Resenhas
Conexão Marcos Valle
1 de Julho de 2008 | por Revista Wave
Aos 64 anos de idade, o carioca Marcos Valle une-se aos principais nomes da nova música brasileira em CD e DVD ao vivo
por Daniel Faria
Ele poderia passar para a história simplesmente como o compositor da internacional “Samba de Verão”, a canção que chegou a superar até mesmo os Beatles na parada da Billboard. Ele poderia viver das glórias passadas por ter feito parte da segunda geração da Bossa Nova e se arrastar em discos e shows tributos aos 50 recém-completados anos do mais conhecido estilo da música brasileira. Mas em 2008, Marcos Valle preferiu cercar-se dos nomes mais talentosos da atual música brasileira. O resultado é o CD e DVD Conecta (EMI), gravado ao vivo no Cinematèque, em Botafogo, no Rio de Janeiro.
Com o antigo trauma dos palcos superados, o cantor e compositor carioca de 64 anos apresenta um repertório vigoroso e levemente descomprometido, como é característico de sua obra. A opção é concentrar o setlist na fase setentista do cantor, em detrito ao ínicio bossa-novista, das suas músicas mais conhecidas. O melhor do repertório é quase todo baseado nos discos Garra (1971), Vento Sul (1972) e Previsão do Tempo (1973), quando a palavra de ordem parecia ser “black is beautiful”: arranjos privilegiando o balanço, o soul e o funk dando as cartas em incríveis canções como “Nem Paletó, Nem Gravata”, “Mentira” e “Wanda Vidal”.
Ao contrário dos contemporâneos da Bossa Nova, Marcos Valle sempre primou pela preocupação com a modernização da própria sonoridade. Na década de 90, por exemplo, seus inovadores grooves conseguiram grande repercussão na noite londrina, derivando o drum’n’bossa da então febre das casas noturnas, o drum’n’bass. Enquanto Carlos Lyra, Roberto Menescal e o próprio João Gilberto reciclam infinitamente o mesmo repertório, com a mesma expressividade de décadas atrás – o que não é necessariamente uma crítica, visto que o fazem de maneira competentíssima –, é estimulante ver que há em Marcos Valle, no mínimo, uma curiosidade e interesse em contemporizar seu som com o que há de melhor na atual cena jovem brasileira.
Dito isso, Conecta é também um show a parte por conta dos convidados. Ancorado pelos DJs Plínio Profeta e Nado Leal, o disco tem a participação do Fino Coletivo, do trio +2 (Domenico, Kassin e Moreno Veloso), além do principal compositor surgido no país nessa década, Marcelo Camelo, ex-Los Hermanos. Em entrevista ao jornalista Pedro Alexandre Sanches, Valle afirmou que os próprios convidados sugeriam músicas da sua fase soul pop, dos anos setenta, a preferida dos fãs mais jovens.
O resultado são deliciosas fusões, como “Sincerely Hot”, música do +2, com “O Cafona”, de Valle, ou a perfeita inclusão de “O Vencedor”, hit do Los Hermanos, em “Nem Paletó, Nem Gravata”. A transição dos metais de uma música para outra é tão natural que confirma a inspiração confessa. Camelo ainda participa do principal sucesso do carioca, “Samba de Verão”, subvertendo a canção ao usar uma guitarra elétrica, e na sua composição, “Cara Valente”, gravada anteriormente por Maria Rita.
O Fino Coletivo, um dos grupos mais promissores da nova música brasileira, aparece em “Dragão” e “Boa Hora”, e ajudam a demonstrar a disposição jovem de Marcos Valle. Seu visual, com os cabelos loiros, a pele branca e as camisas coloridas lhe conferem o ar de turista americano em praias cariocas, leve, alegre e jovial. O que não deixa de ser verdade para um artista que se acostumou com o reconhecimento internacional. Agora, com esse Conecta, chegou a hora de uma nova geração conhecer melhor o trabalho de um dos artistas mais subestimados da nossa música.


