Literatura
Mineiro marginal
20 de Maio de 2008 | por Revista Wave
Depois da experiência formal dos concretismos, o poeta mineiro Cacaso recupera o amor como tema central da poesia
por Cesar Augusto Rodrigues
Em texto sobre Ricardo Reis, depois de considerar inspirada a escolha pelos “seis versos”, Álvaro de Campos[1] considera-o grande poeta, “se é que há grandes poetas neste mundo fora do silêncio de seus próprios corações”[2]. A citação de Álvaro sobre o mais intimista dos heterônimos de Fernando Pessoa poderia ser usada quase como guia de leitura de Cacaso também.
Intimista como Reis, Cacaso além de poeta foi ilustrador e compositor de sambas, inclusive alguns cantados por companheiros como Elton Medeiros e João Donato. Nascido em Uberaba, Minas Gerais, em 1944, o poeta Cacaso foi um dos expoentes da poesia marginal brasileira nos anos 1970 e 80 ao lado de Francisco Alvim, Heloisa Buarque de Hollanda e Ana Cristina Cesar; grupo que renovava a importância do conteúdo na poesia brasileira diante da supervalorização da forma proposta e endossada pelos concretistas e neo-concretistas dos anos 60.
Ainda antes do AI-5, mas já sob ditadura militar, Cacaso publica o primeiro livro, A Palavra Cerzida (em 1967), e, depois de se afirmar com Grupo Escolar (1974), publica em 1975 Beijo na Boca, um livro de poemas curtos abordando como tema primordial o amor e alienando-se quase completamente do mundo real.Introduzido pela epígrafe “Sou um tupi tangendo um alaúde”[3], tirada do modernista Mário de Andrade, Beijo na Boca baseia alguns de seus poemas na oposição entre modernismo e romantismo, as duas tendências estéticas que mostrar-se-ão as mais importantes no desenvolvimento da estética própria do poeta, que ainda vai buscar inspiração estética formal em haicais e formas descritivas pós-modernas.
Essa oposição entre moderno e romântico aparece já no primeiro poema do livro: “e com vocês a modernidade”. Se o título introduz a modernidade, o primeiro verso, “Meu verso é profundamente romântico” é um primeiro aceno de contradição, além de uma análise do próprio processo criativo do poeta. As dúvidas sobre a piada estar no título ou no verso são esvaziadas com o derradeiro verso: “Ai que saudade que tenho de meus negros verdes anos”. Muitíssimo romântico, o verso dialoga com (e retoma) os “verdes anos” da infância do poeta romântico Casimiro de Abreu[4]. Se o título, antecipado pela epígrafe modernista, fazia parecer que o tom do poema seria modernista, o próprio poema desfaz o engano ao utilizar uma referência romântica.
Referência retomada claramente no neo-romântico “Aos pés! Da musa”. Um dos melhores do volume, vale a reprodução integral:
o meu amor e eu passamos a
sensação um para o outro de que
ainda somos crianças adoráveis cheias
de gozo e neo-românticos segredos
e assim voam os verdes anos
Nele, os “verdes anos” são o presente – que vai passando – e não o saudoso passado. São verdes os anos para os amantes, as “crianças adoráveis cheias/ de gozo e neo-românticos segredos”. Ainda mais romântico que os dois casimirianos é “ah!”, o poema mais romântico do livro. Expressando desejo e dotado de exclamações, “ah!” formaria com os outros dois a trinca diretamente romântica de um livro pós-moderno de poesia. Se os modernistas (notadamente os brasileiros de primeira hora) referem-se frequentemente a temas românticos e os revisitam, os pós-modernistas (lastreados pelos últimos modernistas), se é que se pode definir alguma poesia como pós-moderna, são menos referentes a tais temas e encontram na forma e na palavra o motivo para o poema. São mais referentes ao conceito mallarméano de símbolo e às possibilidades semióticas e físicas do concretismo ou do poema-objeto.
Assim como se apóia em Casimiro de Abreu para escancarar as referências românticas, Cacaso toma emprestados versos de Mário de Andrade e de Oswald de Andrade para expor as influências modernistas. A epígrafe exprime para o leitor essa influência ainda antes da leitura de qualquer poema. O tema do tupi, o brasileiro autóctone, primeiramente valorizado pelos escritores do romantismo[5], encontraria também forte expressão nos modernistas de primeira hora, tanto no Macunaíma (1928) de Mário quanto na Poesia Pau-Brasil (1925) ou no “tupi or not tupi” de Oswald.
Mais que referir-se ao tupi, em “há uma gota de sangue no cartão postal” Cacaso versa sobre um “brasileiro manhoso”, que como o Macunaíma, finje que vai mas não vai. A referência aqui é mais velada que a anterior, a Casimiro, assim como a feita a Oswald – no poema “lá em casa é assim”, a referência parece ser a Memórias Sentimentais de João Miramar (1924): “pra continuar rejeitado assim/ prefiro viajar pra Europa”[6].
Mas ainda mais marcante que as referências modernas e românticas, o tema mais importante e recorrente de Beijo na Boca é o amor. Nem tanto para o platônico, nem tanto para o sensual (as duas vertentes aparecem em alguns poemas), Cacaso tem uma visão fortemente pessoal sobre o tema. Essa pessoalidade justifica outra vez citar o texto de Álvaro de Campos sobre Ricardo Reis: a poesia de Cacaso, como a de Ricardo, é “demasiadamente virada para o ponto cardeal chamado”[7] Cacaso.
Seus poemas falam do amor vivido, do desejado e do fracassado. Da esperança e da desesperança no amor. Tudo em primeira pessoa, num eu-lírico que em poucos versos, ora sutis, ora reveladores, escancara impressões e sentimentos. Seus poemas são formalmente baseados em simplicidade e singeleza. São poemas curtos, sem rima nem métrica, ora flertando com formas modernistas como o poema-pílula ou o poema-piada, ora com estruturas tradicionais como os haicais orientais (já subvertidos pelos poetas beatniks ou por Paulo Leminski, o divulgador mais expressivo da sublime forma japonesa no Brasil).
Sobre alguns dos poemas
Os poemas em Beijo na Boca são curtos, de poucos versos, sendo a maioria deles de poucas sílabas. Isso dá ao livro um ritmo rápido, permitindo que os poemas se resolvam sem perder a idéia central de foco por um devaneio sequer (são poucos os casos em que o poeta se permite um suspiro mais longo). Mas mesmo essa evidente rapidez é incapaz de abalar a tranquilidade do eu-lírico de “ré menor” (“fazendo versinho/ querendo carinho”), por exemplo. Ainda que esse eu-lírico se expresse em poucas sílabas e versos, ele parece sempre satisfeito com a “feliz” realização ágil da idéia do poema.
Essa realização ágil pode ser encontrada em quase todos os poemas, mas aparece com destaque especial em alguns como “estilos trocados” (“Meu futuro amor passeia – literalmente – nos/ píncaros daquela nuvem./ Mas na hora de levar o tombo adivinha quem cai.”), “cartesiana” (“daquele amor que nunca tive tenho/ saudade ou esperança?”) ou “sinistros resíduos de um samba” (“não chore meu amor não chore/ que amanhã não será outro dia”), este remetendo ainda às referências sambistas do poeta.
O uso freqüente de versos curtos e de idéias tão rápidas quanto o tamanho deles permite faz das frustrações e desilusões amorosas do eu-lírico menos dolorosas, mas eternamente desesperançosas. E as desilusões em Beijo na Boca são causadas por motivos tão diversos quanto o amor não correspondido de “seresta ao luar” (“desde que declarei meu amor nunca/ mais me olhou de frente”) ou a presença freqüente do relacionamento fracassado em “sina” (“o amor que não dá certo sempre está por/ perto”). Desilusão que é tão grande em “falando sério” (“Outro amor? Não caio mais.”) que o eu-lírico ousa abdicar de amores futuros (e alguém acredita nele?) para evitar maiores sofrimentos.
Menos sobre frustrações e desilusões, mas também abarcando as dificuldades do amor, “hora do recreio” explicita a indecisão do eu-lírico entre dois amores, mas um problema para voltar a pensar só amanhã, diz o último verso. Essa indecisão entre os amores volta a aparecer no último poema do livro. Também o mais complexo e o menos preso ao tema amor, “o mergulhador” encerra o livro pensando na indecisão entre os amores enquanto mergulha em abismos infinitos (“Horizontalmente os astros fabricam as dimensões/ do abismo. Penso em meu amor. Qual deles?”), criando uma espécie de cenário onírico que cabe ao leitor concretizar em lugar de compreender (ou até absolver, já que vários dos poemas podem ser lidos como pequenas confissões de um eu-lírico apaixonado).
Além dos versos curtos, Cacaso lança mão de alguns haicais, que apesar de sua estrutura e temática de tradição multicentenária não fogem do principal tema poético do livro. Originalmente com a natureza e as estações do ano como temática básica, para o poeta mineiro as formas orientais de três versos tematizam também o amor de seus outros poemas. Do ainda não encontrado de “happy end” (“o meu amor e eu/ nascemos um para o outro// agora só falta quem nos apresente”) ao fracassado de “as vacas magras” (“é porque entrei demais na sua intimidade que/ estou fora dela agora// o excesso de amor nos separou).
No sensual “estações” (“Do corpo do meu amor/ exala um cheiro bem forte// será a primavera nascendo?”) e no bucólico e magoado “passeio no bosque”, que abrasileira a imagem da onipresente ameixeira dos haicaístas para a da goiabeira (“o canivete na mão não deixa/ marcas no tronco da goiabeira// cicatrizes não se transferem”), a presença dos elementos básicos da temática de haicai são mais diretamente presentes e observáveis e fazem deles dois dos mais líricos de todo o livro e bons exemplos da bela apropriação que poetas ocidentais podem fazer dessa forma poética.
Depois de Beijo na Boca, Cacaso publicaria ainda outros três livros de poesia (o último deles com o irônico título Mar de Mineiro, em 1982) antes de morrer em 1987 como um dos principais poetas brasileiros da segunda metade do século XX e como expoente da geração que ficou conhecida como a “geração mimeógrafo”, festejada pelo crítico José Guilherme Merquior desde o início como a “primeira geração pós-vanguardas” da poesia brasileira.
[1] Ricardo Reis e Álvaro de Campos são dois dos mais famosos heterônimos de Fernando Pessoa.
[2] in “Nota Preliminar” a Ricardo Reis, publicado em Poemas Escolhidos de Fernando Pessoa na coleção do jornal Estado de São Paulo.
[3] A epígrafe modernista entrega referências anteriores ao contato com os poemas. Convida-nos a refletir sobre o tupi [o verdadeiro brasileiro?] e sobre a musicalidade. Se um alaúde é um bom instrumento para marcar o ritmo, a poesia de Cacaso não se orienta por tal cadência autóctone: a cadência de Cacaso é uma cadência de samba, irregular, marcada por alguns tons mais altos e por outros mais controlados, mas sempre executados numa cadência incerta. E essa incerteza conduz a leitura de cada um dos poemas a partir do momento em que o conteúdo do primeiro poema [“e com vocês a modernidade”] questiona seu título e nos prepara o espírito para a amenidade e singeleza da poesia de Cacaso.
[4] Em “Meus oito anos”, seu mais famoso e citado poema, forte referência do romantismo presente em diversos textos modernistas, o poeta Casimiro de Abreu [dos principais autores de nossa segunda geração romântica] canta nostálgico à infância, seus verdes anos.
[5] Talvez o principal nome do romantismo brasileiro, Gonçalves Dias fez em sua poesia muitas apologias à terra e aos índios brasileiros e o considerado principal volume da extensa obra de José de Alencar trata-se de Iracema, outra homenagem ao Brasil tupi que recebia “virgem” a cultura européia.
[6] A despeito de termos outros importantes personagens da literatura que curam “dores de amor” com uma viagem à Europa, a viagem de João Miramar parece ser a mais evidente referência no poema.
[7] in “Nota Preliminar” a Ricardo Reis, publicado em Poemas Escolhidos de Fernando Pessoa na coleção do jornal Estado de São Paulo.



31 de Julho de 2008 às 20:47
uma errata:
a heloísa buarque de hollanda não era precisamente poetisa, mas principalmente uma crítica que agitavabastante a cena da poesia [promovia encontros e debates de poetas].