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Capítulo I - Pra Lembrar
24 de Junho de 2008 | por Revista Wave

Literatura-roteiro-de-cinema: primeiro capítulo de Pra Lembrar, protótipo de romance do editor Daniel Faria
Capítulo I
I drove all night to get to you
Is that all right?
Roy Orbison - I Drove All Night
Hesitei primeiro entre o scotch uísque e o bourbon americano, bebidas estrangeiras tais tão rústicas quanto a cachaça a que me acostumara, mas de inegável bom gosto em convívios bon vivant, como pretendiam simular os delicados presentes nesse funéreo jantar, ainda que minha consciência leviana me perturbasse a perguntar o que estaria a fazer entre aqueles nítidos provincianos em uma noite tão agradável para vadiar entre a cidade.
Quando Mateus assumiu o patético papel de anfitrião e deu a distribuir o scotch aos convidados em reluzentes copos souer liso, tive o instantâneo mas útil momento de analisar minhas possibilidades de fuga. Estávamos reunidos na varanda; saltar aqueles sete metros era a hipótese mais provável. Poderia ainda sugerir a retirada estratégica ao banheiro para eliminar o teor etílico e fugir pela janela, mas, a observar a faceira expressão de Adriana, não descartaria que ela se auto-convidasse para me acompanhar. E hoje, absolutamente, minhas pretensões sexuais tinham nome, rosto e estonteantes pernas brancas, longas, finas, deliciosas. Onde estaria Juliana agora? Estaria a me esperar, ou estaria a esperar por outro?
Fugir era impossível, pelo menos não sem antes agradar e desagradar meus convivas da maneira que eles tanto aguardavam e se acostumaram. Aliás, permitam-me apresentar minhas insuportáveis e íntimas companhias nessa noite de sexta-feira. Mateus Ribeiro, o anfitrião, cuja amizade me desaba boa parte dos meus vinte e cinco anos. Advogado renomado, com todos os piores vícios típicos da profissão, inclusive uma auto-indulgência que seria intragável caso correspondesse à realidade de suas pretensões. Jéssica Monteiro Ribeiro, a esposa rodrigueana de Mateus, “o maior pudor da cidade”, dona de portentosas curvas e de uma ainda mais portentosa conta financeira dos pais bancários, os famigerados Monteiros.
Jorge Helder, amigo de Mateus e “meu contraponto ideológico”, como adorava explicar, visto que vestia com tanta determinação a carapuça reacionária que só me restava ridicularizá-lo tanto quanto ridicularizava meus amigos stalinistas do jornal. E ainda usava explicitamente goma nos vincos da calça, e por alguma razão, aquilo perturbava sobremaneira minhas percepções visuais. Adriana Helder, já citada, esposa de Helder, e como não poderia deixar de ser, nutria paixão pelo contraponto ideológico do marido, no caso eu, debaixo dos olhos do mesmo, mais preocupado em explicar as posições de Olavo de Carvalho do que imaginar as variadas posições que a esposa desejava experimentar em camas alheias. Eram alguns dos meus poucos amigos e pensar em gastar qualquer minuto a mais ali dentro causava-me sincero asco.
Após ingerirmos aquela quantidade de álcool suficiente para tornamos todos desinibidos, amigáveis e despejarmos impropérios como adolescentes um para os outros, a conversa passou do caráter político, que tanto agradava Mateus – sentia-se um próprio juiz ao ver-me debater com Jorge, e chegava a sorrir de maneira quase orgástica com uma ou outra “ofensa ideológica” – para as de caráter sexual, que atiçava sobremaneira as mulheres presentes. É de Mateus a primeira oração-definição da noite, já empunhando seu terceiro copo de uísque e quase caindo de lado da poltrona texana que comprara em viagem ao meio oeste americano. “Visitas antropofágicas”, justificou à época da viagem. Nunca entendi o que leva alguém de classe média-alta do interior paulista ao meio oeste americano. Talvez seja óbvio demais para deduzir, mas enfim.
- A indiscrição masculina, nos dias de hoje, é infinitamente superior à indiscrição feminina quando o assunto é sexo. Impressionante como as coisas mudaram, meus caros.
Mateus freqüentemente terminava qualquer frase sugerindo discussões. Era seu prazer indescritível, seus olhos buscavam os lábios dos presentes com uma fome por debates que era algo quase doente. Assustava-me, por vezes, o Mateus.
- E mudaram, definitivamente para pior. Porque as mulheres têm, por qualidades intrínsecas, a feminilidade, a delicadeza, a função de mãe. Sinceramente, não consigo tolerar uma mulher discutindo partes do corpo masculino tal qual fazemos os homens, em bares, praias, comerciais de cerveja, o que seja. A vulgaridade é um defeito masculino. Em uma mulher, a vulgaridade se torna um repelente asqueroso – respondeu Jorge, com a face estampada de boas venturas e o queixo esforçando-se para tocar o nariz. O comentário fez Adriana relinchar qualquer bobagem sobre machismo, acompanhada da estridente risada de Jéssica, que por sua vez, também fez qualquer barulho reclamando da observação tipicamente machista de Jorge. Não prestei a devida atenção às vozes das mulheres porque minha parte machista – que corresponde a grande parte da minha consciência, antecipo – fez meus ouvidos se fecharem no exato momento em que abriram a boca.
Esperei a resposta de Mateus para intervir.
- De certa maneira, tendo a concordar com Jorge. A libertinagem, em nossos dias, ganhou uma proporção indevida para o bom andar social. Vejam vocês. São dezenas, centenas de revistas femininas a proclamar a liberdade sexual, quando, na verdade, estamos apenas igualando funções. Tudo virou quebra de recordes, quantas vezes por noite, orgasmos inenarráveis e todo tipo de exibição de recordes. E mulheres debatendo sobre tal assunto não é uma questão que me agrada, porque elas estão igualando os defeitos maiores dos homens, que é a maneira estúpida com que se discute o sexo como se discutisse uma partida de futebol – respondeu, sagaz, o Mateus. Era vez de Jéssica falar, e torcia abundantemente para ela ser a única mulher a falar algo nessa noite.
- Por mais que eu possa brincar sobre o assunto, também concordo com vocês. Tenho pavor de algumas amigas que celebram suas indecências, como se estivessem a comemorar algum campeonato de beleza. Porque sexo é algo tão íntimo, tão particular, que não deveria ser tratado de maneira tão vulgar, como nos canais de televisão e nessas imundas revistas masculinas. Sem contar os inúmeros sites pornográficos, onde qualquer criança tem acesso. Mateus, consegue imaginar esse mundo para seu filho? Mas confesso – disse Jéssica, ruborizando propositalmente, se isso era possível – que é uma prática extremamente prazerosa.
E riu. E os outros riram juntos. E logo começaram todos a rir e a brincar, soltando exclamações ligeiramente obscenas sobre tamanhos, freqüências, particularidades e todo o resto. E riam, aquele riso bobo de quem está a cometer algum pecado perdoável. O que contradizia tudo o que havia sido dito até então, mas dessa maneira a família católica sobreviveu por séculos em sua tradição de hipocrisia, então nada inédito. Observei calado, até que Mateus pediu minha opinião sobre o assunto. Perguntei a única pessoa sã da casa, no caso, para mim mesmo: que assunto afinal estava sendo discutido?
Lembrei que, sempre que fora convidado por Mateus a essas filosóficas reuniões, a expectativa era de que escandalizasse os presentes com a mais improvável e contrária opinião possível. Munido de uma vontade hercúlea de sumir daquele ambiente o mais rápido, deveria responder de maneira a desagradar tanto o coro dos contentes quantos dos descontentes, e sem abrir espaço para discussões. Descartei, portanto, a possibilidade de encarnar a Betty Friedan e sensibilizar as mulheres, o que geraria respostas contrárias. Assim, poderia fugir daquela patética reunião o quanto antes e gastar o restante da noite a procurar Juliana. Deus, onde andaria Juliana naquele instante?
- O problema, obviamente, não está na indiscrição feminina, ou na opulência machista, como querem acreditar. O problema é que tanto vocês, católicos recalcados, quanto as pessoas vulgares de comerciais de cerveja e tais supervalorizam o sexo, demonizam, sentem prazer mais em discutir e rir de piadas obscenas e sem graças do que em propriamente realizar o ato. Deveria ser entendido como um momento sublime, de alienação e prazer, não como um pecado feito às escondidas – respondi, sem acreditar em uma palavra do que havia dito, e, imediatamente, levantei-me, ergui o copo quase vazio, ingeri o conteúdo restante do scotch e avisei que a companhia dos queridos amigos era um prazer, mas tinha meus afazeres. Não sem antes ouvir de um alterado Jorge a já costumeira definição.
- Mas você é, caro Pedro, um anti-social irreparável. Tudo, em sua vida, parece ser entendido como atos de alienação. Não à toa, seu último artigo no jornal atacando o prefeito Shigetoshi é típico de um alienado esquerdista.
Pronto. Voltamos a estaca zero. Agora era impossível permanecer ali por algum minuto a mais. Murmurei um “claro, Jorge, claro”, e pus-me a caminhar até a porta, após despedir-me carinhosamente dos outros presentes. Ao abraçar Mateus, que me conduziria até às escadas, ouvi, em tom de voz debochado, apesar de pronunciada em volume mínimo:
- Essa sua história de desvalorização do sexo não convenceria um surdo que tivesse olhos para conhecer suas tramóias. Sei bem porque está apressado, meu caro Pedro. Vai encontrar aquela puta da Juliana, não é mesmo?
Irritei-me com a observação, menos pela descoberta das minhas intenções do que pela ofensa a mulher que tirava meu sono. Não que houvesse argumentos razoáveis para rebater a acusação, mas vindo da boca de Mateus, tão justo e julgador em seus conceitos de bem e mal que, por algumas singulares vezes, resultaram em brigas ásperas, aquilo me causou desconforto. Mas não o suficiente para sacrificar qualquer segundo a mais naquele antro que, no fim das contas, já estourara toda a minha cota de paciência em todo esse mês de janeiro.
- Que perspicaz! Deveria usar essa astúcia toda para verificar as atividades extraconjugais de sua mulher – e ri, dando a entender que estava, era óbvio, a brincar com o casal-modelo da juventude. Era a filha dos Monteiros, afinal.
- Você é um piadista, Pedro, um piadista. Não há mulher como Jéssica nessa cidade - e sorriu largamente, feliz da vida, como se pudesse proclamar a todo o mundo a decência da mulher.
- Claro que sim, Mateus – e abracei o velho amigo de infância. Despedi-me, busquei meu recém-comprado Vectra, adquirido em parte com o dinheiro do acordo feito com o Jornal do Cidadão, liguei a chave, acenei para a varanda e sai a dirigir pela cidade.
A divina sensação de liberdade para os ouvidos era algo contagiante naquele momento. A alienação é o bem maior para os jornalistas, ou para quem é constantemente bombardeado com informações. Nada mais natural que, após uma semana conturbada na redação do jornal, queira ao meu dispor uma sexta-feira de tranqüilidade e prazer. E dirigir por ruas escuras, na penumbra, com os faróis shannon, anestesiava-me. Para compor o ritual de sublimação, uma coletânea de Roy Orbison, cantando “In Dreams”, depois “Crying”, “Only The Lonely”, “California Dreaming”, uma preciosidade após a outra.
Deixava a música guiar meu caminho. Atravessei a avenida central, onde alguns garotos castigavam os ouvidos alheios com alto-falantes que alcançavam decibéis perigosíssimos para a sanidade mental, enquanto meninas dançavam freneticamente. A música era qualquer bobageira que ataca o bom senso todo o verão.
Segui o caminho pelo outrora simpático bosque, agora uma reunião esdrúxula de árvores escuras e grama da altura da canela. Quase uma floresta. Pavoroso. Era impressionante como a cidade tornara-se bizarra e mal-cuidada em tão pouco tempo. Há dez anos, tinha a glória e a calmaria de uma cidade interiorana americana dos anos cinqüenta, mas após três mandatos da família Shigetoshi no comando da cidade, nossa privilegiada estética dera lugar a fábricas cinzentas, empregos sub-humanos, conjuntos habitacionais espremendo o centro, tudo em nome da inclusão social. Nós, do Jornal do Cidadão, éramos a voz contrária que perturbava e questionava os mandos e desmandos dos Shigetoshi. Fui contratado com um belo adiantamento após alguns anos editando o semanário independente Nova Direção, da qual recebi prêmios diversos na faculdade, fama de enfant terrible e, é claro, prestígio entre a elite pensante da cidade.
Mas não, não quero pensar em política no momento. Minha intenção é relaxar, apenas relaxar. Porém, quando Roy Orbison canta “I Drove All Night”, volto ao mundo real. Dirigi, sem propósito, por toda a cidade até a área industrial, próxima a esquina da casa onde Juliana morava, onde nos conhecemos há mais de dez anos. Ali, o palco do primeiro beijo. Perplexo, ouço o celular tocar. É Ligia, minha doce noiva Lígia, a perguntar que horas chegarei em casa. É hora de voltar.
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1 de Julho de 2008 às 22:32
Bravo!