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Até onde, amor?
19 de Maio de 2008 | por Carol Bataier

Um dia ele quis saber por que você conversava tanto com aquele rapaz. E você, acreditando que ele havia esquecido, explicou: “é meu amigo, sabe? gosto dele”. Foi um lapso, você pensou. Todo amor tem seus delírios. Mas o amor é forte, você acreditava, e nada abala um grande amor.

Veio então o dia do decote: “não use, por favor, acho vulgar”, ele pediu. E você obedeceu. Respeitar os gostos do outro também faz parte do amor.

Outra vez, ele pediu para você não falar mais com aquele amigo. Você se forçou a entender: pode mesmo parecer estranho. Amor tão grande merece pequenos sacrifícios. Com tristeza no peito, entendeu. Obedeceu. Foi o mudo fim de uma amizade. Mas o que não se faz para manter o amor?

Depois, teve a saia: ele pediu para não usar. Tudo bem, meu amor merece respeito, você pensou. E a saia, que era bela, ficou no fundo da gaveta. Ganhou cheiro de guardado. Mas o amor prosseguiu.

O amor prosseguiu, e com o grande amor vêm os grandes pedidos: deixe aqueles amigos, não use essa blusa, não saia sozinha. E você, que já não tinha mais tantos amigos, obedecia: vale a pena por amor?E depois: porque as unhas vermelhas? Mas pra que passar batom? Quem foi que te ligou? E você, que não tinha mais para onde correr, obedecia.

E um dia, você sem seu esmalte, sem sua saia e sem seu amigo, se viu tão diferente e perguntou “será tudo isso amor?”.Você não se reconheceu e percebeu: o amor não te amava, somente te queria. E você, que só amava, se doou para o amor.

Foi então que você chorou todos os momentos doados. Foi então que você chorou por sentir o seu corpo dominado por outro alguém. Foi então que você quis saber como tudo começou. Foi então que você quis saber onde foi que o amor ficou.

O seu, você sabia, continuava no peito. Mas como entregar o amor, quando não se sabe mais onde fica seu coração? Como doar um amor se o seu corpo não é seu, se o outro dominou. O amor é egoísta, você pensou: ele não sabe aceitar. O amor é egoísta, só ama do seu jeito.

Então, sem saia, sem decote, sem aquilo que um dia você foi, assim, despida e humilhada, você percebeu que o amor puro era o seu, que nada pedia em troca e que tudo aceitava.E como quem se livra da mão que tapa a boca e sufoca, você se libertou. Procurou no fundo da gaveta a saia guardada e colocou. E no fundo da gaveta o que ficou foi o amor, que agora já tinha cheiro de guardado.

3 comentários

  1. ximbas diz:

    mas essa menina é uma artista das letras

  2. Angela diz:

    você escreve muito bem!!!!

  3. Daniela diz:

    Muito bom!

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