Cinema
La misma y la otra
19 de Julho de 2008 | por Revista Wave
La Mujer sin Cabeza, terceiro longa da argentina Lucrecia Martel, apresenta uma cineasta em processo de transformação
por Isaac Pipano
A 6ª Festa Literária Internacional de Paraty, também conhecida como FLIP, manteve seu foco nas mais diversas manifestações literárias presentes em outras artes e ciências, como o cinema, os quadrinhos ou a psicanálise. Dessa necessidade de interpretação dos mecanismos de composição da literatura e sua expressão em outras formas que não os livros, surgiu também o interesse em pôr em debate o quanto todas as artes se interferem simultaneamente. Porém, não houve dúvida a qualquer um dos autores em concordar que o cinema tem sido, como fenômeno de massa, a mais expressiva delas.
No sábado, dia 05, a argentina Lucrecia Martel promoveu uma sessão única e exclusiva (até aquele dia, e provavelmente até agora, o filme havia sido exibido apenas em Cannes) de seu último longa-metragem, La Mujer sin Cabeza, provando o porquê de ela ter sido convidada para representar o cinema numa feira literária. Cento e sessenta lugares foram disputados pelos participantes, o que gerou uma série de conflitos com a organização do evento e obrigou Lucrecia a exibi-lo novamente no dia seguinte.
La misma
Seu primeiro longa-metragem, O Pântano, foi aclamado em festivais na Argentina, Havana e Berlim. Propondo uma estética abafada e desconfortante, o filme inaugura a temática de Lucrecia que se volta para a classe média argentina decadente. A desconstrução familiar, o toque reprimido, a ausência de trilha e o anacronismo compõem o alicerce narrativo permitindo o enlaçamento aparentemente sem propósito dos fatos em uma trama fria, vazia, incomunicável, repleta de elementos e de uma sensação de iminência, de algo que está sempre por vir.
Para Lucrecia, qualquer análise meramente simbológica de seus filmes exclui um sem número de possibilidades e leituras; os símbolos são facilmente decodificáveis e permitem ao espectador acessar rapidamente o conteúdo. Contudo, eles generalizam situações, criam paradigmas e tornam-se maneirismos e cacoetes de linguagem; enquanto uma estrutura por camadas – a qual a própria diretora defende –, relaciona elementos secundários ao primeiro plano, atribuindo relevância para alguns signos supostamente deslocados e pouco interessantes.
Essa opção estética é reutilizada em A Menina Santa, 2004, acusado imediatamente de reciclar a fórmula sem, no entanto, atingir o mesmo êxito. Ainda assim, A Menina Santa possui uma grandiosidade narrativa tão intensa – talvez mais - quanto a de O Pântano. O reaproveitamento de elementos permite que se trabalhe comparativamente os dois filmes para, enfim, encontrar grande parte da estética e dos esquemas propostos por Lucrecia: não centralização em um único personagem, religiosidade, piscinas (repugnadas por ela), espaços fragmentados, valorização das figuras femininas e um desfecho no clímax a partir de uma cena reveladora que, ao mesmo tempo, não se encerra.
La outra
De calça jeans, óculos e blusa preta, meio tímida, meio sem jeito, Lucrecia Martel abre a sessão de La Mujer sin Cabeza falando em espanhol, pede desculpas pelas legendas estarem em inglês e nos diz que não voltará ao final do filme para debatê-lo, mas que isso aconteceria no dia seguinte em uma rua qualquer de Paraty.
Nos primeiros quinze minutos muito da antiga Lucrecia já não está ali. A começar pelo plano médio no carro, que fixa a câmera em Verónica, enquanto ela dirige por uma estrada de terra. Então se vê, de dentro do carro, uma batida, um choque que deslocará Verônica para além do simples impacto, da causa e da conseqüência; transporta-a para um outro estado de consciência, inerte, transtornante. Verónica não consegue identificar aquilo que atropelou, e por mais que Lucrecia nos permita que vejamos, honestamente, passamos a duvidar. Pode ser um cachorro, um rapaz, ou qualquer outra coisa. A continuidade mostrará que isso tampouco importa.
Numa atmosfera semelhante ao insólito de David Lynch, onde nunca se sabe quais os limites do real, Verónica passa a viver num estado de semi-consciência, como se estivesse constantemente naquela sensação pós-trauma, naqueles segundos em que não se há reação, entre o delírio e a lucidez.
Lucrecia apresenta seu universo desconstruído na profusão de novos elementos: a presença constante de Verónica em todos os planos, abandonando a pluralização de personagens; a recorrência de planos fixos dentro do automóvel, em detrimento dos espaços físicos utilizados anteriormente; a inserção de personagens duais, híbridos entre a lucidez e o real, sintetizando o universo de Verónica, mas suscitando dúvidas quanto a existência e, finalmente, o inconsciente apresentado de maneira muito mais profunda e complexa.
Na utilização de uma fotografia simples - ao manter em diversas cenas o segundo plano desfocado intensificando a presença das personagens no primeiro plano, elevando, assim, a sensibilidade e o torpor – e na atuação singular de Maria Onetto, Lucrecia reconsidera a decadência da classe média argentina a partir das desorientações de Verónica, de sua relação conjugal fracassada, da indiferença com a filha, e na aparente fuga para a o prazer através do amante.
La Mujer sin Cabeza confirma o amadurecimento de Lucrecia Martel ao sorver o melhor de suas narrativas anteriores, eliminando os recursos desgastados, inserindo novas estruturas, transitando por espaços que deixam a escala social e atingem o inconsciente e, ainda assim, reutilizando características – como as piscinas, a ausência de trilha sonora – que tornaram seu cinema tão característico e peculiar.
Como em romances modernos, a personagem parece viver em fluxo de consciência, nos acontecimentos aparentemente imaginários, e isso faz Lucrecia uma representante desse cinema que está tão arraigado às estruturas literárias. Embora ela afirme que o realismo fantástico latino-americano a tenha influenciado menos que os westerns, é inegável que as narrativas fantásticas do norte da Argentina, como Horacio Quiroga, estejam presentes em sua obra; os elementos fantásticos dessas narrativas são dispostos de forma a parecerem fatos cotidianos. Em seus filmes, Lucrecia domina essa técnica ao transformar o absurdo de maneira que não assombre ou duvide, ainda que perturbe.
As críticas iniciais ao filme de Lucrecia, vaiado no festival de Cannes, giraram todas em torno da premissa “não chega a lugar algum”. Como se, de alguma forma, o cinema tivesse que chegar a qualquer lugar. La Mujer sin Cabeza está mais interessado em examinar os espaços recônditos da mente humana e as fragilidades sociais do que se encerrar em simbologias. O contrário: Lucrecia sugere sempre algo que está prestes a acontecer… e nunca acontece.
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Isaac Pipano, 20, é estudante de jornalismo da Unesp. Candidato a jornalista e escritor, misto de músico frustrado e crítico de brincadeira, dono de gargalhada constante e inflamada, são paulino só em dias de título e não assina seus próprios perfis.
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21 de Julho de 2008 às 12:39
Oi Isaac. Gostei da sua análise de La Mujer sin Cabeza. Também estive na Flip, vi o filme e achei impressionante. Lendo seu texto, porém, fiquei em dúvida se a Lucrecia chega a mostar ou não aquilo que foi atropelado. Vc afirma que sim, mas tive a impressão que essa informação está no “fora de campo”, como costumam estar as fatalidades maiores nos filmes da diretora. Pela montagem inicial, dos meninos brincando na estrada, entendemos que Verónica atropelou um deles. Pelo diálogo da personagem com o marido, no entanto, fica claro que é um cachorro. Mas isso são apenas especulações, certo? Ou de fato Lucrecia mostra o acontecido? Te juro que não consigo lembrar desse detalhe. Se puder, me ajuda a elucidar esse mistério?
abraços,
Mariana
21 de Julho de 2008 às 14:37
Obrigado pelo elogio ao texto, Mariana.
Pois é, essa questão me deixou um tanto pensativo e confesso que recorri a outros sites/blogs, e até mesmo o imdb, pra confirmar o que de fato era mostrado pela imagem, já que na hora o impacto do acidente nos deixa quase tão abalados quanto Veronica. Porém, houve uma grande divergência de sinopses para outras, o que só confirmou que esses dados eletrônicos ainda não são os mais confiáveis e seguros. Parti do meu pressuposto e da minha própria experiência com o filme.
Há duas imagens que revelam o objeto atropelado: uma através do retrovisor; outra quando Veronica liga o carro logo após o acidente e um plano frontal permite que, na profundidade de campo, se veja o objeto estirado ao fundo. Porém, em nenhuma dessas duas imagens consegui ver claramente o que era. Por isso, ao falar desse que talvez seja o trecho mais híbrido de todo o filme, assumi uma postura de espectador não-onisciente, já que “honestamente” não consegui identificar o que era.
Penso que La Mujer sin Cabeza é um filme que, como os de Lynch ou outros diretores que lidam com essas estruturas que às vezes se parecem trillers, precisa ser visto mais de uma vez.
Acho que não te ajudei em nada, mas confesso que também não sei.
Abraços,
Isaac.
21 de Julho de 2008 às 14:51
Há duas semanas, estive em Campinas fazendo uma oficina com o crítico da Cinética Cléber Eduardo. Ele nos contou que André Bazin, certa vez, ao ver um filme do Billy Wilder, encontrou numa cena em que a personagem saía do hospital de cadeira-de-rodas a composição psicológica perfeita para aquela trajetória da personagem, com uma imagem antológica que definia tudo o que a moça representava na história. Porém, Wilder contou que aquilo foi um acaso, e que na verdade nunca pensara na cena como sendo fundamental, ou melhor, não pensara que o uso da cadeira-de-rodas fosse ser tão emblemático en seu próprio filme, ao que Bazin respondeu com “Então o filme que eu vi é melhor que o filme que você fez”.
Enfim, às vezes vemos coisas que não estão lá, mas que são produtos do filme que nós assistimos, e não dos filmes feitos pelos diretores. Ainda mais próximo da literatura!
22 de Julho de 2008 às 15:09
Esse episódio do Bazin com o Billy Wilder é perfeito para ilustrar que certos diretores têm o dom de nos fazer “ver” muito mais do que nos é dado a ver. Lynch e Martel são dois exemplos. Hoje em dia é tão raro sair de um filme sem respostas definitivas, sorte nossa poder cultivar esse mistério.
abraços e obrigada por responder.
24 de Julho de 2008 às 15:35
Muito bem escrito Pimpão, parabéns. Assisti apenas o primeiro filme da Lucrécia, e tive a mesma impressão que você sobre ele. Sufocante, anacrônico, crítico a classe média e tudo mais. Precisava assistir o último, já que afirma ser uma descontrução do cinema dela. Em relação à discussão, não consigo compará-la a Lynch, mesmo não assistindo a esse último filme. Acredito que David Lynch chega ao extremo do absurdo com suas personagens, colocando inúmeros simbolismos na situações que decorrem em seus filmes. Uma personagem que se borra com um batom, ultrapassando a linha da boca, do rosto, ou outro que cheira uma máscara de oxigênio antes do sexo, enfim, exageros que causam a hibridez mencionada, e consequentemente, análises mais profundas de seus trabalhos. Nessa situação de La Mujer Sin Cabeza, ocorre, analisando o descrito, que talvez não fosse relevante, ou não é relevante, o fato de ser um homem, um cão, ou um saco de lixo atropelado - já que há um desfoque no segundo plano, no retrovisor - mas sim o efeito do acidente psicologicamente na personagem, sendo que o acidente não retorna de maneira explícita ao filme.
Estive na mesa dela da Flip, e acredito que tais fenômenos, como dito por Bazin a respeito de Wilder, são meramentes intuítivos. O filme deve fluir para o diretor, e não muito pensado. Lucrécia mesmo afirmou que seus maiores influenciadores é a câmera vhs da família e as converas de sua avó e de seus familiares, não havendo qualquer experiência com câmera e cinema antes do seu primeiro filme, a não ser um curso de animação que fez. Ou seja, só comprova aquela velha idéia desprendida no cinema novo da câmera e a idéia, e acho que isso basta mesmo.