Opinião
Memórias da bronquite
24 de Maio de 2008 | por Revista Wave

O editor da Revista Wave relata as complicações, neuroses e reclamações de um enfermo respiratório

por Daniel Faria

Sei que soarei imprudente, mas afirmo, com toda a experiência adquirida em duas décadas de vida, que doenças respiratórias são as mais patéticas e tristes que um ser humano pode carregar em seu ciclo de enfermidades. Não tem o teor da emoção constante de um cardíaco, não pode passar pelo charme etéreo da seqüela mental, não inspira a compaixão que só os aleijados são capazes. Em seu lugar, temos a fragilidade dos pulmões, a respiração trincada e bruscamente interrompida por tosses que remetem a martelos, que sufocam, sufocam e sufocam.

O que pode fazer o olhar vizinho frente aos enfermos respiratórios? Não há compaixão. Há pena. Pena daquele esforço profundo para captar o ar ao redor, e há o asco, o asco da tosse, quando a língua paralisa-se, por um mínimo instante entre os dentes, e a saliva escorre em casos agudos. Pena da inutilidade física, quando uma simples caminhada pode levar o indivíduo a prostrar os joelhos e declarar: “estou cansado, estou cansado”. Vejam que a nossa vida não tem sido fácil durante todos esses anos.

Há, naturalmente, certo exagero. Mas só entendemos a delicadeza e a fraqueza dos nossos semelhantes. Pois um cardíaco não me inspira tanta compaixão quanto o enfermo respiratório. Quando me pairo a pensar nas tentativas esportivas frustradas, chego às vias da emoção sincera, acreditem-me. Certa vez, um professor de educação física do Colégio Antares, onde estudei por anos, disse que admirava meu futebol, que eu era habilidoso e tinha grande visão de jogo. Mas declarou espantado que eu corria demais, que começava a respirar com esforço logo ao final do primeiro tempo de uma partida e deveria saber me poupar. Mal sabia ele que, logo nos primeiros minutos dos jogos já estava extremamente desgastado e com falta de ar, mas meu preparo físico era suficiente para prosseguir jogando até o final. Meu corpo adquiriu um aspecto ligeiramente disforme: os ombros são curtos, assim como o peitoral, mas as pernas são grossas e fortes.

Quando tentei prosseguir adiante com minha pretensa carreira futebolística, vejam só, jogando no modesto mas vitorioso time juvenil de minha cidade, percebi que nunca teria o fôlego dos outros meninos da minha idade. Isso já era suficiente para inibir minha presença num campo de futebol – um dos ambientes da mais pura pressão que pude estar – e aliada a uma timidez crônica, sepultaria minhas chances para o futebol.

Não que tal detalhe necessariamente tivesse conseqüências perigosas na minha singular relação comigo mesmo. Porque, afinal, nem era tão habilidoso e bom jogador assim – mas seria um técnico de talento, garanto – porém, volto a repetir que as doenças respiratórias privam o indivíduo de sua ambiência com o mundo ao redor, sua relação com lugares e pessoas. Poeira, queimadas, poluição, mudanças bruscas de temperatura e todas as imprevisibilidades de caráter natural ou não, tudo pode afetar a nossa vida de uma maneira que não afetaria os nossos vizinhos.

Aos dezoito anos, por exemplo, trabalhei por contrato durante um ano no almoxarifado e na garagem da Prefeitura Municipal da minha cidade. Posso afirmar, com o mínimo de exagero, que durante todos aqueles meses convivendo com motores de ônibus da década de 60, caminhões de lixo e pneus marcados a ferro – pelo escriturário, que coincidentemente, é este que vos fala – passei 365 dias longe das melhores condições respiratórias. Meu alívio ao final do contrato parecia loucura para os desavisados, mas Deus sabe a alegria e o privilégio de um bom respirar.

Esclareço que sofro de bronquite crônica desde pelo menos trinta dias de vida, quando adquiri uma pneumonia e por pouco não estaria aqui presente para contá-los da desvantagem de ter sobrevivido. Sim, meu pessimismo é um exagero, mais comum aos piscianos do que poderia supor, não que isto venha ao caso. Mas sigamos. A bronquite é um misto maléfico de tosse, falta de ar, inchaço, falta de apetite, dores no peito e um cansaço inigualável, digno de maratonistas. O resultado é a fragilidade e nós, que sofremos de tal doença, sabemos como a situação é preocupante.

Se o indivíduo tem bronquite e vê glamour em fumar, melhor parar de assistir a filmes de Humphrey Bogart e esquecer, não será possível uma convivência pacífica entre seus pulmões e a nicotina. Se o indivíduo gosta de sentir o vento percorrer seus cabelos, tal qual um protagonista de novela global, seja cuidadoso e proteja o pescoço e os pulmões. Se adorar tomar líquidos gelados, seja caipirinhas, cervejas ou mesmo a refrescante água, cuidado, a temperatura baixa pode aguçar um resfriado, que aguçará uma gripe, que aguçará a bronquite. Terrível, terrível.

Vou enfatizar meu exagero, para não desgostar qualquer paralítico ou cardíaco ou doente mental que leia meu relato. “Eu não posso caminhar e ele está reclamando de um probleminha no pulmão”, “a qualquer momento, meu coração pode parar e ciao dolce vitta”, “não consigo satisfazer minha parceira na cama e vem esse resmungão, olha só, vá inalar oxigênio”, os debates seriam infinitos com a turma toda reunida. Pois bem, há ocasiões em que falta até força para completar uma frase. Eu entendo todos vocês, mas, correndo o risco da repetição, afirmo que só entendemos a delicadeza dos nossos semelhantes. Como se apiedar daquilo que não ocorreu, ocorre ou ocorrerá a si próprio?

A complicação respiratória impede a pura e completa interligação do homem e o ambiente em que vive. Caso tal motivo não seja suficiente para elencar a bronquite, a pneumonia e demais estilizações pulmonares dentre as mais ridículas enfermidades, então desistirei de demais explanações. Talvez quando tossirem repetida e inesgotavelmente ao redor de suas mentes ocupadas, possam perceber a gravidade. Mas nunca se apiedem. Nada nos incomoda tanto.

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