Música
Orgulho (em nome do produtor)
24 de Junho de 2008 | por Revista Wave

Viva La Vida And Death To All His Friends, quarto disco da banda inglesa Coldplay, coloca em xeque a função do produtor em um disco de rock

por Daniel Faria

“Suas canções são longas demais. Você é muito repetitivo, e usa excessivamente os mesmos truques – e coisas grandes não são necessariamente boas. Você recorre demais aos mesmos sons, e suas letras não são boas o suficiente”. Segundo o vocalista Chris Martins relatou em entrevista a revista norte-americana Rolling Stone do mês de junho, seria essa a impressão que o produtor Brian Eno possuía do Coldplay até começar os trabalhos para Viva La Vida And Death To All His Friends, quarto álbum de estúdio do grupo inglês.

Porque, afinal, o Coldplay é uma banda de excessos. Talvez o grupo de rock mais bem sucedido dessa década, com cerca de 30 milhões de cópias vendidas em todo o mundo, os ingleses emplacaram músicas em novelas globais e protagonizaram concorridos shows quando passaram por aqui. “Violet Hill”, o primeiro single de Viva La Vida And Death To All His Friends foi disponibilizado gratuitamente para download no site oficial da banda durante uma semana, sendo baixado por mais de 1,5 milhão de pessoas.

Não é difícil explicar o fascínio que o Coldplay exerce. A banda notabilizou-se com Parachutes, disco de estréia e o favorito dos fãs de primeira data. Canções como “Shiver”, “Trouble” e principalmente “Yellow”, de temáticas predominantemente românticas, vocais suaves e violões límpidos fizeram a cabeça de casais apaixonados em todo o mundo. A Rush of Blood To The Head, o segundo álbum, dos hits “In My Place”, The Scientist” e “Clocks”, colocaria a banda no topo do mundo.

Então veio X&Y, e apesar das quase nove milhões de cópias vendidas, as primeiras críticas apareceram. O mote das impressões negativas eram as mesmas de Eno: canções longas, vocais usados em falsete praticamente o tempo todo, uso abusivo de teclados ambientes para preencher o som, letras existencialistas. Particularmente, acho X&Y subestimado. Algumas canções exageram no açúcar – “Fix You”, por exemplo – e outras, como “White Shadows”, parecem infindáveis, mas é impossível chamar de mediano ou ruim um disco com pérolas como “Talk”, “The Hardest Part” e “Speed Of Sound”.

Se há algo em comum entre os três primeiros discos, é a nítida influência do U2. Em vários aspectos. Musicalmente, as guitarras discretas e rítmicas, os vocais emotivos, a progressão melódica – e grandiosa – das canções são as mais óbvias. Além disso, as letras de Chris Martin usam-se frequentemente de referências a natureza, cores e estados de consciência, características típicas daquelas escritas por Bono. Ambos são roqueiros bonzinhos que defendem causas nobres. E principalmente, o Coldplay é a última grande banda em simultânea progressão comercial e artística, desde o próprio U2.

Como se as semelhanças não bastassem, os ingleses convidaram o produtor dos principais discos do U2 para Viva La Vida And Death To All His Friends. Brian Eno, que também já trabalhou com Roxy Music e David Bowie (artistas que transitaram com maestria entre a canção popular, a arte e a música artificial não-manual) deveria ser o responsável por sintonizar o Coldplay dentre os principais nomes de seu tempo, produzindo o esperado grande disco do grupo. O resultado, se não provocará revoluções no meio musical, vale pelo debate da função do produtor na confecção de uma obra.

Sinos de Jerusalém
Primeiro, as definições: Viva La Vida And Death To All His Friends é o melhor disco do Coldplay, e é até agora, o melhor disco lançado no ano. E poderia facilmente passar por pastiche do U2, se o termo “pastiche” não tivesse conotação pejorativa. As letras agora também se apropriam da religião e da política como temas, tão usuais para o grupo irlandês. O uso de texturas – e não apenas teclados aéreos servindo de camadas de som, como no disco anterior – é a contribuição esperada de Eno, mas não é só.

Acredito ser o trabalho da percussão o grande mérito da presença do produtor no disco. Nada de baterias óbvias, marcações quatro por quatro, quebradas de tempo comuns no rock clean do Coldplay. Pelo contrário, aparecem batidas semi-tecnos (“Viva La Vida”), palmas (“Lost!”), pancadas do glam rock setentista (“Violet Hill”) e explosões dançantes (“42”). Assim como faz Larry Mullen Jr., do U2, o baterista Will Champion (exímio nos vocais de apoio) nunca escolhe a opção mais fácil para conduzir a música. “Lovers In Japan”, por exemplo, traz aquela sinergia entre melodia e ritmo encontrada nas melhores canções dos irlandeses, como “Bad” e “Where The Streets Have No Name”.

Não quero fazer um tratado sobre as semelhanças entre U2 e Coldplay – mesmo porque a Renata D’Elia já o fez de maneira competentíssima – mas penso ser de extrema valia na música atual um grupo produzir um álbum de tamanha qualidade e com alto teor comercial. Ainda que o disco não seja tão fácil quanto os anteriores, os refrões sejam curtos e as melodias não sigam aquele padrão inglês advindo dos Beatles (com exceção talvez de “Strawberry Swing”), é extremamente agradável e contagioso.

Como fã e defensor do U2, fico intimamente feliz em perceber que os irlandeses têm, ao contrário do que afirmam alguns críticos, um legado particular, uma sonoridade reconhecível e afirmativa de seu tempo. O crítico da extinta revista Bizz, José Augusto Lemos, dizia que não era possível mesurar a real importância dos Smiths no mundo do rock, já que não haviam bandas propriamente parecidas na questão sonora. No caso do U2, apesar de várias bandas citarem o grupo como influência, o Coldplay é a primeira banda a atingir sucesso relativamente similar ao da matriz, e o mais curioso, de uma matriz jovem, oitentista, longe dos guetos do pós-punk ou new wave.

Para concluir, e sendo extremamente parcial, ouso afirmar que “Viva La Vida”, um quase épico de apenas quatro minutos, e sua letra sobre sinos de Jerusalém, missionários e São Pedro, é das melhores músicas já feitas nessa década. E que, ao que parece, pelo que ouvi no show que o Coldplay fez na Brixton Academy, no dia 16 e transmitido pela Rádio BBC, deverá se tornar um maravilhoso petardo ao vivo. Sendo ainda mais ousado, todas as bandas indies - Strokes, White Stripes, Arctic Monkeys -, todas os projetos de cantoras envolvidas em polêmicas – Lily Allen, Amy Winehouse -, todos os produtos derivados de Timbaland, hip-hop e garotos moderninhos de boys bands, nenhum deles produzirá obra que resistirá ao tempo como os ingleses inofensivos do Coldplay. E tenho dito.

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4 comentários

  1. giancarlo rufatto diz:

    filosoficamente falando: quando começei me meter com musica, o coldplay era o tipo de banda que eu queria ser, na verdade eu queria ser um parachutes e mudar vidas. Já o coldplay no começo era vendido como o radiohead sem a parte chata e acabou sendo como um U2 com a parte chata. então agora eles chegaram no estagio “joshua tree” da carreira, um bom disco, cheio de intenções “classicas e educadas”, mas os fãs do inicio ainda serão devotos do boy, mesmo que venham o mal educado “atchung baby” e o subestimado “zooropa” do coldplay.

  2. admin diz:

    “o coldplay no começo era vendido como o radiohead sem a parte chata e acabou sendo como um U2 com a parte chata.”

    hahahahahaha, ótimo, giancarlo.
    só para constar, acho o achtung baby o melhor disco do u2. se é o que o futuro reserva para o coldplay, sorte a nossa. :)

  3. Vestiário | Melhores Discos de 2008 (2) diz:

    […] La Vida (Or Death And All His Friends)” faz um caminho inverso de seus antecessores: é mais texturizado, coeso e profundo. Título inspirado pela arte de Frida Kahlo e capa arquetípica da Revolução Francesa, “Viva La […]

  4. coldplayer diz:

    galera , se vcs quizerem o cd completo, ta aí o link pra download: http://rapidshare.com/files/260350708/Coldplay_-_Viva_La_Vida_Prospekt_s_March_Edition.zip

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