Opinião
Festa das Cerejeiras
30 de Junho de 2008 | por Revista Wave

Em um fim de semana, exauri todas as minhas possibilidades de equilíbrio entre as mais torpes e as mais eufóricas sensações

por Daniel Faria

Naturalmente, apenas consigo expressar qualquer coisa através de mensagens cifradas, metáforas, paródias, citações. Ordenar pensamentos, selecionar o literal ao interpretativo, ser ríspido e sincero, dificilmente. Está na ordem do meu dia: a verdade é crua, mas cabe a mim, e somente a mim, tomá-la como representativa e definidora dos meus dias.

E que dias. Há duas semanas, teria a revelação: durante o restante do ano, o penúltimo da faculdade e possivelmente o último da minha adolescência-juventude-semi-irresponsável, arriscaria perder tudo, aceitaria correr todos os perigos, em qualquer questão. Sentimentais, físicas, mentais, financeiras. Seria a tentativa de expansão da mente, liberar demônios, agregar anjos e vice-versa. A meta, em suma, era tentar saber o quão alto e o quão fundo podemos ir, quando cientes de nossa situação.

Pois bem. Ainda me atendo às mensagens cifradas – porque isso não é necessariamente um diário, mas passa quilômetros de parecer com qualquer coisa de aspecto jornalístico e informativo -, passei quatro dias, de quinta feira até cá, domingo à noite, quando escrevo tal texto, dormindo poucas horas por dia, bêbado e com diversos problemas estomacais, além de tremedeiras, irritação nos olhos e uma ânsia que parece anular qualquer sugestão de ingerir algo que não seja água. Gelada, somente.

Às vezes, temo simular o tipo de escritor repugnante, que apenas despeja impropérios e sujeiras sobre bebidas, vômitos, sangue e toda espécie de tentativa de chocar o leitor menos atento. Antecipo-me afirmando que, muito pelo contrário, sei transbordar felicidade e boas venturas, e foi exatamente essa inconstância, esse agridoce, a matéria-prima do meu atípico fim de semana.

O palco da minha trajetória rumo aos estados alterados da consciência era a Festa das Cerejeiras, na cidade de Garça, interior de São Paulo. O mote da festa era algo ligado a tradição japonesa e as flores de cerejeira do lago do município, ou qualquer coisa que o valha. Barracas de comidas tradicionais, concha acústica, pessoas aos borbotões esbarrando uma nas outras, uma enorme feira ao ar livre que, ao que parece, atraiu mais de cem mil pessoas nos quatro dias. Sim, enquanto os ingleses têm Glastonbury, com Jay-Z, Amy Winehouse e The Verve, nós, os caipiras, temos Arnaldo Antunes, Kiko Zambianchi e Guilherme Arantes (que, público ridículo à parte, fez belíssima apresentação).

Mas não é sobre shows, não é sobre yakisobas e cervejas (monopolizada, obrigou-me a tomar uma única e detestável marca municipal, o que provavelmente ajudou nos meus já citados problemas estomacais), não é sobre as milhares de pessoas, que escrevo o presente texto. Aqui, quero falar sobre mim, e apenas sobre mim.

Minha primeira constatação é que não sei me divertir sem beber. Felizmente, não me é necessário gastar muitos copos para chegar ao nível da simpatia adequada ao convívio social. Logo na quinta-feira à noite, no primeiro dia, o mau-humor era tanto que não hesitei em brigar com uma ex-namorada e que agora é atual namorada de um desses colegiais-esportistas qualquer, em um carro cheio. O motivo era uma música do Blur, “No Distance Left To Run”, que, vejam só, versa sobre um fim de relacionamento.

O bizarro da história é: findado o show, encontrei-me ao final da festa dentro do meu carro, sendo beijado e acariciado pela própria, aborrecida porque o namorado-colegial-esportista estava acompanhado dos amigos-colegiais-esportistas. Óbvio que a posição de amante casual e detentor dos elogios em relação a façanhas sexuais deveria motivar minha auto-estima, mas a hipótese não me deixara tão contente. Sexo só é verdadeiramente interessante quando se pode ser emotivo e apaixonado após a violência do ato em si. Porque senão é apenas violência e agressão, e funciona apenas quando não há nenhuma espécie de sentimentos envolvidos. E qualquer vaso de planta que saiba o mínimo sobre mim, sabe que isso não ocorre nesse caso.

Definitivamente, porém, esse acontecimento não teria a importância na minha noite que um outro ocorrido na mesma quinta-feira. Um reencontro com um amigo do colegial após anos de distância serviu como uma ligeira pancada sobre minha mente, até então fascinada com o mundano, a libertinagem e a incorreção. Rememorando velhos tempos, chegamos a conclusão de que ele, com vinte e dois anos, e eu, um ano mais novo, éramos ambos produtos finais de uma outra geração, pré-internet, guardando alguns mínimos resquícios dos ideais políticos, da noção de historicidade, da distinção de informação. Confesso que tal percepção me perturbou. Éramos os deslocados entre a geração gloriosa e valente da ditadura, dos jovens clamando pelas Diretas-Já, pelos caras-pintadas do impeachment de Fernando Collor, e essa geração alienada e destemida de hoje em dia, da impulsão digital, do bombardeio informacional, das garotas lésbicas-intended, quando os signos valem mais que a realidade, quando a conclusão e a sugestão da idéia é mais prazerosa do que a sua realização. Éramos reclusos sociais nesse meio-termo, e quando pude partilhar algumas frustrações com um semelhante, fiquei deprimido por me sujeitar a estar e a me relacionar com coisas e pessoas que não me dizem nada, que não me excitam em nada e pior, por meio de uma rápida auto-análise, intuir que por pouco não estava a seguir pelo mesmo caminho. Eu estava rejuvenescendo na hora errada.

Mas o estado deprimente durou pouco. Então, antes de tomar a estrada, decidi também brincar com os signos e com as representações vetoriais e fui, juntamente com as minhas companhias, tirar fotos. E lanço a questão: câmeras digitais – ou celulares que funcionem como tal – são ou não o principal objeto de inclusão ao mundo dos nossos atuais tempos?

Luz vermelha

Cheguei a minha casa quase três horas da manhã na sexta, dormi outras três horas e parti para o serviço, bêbado, com o corpo aos frangalhos, mas a mente desperta e hiperativa. Ativação essa que durou até o fim do dia, apesar da incapacidade de comer alguma coisa, o que me causou extremo mau-humor durante a noite, até que, novamente, começasse a beber minhas doses etílicas.

Mas a sexta feira foi tristonha, para dizer o mínimo. Sem nada no estômago, vi-me cercado de pessoas lamentando problemas familiares e sentimentais no exato instante em que trocava meu mau-humor por uma euforia quase infantil. Inicialmente, um anúncio de separação dos pais antes mesmo da festa começar, fragilizou possíveis tentativas de sedução a que estava sinceramente esperando de determinada pessoa. Depois, um amigo confirma a suspeita de traição por parte da ex-namorada, à qual ele ainda mantinha singelas esperanças de que “ninguém poderia ser tão baixo”. Meu caro, somos todos baixos, da espécime mais nefasta, grotescos e malvados, quando se coloca tantas expectativas sobre pessoas que estão sujeitas às mesmas vontades e gostos e qualidades e perversões que todos temos. Qual a surpresa, afinal?

Ainda não tinha chego a essa conclusão na sexta-feira, mas já esboçava em meus pensamentos que algumas pessoas têm pré-disposição para o sofrimento, para a tortura psicológica. Sentem-se perturbadas com a comodidade, sobrevivem de picos de alegria que são destruídos exatamente por essa ânsia de aniquilação. São dois os tipos de pessoas viciadas por essa ânsia: aqueles que procuram avidamente pelo errado, pelo perturbador, que tem interesse real pela singularidade, pela estética do esquisito, e aqueles que carregam a si mesmos de tais expectativas, sonham com objetivos inalcançáveis para que, quando inevitavelmente esses objetivos não se realizem, culpem outros pela própria tara em sofrer. E assim começam a sonhar de novo, e arrastam-se, por toda a vida.

Mas, afirmo, não é necessário ser infeliz para ser desiludido. Auto-conhecimento sempre foi a capacidade que mais tentei desenvolver nesses anos – o que não significa que considere como qualidade; em toda minha vida, minhas paixões sempre primaram pela incapacidade de firmar opiniões invariáveis sobre qualquer coisa -, e quando se sabe o que quer e o que se pode fazer, o gosto pelo sofrimento não te impedirá de, bingo!, sofrer, mas fará com que tal sofrimento seja usado como experiência de vida.

Voltemos, no entanto, a contextualizar. Éramos três, naquele momento. Minha ex-namorada, filha de pais recém-divorciados, o outro amigo, um ex-namorado traído e eu, fingindo confiança e aconselhando, tentando ser cordial, amigo e compreensivo. Retornamos para nossas casas antes do previsto, visto o peso da situação. Tentei, adversamente, aproveitar o estado de suposto amante casual e transformar a compreensão em carícias mais explícitas, mas nada consegui além de alguns beijos e uma estranha sensação de que certas histórias já demoraram demais a terminar.

Finalmente, o sábado. E já me adianto em informar que situo esse sábado entre os dez dias mais importantes da minha existência, tanto para o bem quanto para o mal. O princípio do dia, acordando às duas horas da tarde, já me deixavam a impressão de que estava atrasado ou adiantado demais para o que me aguardava. Levantei-me trêmulo, absurdamente trêmulo. Acreditei ser a fome a razão, mas ignorei tal opção e ainda tive a audácia de beber duas doses horríveis de licores, chocolate e cassis. Depois, mais uma cerveja. E só então, o almoço, quase quatro horas da tarde. Deitei mais uma hora, e quando acordei, presenciei situações lynchianas. Um amigo drogado, rindo feito uma hiena do meu lado, uma amiga chorando agressões verbais recebidas na noite anterior, e minha estúpida reação ao reencontrar um antigo affair que eu tanto venerava, e que praticamente se atirou sobre mim, mas que usei de tal desprezo para me livrar que cheguei a conclusão de que, especialmente essa noite, seria um canalha de alto nível.

A sensação que se apossou sobre mim quando coloquei os pés naquele lugar é indescritível, mas tentarei rascunhar. Euforia desmedida, mas não só. Havia algo de desilusão em tudo que se insinuasse em minha mente, como se tudo ganhasse o caráter de lícito naquela noite. Tudo estava perdido, éramos todos a escória da sociedade, éramos os inimigos da hipocrisia, éramos odiosos a tudo que beirasse a repressão.

Era hora de rir o mais alto que pudéssemos, de dançar simulando relações sexuais, de ofender gratuitamente as pessoas, de ignorar gratuitamente as pessoas, de ser simpático gratuitamente com as pessoas, de maltratar quem não deveríamos, porque, infelizmente, há sempre o amanhã para resgatar as atitudes vilãs. Sentia-me, desculpe o clichê, como uma pedra rolando, cada vez mais rápida, cada vez mais atingindo o fundo, para então arrebentar o chão e descer rumo ao desconhecido. O sono não existia, o cansaço desaparecera, a fome parecia nunca ter existido. Permito-me resguardar mais detalhes porque, oposto ao que descrevi sobre a geração imediatamente mais nova, interessa-me mais a sensação alcançada do que o signo em si, o fato propriamente dito. Mas admira-me que, salvo percalços, a noite tenha terminado bem, sem complexos de culpa, sem atormentações interiores, apenas a sensação de que o dia passara rápido demais.

Então, chegou o domingo, a ressaca final. Ainda pude desenvolver rápida harmonia com o citado affair-venerável, apenas para registrar que eu me achava indigno de qualquer aproximação: o dia não seria dos melhores.

E realmente, não foi. Quando pude concentrar e ordenar os pensamentos, atitude que estava avidamente evitando, abusei-me de medo. E ciúmes. Havia demorado para notar, mas minha ex-namorada desfilou por todos os cantos com o atual parceiro na noite passada, o colegial-esportista que chamei de corno pessoalmente – atitude bem bisonha e cômica, visto que ele realmente usava um par de chifrinhos luminosos, desses de parque de diversões – e toda a reação que obtive foi um sorriso sem graça. Alguém fizera papel ridículo, e não estava tão certo de quem.

Afinal, que diabos é o fim de um relacionamento? Passam-se meses e meses ao lado de alguém, explorando todas as possibilidades de afeição entre duas pessoas, devorando intimidades, expondo toda a nossa aura para o próximo, para em instantes, tudo não existir mais, como se tudo não tivesse feito o mínimo sentido? Então para quê todo o tempo gasto? Particularmente, decidi me privar por algum tempo de repetir a experiência, que sempre é traumática, queiramos ou não assumir. Por essa minha abstração, talvez tenha surtido efeito negativo ouvir dela que levaria às últimas conseqüências a decisão de não pertencer mais a mim. Ou seja, em breve, nada me restará, nada me será particular na mente de alguém que tanto tempo passou comigo.

Mas enfim, por que deveria lamentar tal fato? Porque desejar a sensação de ser eterno ao próximo, quando ninguém é eterno nem para si mesmo? Temos nossas molduras, mas somos tão inconstantes, tão dependentes do ambiente que nos rodeia, e como podemos sonhar em impregnar as pessoas com uma única silhueta se ninguém realmente se ama por completo? Quando planejamos nos projetar a alguém, todos os defeitos e repressões estarão incluídos no pacote?

A verdade é que sempre tentaremos camuflar nossos defeitos, e é nosso maior erro. Não é a conclusão a que cheguei após esses quatro dias, porque não estou tecendo um trabalho de conclusão de curso da Festa das Cerejeiras. Não. Apenas aprendi a admirar a confusão e a inconstância, porque as variações também são parte do auto-conhecimento. É tão simples que parece ingenuidade, mas a compensação entre defeitos e qualidades é saber usá-los nos momentos corretos e tomar proveito de ambos. O inferno e o paraíso estão mais próximos do que aparentam.

Por fim, nada de mais interessante aconteceria no domingo, com exceção do momento mais crucial de toda essa jornada. No caminho de volta, acompanhado da provável mais importante pessoa desse momento da minha vida, ousei desligar os faróis do carro e dirigir pela estrada somente com a iluminação das estrelas. Poucos segundos se passaram, e quando me dei conta, estava com o carro fora da pista, rumo à um buraco que antecipava a entrada de uma fazenda, um sítio, uma chácara ou o que seja. Freei bruscamente por alguns dez segundos, tempo suficiente para analisar a idéia de morrer. Até hoje, foi o mais perto da morte que cheguei. E eu gostei.

*Preferi não citar nomes em respeito aos envolvidos. E aos pais dos envolvidos.

1 comentário

  1. lucio santanna diz:

    passei por situações semelhantes em alguns festivais que estive com amigos. a bebida causa estragos irremediáveis, hehehehehehehe.

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