Personagem
João Antônio [1937-1996]
19 de Julho de 2008 | por Revista Wave

Sua literatura não revela apenas um escritor; revela um novo formato, um novo gênero, um novo olhar

por Isaac Pipano

Em Presidente Altino, no Morro da Geada em 1937, numa família de comerciantes, João Antônio Ferreira Filho desperta. De sua infância e adolescência pouco – ou nada - se fala nos jornais, manuais, cabeçalhos ou contra-capas. Vai ser reconhecido já em 1963, vinte e seis anos, ao lançar Malagueta, perus e bacanaço, primeiro livro, com o qual imediatamente conquistou dois prêmios “Jabuti” – Autor Revelação e Melhor Livro de Contos. O mérito de seu sucesso é ainda maior, já que em 1960, por um incêndio que deixou João e a família na roupa do corpo, o livro foi incinerado. Numa cabine qualquer da Biblioteca Mário de Andrade, João recompôs seu livro reescrevendo-o página a página.

O livro não revela um escritor: revela um novo formato, um novo gênero, um novo olhar. Outra forma de analisar a vida na periferia dos abandonados, dos perdidos, dos morros, dos que vivem na hora do lusco-fusco à mercê das intempéries da sorte. O mundo dos gays, das boates, da sinuca, dos malandrecos, dos pedintes, das putas, dos sem casa, sem chão, sem nome.

À fartura do reconhecimento, João é transferido para o mundo do jornalismo, das revistas Manchete e Realidade, dos jornais do Brasil, da Tarde e O Pasquim, além de tantos outros veículos da imprensa, que como ele, se fazia alternativa. Porém, pouco depois, já no Rio de Janeiro, vai abandonar a rotina e as convenções: sentado no meio fio da rua em que vivia no Leblon, mastiga seu cartão de crédito. Quebra cada pedaço com os dentes e se desfaz dos hábitos da vida do consumo, digere cada fração daquilo que passava a repudiar. Em seguida, se desfaz do automóvel que tinha e volta pra mesma sarjeta de ônibus; come o segundo cartão de crédito. Abandona a vida conjugal, as redações, o jornalismo impraticável que o era pra ele. Passa a viver cada dia mais próximo de sua puta: a literatura.

Adota para si o mesmo estilo de suas personagens, faz das letras e do hábito de escritor – o seu, não o dos outros - próprio modo de vida. Vai fixar residência na Lapa, a do Rio, a da malandragem e do chapéu, vai viver na marginalidade. Vive na Zona Norte, vai para a arraia-miúda, pro povinho do samba, de que-qué, do troco picado, o dinheiro amassado no bolso, cigarro rasgado, dos cabarés, das casas de bilhar, da jogatina. Distancia-se das academias, dos literatos, dos intelectuais da Zona Sul, das praias de Copacabana e do glamour. É amigo de Glauber Rocha, sente falta de Otto-Maria Carpeaux, Mario Faustino, ri de quem lhe cobre romance de fôlego e admira o balançar das mulatas, suas “nefertites”. Bebia cachaça e cerveja; se tivesse fome, preferia o feijão.

Publica em 68 o primeiro conto-reportagem, gênero seu, do jornalismo brasileiro, “Um dia no cais”, retrato do porto de Santos e da vida dos marinheiros, dos bares e das prostitutas. Não fosse por Plínio Marcos, seria único em sua linguagem, mas teve no dramaturgo santista um parceiro dos retratos urbanos degradados. Ano antes casou-se com Marília Mendonça de Andrade e teve seu primeiro e único filho, a quem dedicou quase todos os livros seus.

Nos idos de 1970 passa a viajar pelo Brasil e vai para a Europa em 1985. Agraciado com bolsa de pesquisa, reside na Alemanha em 1987, conhecendo a Polônia e a Holanda, permanecendo até 1989.

Em 31 de outubro de 1996, estirado na cama, João Antônio é encontrado quinze dias após ter falecido, em seu apartamento em Copacabana, na Praça Serzedelo Corrêa. Seu filho Daniel Pedro, que vivia em Houston, volta ao Brasil para enterrar o pai e doa os pertences, a mobília e a biblioteca pessoal para o Departamento de Literatura da Universidade Estadual Paulista (UNESP). São livros de João Antônio em diversas línguas; livros de amigos com dedicatórias de Jorge Amado, Clarice Lispector, Dalton Trevisan, Moacyr Scliar, Drummond, Fernando Sabino e Lygia Fagundes Telles; jornais e revistas - entre elas a Realidade; além de anotações feitas a punho em papel de padaria, discos de 78 rotações, troféus e quadros. Sob os cuidados do CEDAP (Centro de Documentação e Apoio à Pesquisa), o Acervo João Antônio em Assis auxilia pesquisadores do escritor e está aberto à visitação pública.

Mylton Severiano, amigo íntimo e apaixonado, publicou Paixão de João Antônio, escrito através da leitura das quase duzentas cartas enviadas por João Antônio. Uma leitura orientada delas revela a personalidade ímpar desse jornalista-escritor das ruas e dos miseráveis. Que fazia literatura das vísceras.

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Isaac Pipano, 20, é estudante de jornalismo da Unesp. Candidato a jornalista e escritor, misto de músico frustrado e crítico de brincadeira, dono de gargalhada constante e inflamada, são paulino só em dias de título e não assina seus próprios perfis.

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