Cinema
O happening de Shyamalan
30 de Junho de 2008 | por Revista Wave
Ultra-mega-spoiler do filme do ano; diretor indiano M. Night Shyamalan retorna às controvérsias com Fim dos Tempos
por Tiago Lopes
Caso você ainda queira ver Fim dos Tempos (The Happening, da 20th Century Fox), mas quer chegar o mais virgem possível dentro da sala de exibição, saia daqui e vá para a fila do ingresso. Depois, volte e leia o restante das minhas abalizadas opiniões. Se é de um empurrão mínimo que você precisa, aperte os cintos: M. Night Shyamalan surpreendeu novamente, mas nem foi em comparação a suas obras anteriores. Nesse aqui, ele foi além da sugestão que sempre manipulou tão bem em cenas de suspense e, quando se pede por sangue e cenas realmente violentas, ele entrega sem pudor, não importa se as vítimas são crianças ou idosos. Em algumas de maneira genialmente sútil; em outras, ele esfrega o estrago do estilhaço de vidro na cara do público. Essa é a novidade desse The Happening: Shyamalan finalmente se permitiu ser violento, como todo grande diretor de terror. Agora vai lá, compra o teu ingresso e seja feliz por alguns 90 minutos.
Lembrando do problema anterior, acho, de verdade, incompreensível alguém apontar como um defeito de A Dama da Água (Lady In The Water, 2006) uma águia gigante. Se essa águia estivesse sendo alada por cinco elefantes cor-de-rosa, ainda assim não seria motivo de ridicularização, porque, antes de começar tudo, você, espectador supostamente esperto, foi avisado de que aquilo era um conto-de-fadas. Cinco elefantes cor-de-rosa alando uma águia gigante não são o suficiente num conto-de-fadas, certo?
Caso queira pôr em prova a eficiência de um bom filme, arranje uma outra desculpa, mas que o suspense estava lá, definido por um roteiro que criava leis para o desenvolvimento de sua história e não as ultrapassava (é isso que um conto-de-fadas faz, certo? Estabelece umas regras para que a ação se desenvolva levando-as ao limite), criando uns bons momentos de tensão e uma mensagem bonita no final (isso sempre aparece em conto-de-fadas, e foi assim que o filme se auto-proclamou desde o começo) são fatos inegáveis.
Dito isso, segue breve síntese de The Happening: “a brincadeira é: vento batatão passa e grita ‘estátua!’. Ganha quem se matar por último.” Pensemos então em rápidas sínteses dos melhores exemplares do cinema de suspense dos últimos 30 anos. Cito dois dos meus favoritos: O Iluminado (de Stanley Kubrivk, 1980) e A Mosca (de David Cronenberg, 1986). “‘Sensação estranha’ se apodera de um escritor-wannabe para que este mate toda a sua família. Chance de sobrevivência reside no dedo indicador de seu filho mais novo”. “Cientista cria máquina de fusão de espécies, mas uma mosca intrusa apronta uma daquelas e acaba com seus planos de boa estética”. Pessoas, cinema de terror não pede por coerência, pede por bons sustos, no mínimo. E os três (sim, aqui sou eu equiparando The Happening a esses dois exemplos já consagrados) vão além, bem além de bons sustos.
No alvo de estudo presente, o vento batatão nem é a causa da coisa toda, na real, é uma toxina liberada por plantas que desbloqueia o senso de perigo que todo cérebro humano possui, tornando os alvos desorientados, idiotas e, finalmente, suicidas. E isso tudo são teorias espalhadas por todo o filme, teorias! Assim como em O Iluminado, aqui, só temos especulações do que ocorreu. Repentino como veio, foi-se. Sabendo disso, desviamos a nossa atenção para o que realmente interessa num filme de suspense: tensão latente abrindo caminho para sustos inesperados, e algumas imagens violentas saídas de tudo isso, se possível.
A abertura de The Happening, dos créditos até o fim da primeira sequência, é digna de aplausos desmedidos: enquanto os nomes vão aparecendo na frente de imagens de um céu claro, um piano vai ficando cada vez mais soturno, enquanto as imagens, mais obscuras, com nuvens carregadas sendo mostradas em maior velocidade. Quando o “Shyamalan” aparece abaixo de um “written, produced and directed by”, já é sobre um céu bizarramente escuro. Corta pro Central Park, primeiro ataque combinado de vento batatão e toxinas malignas e a primeira vítima: uma loirinha que espeta seca e diretamente no pescoço uma varinha que prendia seu cabelo. Depois, uns operários se jogando de uns prédios em construção e o caos, o horror!
E o que se segue é a clássica montagem de filmes de terror: cidades sendo evacuadas, pequenos grupos de pessoas sendo escolhidas como protagonistas e um outro tanto de grupos servindo de melhores exemplos de como a tragédia está se manifestando. As outras amostras de vento batatão são mais geniais do que a primeira. Aquela em que três pessoas diferentes se matam com a mesma arma num plano-sequência é de abalar.
Enquanto o número de personagens principais vai se afunilando, Shyamalan vai ensinando titio Spilberg como se aborda a questão famiglia numa tragédia, a la vovô Hitchcock: com humor. As cenas engraçadas aqui são realmente engraçadas, não brotam de um humor involuntário, como muitos acusaram. Quando o Mark Marky tá falando “in good vibs” com uma planta, ele mesmo se toca do ridículo da situação e faz piada disso. E faz mais uma piada quando quer se reconciliar com a esposa e mais uma quando quer apaziguar o espírito da menininha, e todas funcionam, também como aviso do choque que está por vir: quanto melhor a piada, mais chocante os eventos que a seguem serão (e isso foi o mais próximo de vovô Hitch que Shymalan já quis chegar).
E aqui, crianças e idosos são alvos das melhores mortes. A da velhinha que abriga o clã Mark Marky já no terço final do filme foi, sem exageros, a mais violenta da década. E sim, lembro dos exemplos do Cronenberg, mas quero vê-lo competir com isso: velhinha respira vento batatão com toxina maligna, fica despirocada e começa a bater a cara ao longo de uma parede, até chegar numa janela de vidro e não parar, enchendo a cara já inchada e toda machucada de estilhaços. E a gente ainda ganha um close e a galera vai ao delírio.
E quando falei em “montagem clássica de filmes de terror” é porque é uma das escolhas mais visíveis tomadas pelo diretor. Temos mostras do que está acontecendo em outros lugares, só que tudo muito gozadinho, com umas críticas a isso e aquilo outro, tudo gritando por contextualização pra ir além da piada (mas isso me basta). Tem até o final “tudo-recomeça-em-outro-país”. The Happening é a cria mais comum de Shyamalan, reencontro-com-grande-público-blá-blá-blá-whatever, só que muita gente vai deixar de ver esse ponto alto de um gênero que só têm decepcionado (os outros ótimos e recentes suspenses são, não por acaso, crias do indiano aí) por causa do nome manchado do autor, alvo de alguns reaças que insistem em achar O Sexto Sentido algo realmente memorável e não veêm que isso foi só pegadinha do Shyamalan pra ficar com moral na maior indústria de cinema do mundo e fazer no quintal deles o que eles mais desprezam: obras com um valor maior do que o peso das bilheterias para serem distribuídas como todos os outros cachorrinhos obedientes o são, em larga escala.
Talvez esse seja o catch que atravanca a visão da maioria dos críticos: são filmes de autor, claramente feitos para um público menor, distribuídos em massa, causando alguma confusão nas mentes mais desinformadas, o que só os torna mais parecidos com aquele desavisado que comprou um ingresso casualmente pra ver O Iluminado e detestou porque não tinha uma cheerleader esfaqueada lá pelas tantas.

