aprofundarmos nos assunto, estudar com cuidado, desmembrar material, fazer um verdadeiro relato histórico e filosófico. Escrever por escrever é uma coisa que muita gente faz, antes de escrever penso, penso, penso, estudo, estudo, leio, releio e novamente penso e sei o que vou escrever. Para escrever sobre o surrealismo primeiro temos que saber o que é o surrealismo:

    O que é surrealismo?

    Para compreendermos o Surrealismo é preciso entender a vida na Europa após 1918, quando acabou a Primeira Guerra Mundial. Esse conflito resultou em um grande número de mortos, não só de combatentes, como de cidadãos comuns. Cidades inteiras foram destruídas e a Europa acabou perdendo o domínio econômico sobre os demais países do mundo. Os Estados Unidos, que só haviam aderido à guerra em abril de 1917, se tornaram então a grande potência mundial.

    Com essa triste situação, surgiu um movimento artístico chama-do Dadaísmo. Os dadaístas contestavam, ironizavam e desmistificavam os valores da sociedade européia, a começar pela própria arte.

    Esse movimento serviu de inspiração ao Surrealismo. Porém, os surrealistas propunham uma ação coletiva para tornar o ser humano mais livre e criativo. Eles tentavam compreender o mundo com outro sentido, buscando tornar real o que antes era apresentado como irreal.

    O surrealismo surgiu na França na década de 1920. Este movimento foi significativamente influenciado pelas teses psicanalíticas de Sigmund Freud, que mostram a importância do inconsciente na criatividade do ser humano. De acordo com Freud, o homem deve libertar sua mente da lógica imposta pelos padrões comportamentais e morais estabelecidos pela sociedade e dar vazão aos sonhos e as informações do inconsciente. O pai da psicanálise, não segue os valores sociais da burguesia como, por exemplo, o status, a família e a pátria.

    Em 1924, a partir da publicação do Manifesto do Surrealismo, o qual lançou o movimento surrealista, o escritor André Breton e o seu amigo Philippe Soupault adotaram a palavra e “batizamos com o nome de Surrealismo, a nova moda de expressão que tínhamos à nossa disposição e que desejávamos passar aos nossos amigos”.

    Breton adotou a palavra Surrealismo para descrever a prática literária e artística que ele e os seus «amigos» seguiam. Ela descreve uma aventura coletiva, centrada na figura de Breton, que começou em Paris nos anos 20 e abarcava poesia, pintura, prosa, escultura, fotografia, cinema,….

    Segundo André Breton, “Surrealismo é o automatismo psíquico puro pelo qual se propõe expressar, verbalmente, por escrito, ou de qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento. O pensamento é ditado com ausência de qualquer outro exercício da razão, a margem de toda preocupação com estética ou moral.

    O Surrealismo procurava a comunicação com o irracional e o ilógico, desorientando e re-orientando deliberadamente o consciente através do inconsciente.

    Em 1929, Breton publicou o “Segundo Manifesto do Surrealismo” e aqueles artistas que não agiam nem compartilhavam com as idéias do poeta foram expulsos do movimento. Breton achava que o artista não poderia deixar de ser racional apenas em sua arte, mas deveria agir assim em todas as circunstâncias. Até o fim da Segunda Guerra Mundial, o surrealismo foi considera-do pela opinião pública um “acidente” sem importância. Mas, por volta de 1950, constatou-se que o movimento marcou profunda-mente, não só a poesia, mas o romance, o teatro, as artes plásticas e o cinema. Os maiores expoentes do movimento foram Salvador Dalí, Max Ernst e René Magritte na pintura, Man Ray na fotografia e Luís Buñuel no cinema.

  5. Daniell Marafon diz:

    João Paulo, por favor, ler a explicação acima para Daniel Vicolli, odeio me repetir. Sendo assim, sejamos breves: a Receita foi escrita de maneira descompromissada e humorísitica (ou seja, não ouve necessidade de aprofundar “nos assunto, estudar com cuidado, desmembrar material, fazer um verdadeiro relato histórico e filosófico” em nenhum momento - por favor apontar aonde eu me propus a isso ou onde fui falacioso em relação aos fatos ‘per se’). Surrealismo também nunca foi a pauta do assunto em si, mas sim a contraposição de dois artistas que fazem parte do mesmo movimento.
    Vejo que meu artigo está irritando algumas pessoas. Me sinto lisonjeado pela polêmica e extasiado em observar como o meu humor chega a um ponto de quase ofensivo…

  6. Mauro Marafon diz:

    Parabéns Dani, alguém precisa dizer a verdade; mas nem todos tem sentidos para compreende-las .

    Mauro

  7. Emília diz:

    Daniell,

    Olha que legal! Acho que alguns dos comentaristas são os típicos alunos de Humanas que você descreveu… alguns até com as lapiseiras da Hello Kitty e tudo e, pasme, eles sequer se reconhecem…

    Parabéns : D

  8. Henrique diz:

    Clap clap clap…vc discursa como se estivesse lá, mas tenho uma perguntinha Marafon…vc leu isso tudo onde???

  9. Mara Coradello diz:

    Incrível como o vício por textos didáticos teima em tentar baixar a bola da inventividade. Claro que Daniel_que inclusive ironiza o didatismo, não vai sentir-se desestimulado. Talvez seja emulado.

    O que acho que faltou foi escrever mais, e nisso seu texto sobre Miller foi perfeito, na quantidade de caracteres e ótimo e cheio de tônus e inventividade e pulsante. Brinde-nos com mais desses libelos em prol da liberdade. Ou seja, escreva!

  10. Emilly Gama diz:

    Ótimo!Adorei,alguém precisava mostra às pessoas que Breton foi o precursor.
    Breton é admirável.

    p.s: ri muito da descrição dos estudantes de humanas.

  11. André diz:

    8 min, exatos 8 min pedidos com a falta de beleza. Ainda afirmo. A beleza há de ser convulsiva ou nao será beleza.
    Continue escrevendo, um macaco datilografando por tda uma vida seria capaz de fazer algo belo, acho que vc tb consegue.

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