Opinião
Fim das baladas?
19 de Julho de 2008 | por Revista Wave
Noites Sóbrias ou Da Embriaguez; como a “lei seca” preserva e atrapalha a vida noturna contemporânea
por Gustavo Padovani
Enquanto o CONTRAN (Conselho Nacional de Trânsito) não define qual é a medida de álcool mínima permitida para se dirigir, vive-se uma situação nebulosa. O confuso decreto, que regulamenta dois artigos no código brasileiro de trânsito, alega inicialmente que qualquer quantidade de álcool no sangue é motivo para se aplicar penas para depois (no mesmo documento) definir a margem de 0,2 dg/l expelido pelo pulmão. Essa pequena margem pode custar R$ 957,70 e perderá o direito de dirigir por um ano. Quem estiver 0,6 dg/l de álcool no sangue, além de pagar a multa, corre o risco de responder por crime, com pena entre 6 meses a 3 anos. O motorista só poderá responder em liberdade após pagar uma fiança estimada entre R$ 300 a R$ 1.200. Mesmo contraditórias, são essas as informações que estão valendo, caro leitor.
Em outras palavras: comendo duas míseras trufas ou bombons de licor, já se está sujeito a pagar multa e perder a carta. Para qualquer um de traquejo mediano com o álcool, essa cota afeta tanto quanto um copo de água. Até aqueles que usam a desculpa obsoleta e ridícula de beber socialmente, tem conhecimento pleno que a atuação da bebida é personalizada. Os indivíduos sem familiaridade com o ato, bebem pouco e já apresentam sintomas de um bêbado. Outros podem lidar enormes quantidades de álcool e ficar levemente alegre.
Muito mais que a própria experiência com o copo, isso está explicado pela quantidade de água do corpo. Como os tecidos musculares são compostos de água, homens ou mulheres com maior quantidade de músculos e com mais água do que gordura, diluem o álcool mais facilmente. Sendo assim, os parâmetros de embriaguez variam e entram em desacordo com uma tabela fixa estabelecida. Mas trata-se de uma lei que , teoricamente, não pode ter brechas. Algo diferente disso resultaria em um universo onírico capitaneado por João Antônio e Vinicius de Moraes, onde haveria um sistema de Carteira Nacional de Consumo de Álcool (CNCC) para definir quem está ou não apto para beber.
Longe de serem divulgadas pela mídia, as simples dinâmicas da vida boêmia contemporânea (ou baladeira, se preferir) estão afetadas, principalmente as que dizem respeito ao bolso. No entanto, essa alteração tem parâmetros diferenciados em cada tipo de lugar. Para as cidades pequenas, por exemplo, esta lei pode incentivar uma divertida prática que é inviável em municípios maiores: ir e voltar andando em grupo, após uma festa ou um bar. Agora, qualquer grupo de amigos em uma cidade maior, dispostos a encarar uma noitada, ou conta com a boa vontade de um conhecido que pode levar e buscar (ou até mesmo participar) da diversão noturna, ou decidem-se por um custoso táxi. Tentando fugir dos gastos com locomoção, analisemos a função de um bom amigo prestativo.
Terá o motorista sóbrio paciência de levar uma galera para um estacionamento de supermercado (local das famigeradas “prés” ou “esquentas”)? Será suportável manter-se apenas na coca (líquida, por favor) ou no suco, enquanto os amigos se divertem com os mais variados drinks? É viável desistir de tudo isso, ficar em casa e somente ser chamado na madrugada para regatá-los, pensando que na próxima vez alguém irá retribuir o favor? Pensando em um “não” para a maioria das perguntas acima, um táxi pode parecer uma solução fácil. Mas imagine o preço da corrida que buscará quatro pessoas em locais diferentes, já que sem o carro, reunir todas em um local específico complica e atrasa ainda mais o destino da noite. Aqueles que desejam chegar na hora que bem entenderem, também gastarão absurdos pegando um táxi individual. Se a cidade do consumidor contar com o sistema de moto-taxi, os prejuízos financeiros serão um pouco menores.
A nova lei é o atestado de óbito uma das grandes diversões da noite: a já mencionada “pré”. Reunir várias pessoas em um lugar para tomar uma antes da balada, muitas vezes resulta em algo mais divertido que o objetivo proposto. Além disso, a atividade servia para tornar viáveis, os goles que tem seu preço triplicado no ambiente noturno e entrar no estabelecimento no “grau” certo. O famoso “rolê” aplicado para descobrir quais os lugares estão “bombando” ou não, está em seus dias derradeiros. Até mesmo na cidade de São Paulo, que tem como vantagem um sistema eficiente de metrô, a prática se torna inconcebível devido ao tamanho da cidade. As baladas que estão muito afastadas de outras, podem ser prejudicadas se o público resolver não se arriscar indo diretamente a ela.
Se a bebida é uma prerrogativa para a diversão em uma festa, o que dizer dos lugares onde o próprio fundamento é a bebida? Os donos de bares do Cambuí (um bairro conhecido pela grande quantidade de estabelecimentos do tipo) em Campinas notaram uma queda geral de 40% do público. Como tentativa de recuperá-lo, os mesmos compraram uma van que levará os beberrões para casa ou para proximidades. A mesma prática também foi adotada em cidades como Recife e Porto Alegre. Se isso não funcionar, provavelmente resultará uma série de garçons e atendentes desempregados na praça, porque para comer bem e ficar tomando suco, o brasileiro fica em casa ou vai a um restaurante.
Excluindo o lado festeiro, a lei realmente irá diminuir os números de acidentes e mortes. Sua existência fará com que uma parcela de motoristas incautos, alcoólatras, depressivos em crises autodestrutivas e adolescentes recém adentrados na maioridade pensarem duas vezes antes de por suas mãos aos volantes em companhia da bebida – sem contar os acuados que não querem perder sua carta. Independente de questões sérias, se a lei não for alterada ou amenizada, daqui a alguns anos, um sentimento de nostalgia tomará conta daqueles que bebem.
A empolgação contida dentro do automóvel, as paradas para acontecimentos bizarros, as horas perdidas nos supermercados, as misturas etílicas improvisadas no banco, os caminhos proibidos, a volta com desconhecidos(as), deixar os amigos em suas próprias casas, voltar sozinho com sua música particular e dormir pensando nas aventuras e fracassos da noite passada. Tudo o que parecia simples há um mês atrás, terá uma áurea especial daqui para frente. Bem-vindo a camisinha do século XXI.
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Gustavo Padovani, 22, pensava em fazer cinema e entrou por acaso em jornalismo na Unesp. Um brasileiro viciado em música, mas é desajeitado no samba e não torce para time algum. Como castigo, é acometido por incidentes improváveis.
E-mail: guspado@gmail.com
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Leia também:
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21 de Julho de 2008 às 0:41
Diferentemente das medíocres reportagens que abordam o tema, Padovani consegue antever um dos possíveis reflexos - talvez o pior rs - dessa lei mal elaborada e excessivamente dura. Além disso, se mostra um bom observador dos fenômenos bizarros do nosso cotidiano. rss
Grande texto filho!
21 de Julho de 2008 às 1:34
…..ahshshahsahsahshhs…..
Eu adorei !!!!! Texto divertido….. adorei…..
Penso que terei que guardar estes recortes sobre bar x alcool para meus filhos lerem …..
…..ahsahsahsahsahsahshsahs…….
23 de Julho de 2008 às 0:06
grande Padovani, ótimo texto, mt bem escrito… juro q senti uma vontade imensa de criticá-lo só pra causar polêmica… mas de tão bom que está, não tenho o q falar…
23 de Julho de 2008 às 13:45
Muito obrigado pelos comentários. Eu gostaria ,sinceramente, que o texto não tivesse razão de existir. Com o bombardeio de informaçôes e reportagens que corroboram para impressionar parte da população, fica dificil pensar em uma situação amenizada. Acho que isso não vai ser igual a caixa de primeiros socorros ou o uso de cinto de segurança. Espero que minha língua queime.
29 de Julho de 2008 às 12:09
Aqui na empresa o texto do Gustavo foi lido por inúmeras mulheres….
Todas nós rimos muito , texto divertidissimo !
Parabéns pelo texto e principalmente aos editores pela escolha do colunista. El;e tem boas idéias e retrata a realidade com muito humor .
6 de Agosto de 2008 às 0:27
Sabem qual a motivação da fiscalização ? A propina.
O governo com o excesso de poder dado aos policiais realmente os estimulou não é mesmo ? A lei nos moldes antigos já era bastante dura e seria realmente muito eficiente caso tivesse fiscalização. O estado prefiriu omitir-se considerar todos igualmente irresponsáveis e bandidos. Daqui a alguns meses esta lei continuará a ser cumprida apenas por nós cidadãos honestos que sempre seguimos as regras e teremos que carregar mais este fardo, sendo proibidos para sempre de sairmos com nossas esposas ou namoradas para um jantar romântico ou um barzinho sem ter de gastar uma fortuna de taxi. Os bebados, marginais, e os acima da lei vão continuar a dar boas risadas de nossa cara de otarios, já que para eles absolutamente nada mudou. Comprovando o que disse mesmo com toda esta palhacada tem alguem preso ? Sim porque as mortes diminuiram mas não acabaram e bebados atropelaram, mataram, destruiram propriedades…. Estão presos ? Os corruptos estão achando tudo isto maravilhoso, dinheiro de propina, fiança, processos, uma verdadeira festa.
4 de Outubro de 2008 às 6:04
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