Literatura
O outro lado de Machado de Assis
26 de Junho de 2008 | por Revista Wave
Pesquisa do professor e pesquisador Eduardo de Assis Duarte joga luz sobre as influências afro-descendentes na obra do escritor carioca.
por Alexis Peixoto
Embora seja reconhecidamente o escritor mais importante da literatura brasileira e um dos grandes da literatura universal, uma característica de Machado de Assis ainda é considerada um tabu por parte de críticos e estudiosos de sua obra: sua etnia afro-descendente. Para esclarecer este aspecto, o professor e pesquisador de literatura brasileira Eduardo de Assis Duarte empreendeu uma intensa pesquisa de três anos por todo o corpo da obra machadiana. O resultado é Machado de Assis Afro-Descendente: Escritos de Caramujo.
A pesquisa faz parte de um trabalho desenvolvido pelo grupo de pesquisa Literafro, da Universidade Federal de Minas Gerais, dedicado à produção literária afro-descendente no Brasil. O trabalho foi realizado por meio de uma releitura de todas as vertentes da produção machadiana. Crônicas publicadas na imprensa, contos, poemas e romances são apresentados com comentários e ensaios críticos do professor.
Segundo aponta Duarte, há uma tentativa de “embranquecer” Machado de Assis e sua obra que vem desde os tempos em que o escritor era considerado o maior intelectual do país, durante os anos próximos à abolição da escravatura, nas últimas décadas do século 19.“Machado é uma instituição, um cânone. Essa tentativa de mascarar sua cor e o discurso afro em seus escritos vinha de uma preocupação em protegê-lo do preconceito vigente na época, sob risco de por em xeque sua intelectualidade e genialidade devido a sua cor”, aponta. “O próprio Machado de Assis vai tentar mascarar sua etnia mulata de neto de escravos assinando crônicas criticando duramente a sociedade escravista sob a proteção de pseudônimos”, completa.
Apesar de mulato, o escritor conseguiu ascender socialmente em sua carreira de jornalista e ficcionista, chegando inclusive a ocupar cargos públicos durante o período. De acordo com o professor Duarte, para driblar o preconceito Machado se valeu de uma série de concessões à elite branca e intelectual da época, além de seu inegável talento.“Ele sabia que o público estava cansado do romantismo piegas heróico. Então, vai escrever pensando no público e, sobretudo, na mulher urbana, se valendo muito do humor, sempre dirigido de forma velada aos brancos”, destaca.
O livro que contém a pesquisa está em sua segunda tiragem, mas o professor já pensa em uma nova edição ampliada e em outro volume, totalmente dedicado a ensaios sobre o tema.
Crítica à elite branca e escravista
Na análise da obra de Machado de Assis, o professor e pesquisador Eduardo de Assis Duarte se concentrou, em primeiro lugar, na produção do escritor carioca para a imprensa. Nesses textos, publicados nos principais jornais do país a partir de 1880, aparecem as críticas mais explícitas ao regime escravista.“Embora precisasse se esconder por trás de pseudônimos, ele produziu textos muito fortes em prol da causa abolicionista, às vezes por meio de situações inventadas, outras com comentários indignados do noticiário nacional”, aponta. “Por essas crônicas, é possível perceber a posição dele, que defendia uma abolição pacífica, ao contrário do que aconteceu na Guerra Civil americana”.
Durante sua busca, não raro o professor se deparava com textos de forte cunho abolicionista, deixados de fora da obra completa de Machado. Um dos achados mais curiosos é o poema “13 de maio”, escrito para ser distribuído no formato de panfletos durante uma passeata em comemoração à abolição dos escravos e nunca incluído em volumes da obra poética de Machado de Assis. O texto foi encontrado em uma brochura que reunia outros textos produzidos para a ocasião. O esquecimento pode ser fruto tanto dos censores da etnia machadiana, quanto dos esforços do próprio autor. “Ele tinha muito pudor em selecionar seus textos para publicação, sabia muito bem qual era seu público. É provável que o próprio Machado não tenha permitido a publicação desse e de outros textos para evitar ser vítima de preconceito”, explica o professor Duarte.
Os romances de Machado de Assis também compõem grande parte da pesquisa. Neles, o professor aponta três principais características que evidenciam a influência afro, contida nas entrelinhas da prosa sofisticada e complexa. A primeira é justo aquela que para muitos é a principal característica do Machado romancista. É na famosa ironia do autor de Dom Casmurro que reside sua proteção e arma contra a elite branca da época.
Outro importante artifício apontado pelo professor é a utilização de narradores pouco confiáveis, de moral e conduta duvidosa, nos quais o autor disfarça sua voz autoral. São estes mesmos personagens-narradores que revelam a terceira e, talvez, mais importante característica da etnia mulata de Machado em seus escritos.“O maior questionamento que se faz em relação aos romances de Machado é que não há heróis negros em nenhum deles. Pois bem, também não existem heróis brancos, na acepção clássica do termo”, destaca Duarte. “Os protagonistas brancos invariavelmente ou morrem, ou são completos canalhas ou então são fracassados, diminuídos pelo mundo em que vivem”, completa.
Como exemplos é possível apontar Bentinho, de Dom Casmurro, que não consegue lidar com o gênio forte de Capitu e termina sozinho e arruinado; o famoso Brás Cubas, de Memórias Póstumas, que já inicia o romance morto e ao fim de uma existência amoral, não deixa filhos; e o Barão de Santa Pia, de Memorial de Aires, que morre de desgosto três semanas após a assinatura da Lei Áurea e tem as terras e propriedades doadas aos escravos pela filha.“Todos esses protagonistas terminam sua trajetória arruinados, sem filhos ou herança. É como se Machado decretasse a decadência e, conseqüentemente, o fim da geração senhorial, ao dizer que estes senhores não vão transmitir a ninguém o seu legado”, conclui.
Tags: machado de assis


23 de Setembro de 2008 às 17:57
bom…
esse contexto é muito obejetivo, e muito interessante
gostei muito de saber mais um pouquinho sobre Machado de Assis.
saber que ele mesmo sendo negro conseguiu alcansar seu objetivo,
coisa que não era muito fácil naquela época.
realmente eu gostei muito da página!