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A bola pensa?
19 de Maio de 2008 | por Joaquim Veloso

E então, meu caro Acosta? Futebol e inteligência são compatíveis? O que você acha?

Você percebe que é um estúpido quando se acostuma durante anos a acompanhar a vida de jogadores de futebol de beleza impagável como Amaral, Biro-Biro e Junior Baiano – sem falar do Valdívia, que ficou a cara do Nardoni depois de cortar as madeixas – enquanto do outro lado do oceano um velhinho judeu e esquisito chamado Woody Allen filma duas belezocas como Scarlett Johansson e Penélope Cruz aos beijos no longa Vicky Cristina Barcelona, que será apresentado no Festival de Cannes, o mais importante festival de cinema do mundo (alô Isaac!).

Mas enfim, aqui estamos, aqui celebramos nossa felicidade. Nós, os corintianos, não temos Johansson mas temos Chicão, o melhor beque em atividade no futebol brasileiro, e temos Herrera, dedicado argentino disposto a entrar no panteão dos ídolos pernas-de-pau que o Corinthians tanto se acostumou a formar. Temos Douglas, meia esquerda habilidoso e inteligente (o último foi o Ricardinho, lembram?). Temos Acosta, que marcou um golaço no último sábado contra o Gama. Parafraseando o genial Julinho de Almeida: mais vale um gavião na mão do que dois bem-te-vis sobrevoando. Ou seriam duas aranhas, como diria o Patropi, digo, o Raul Seixas?

A verdade é que nós, brasileiros de verdade, entendemos o futebol como algo acima de todos os males, acima de qualquer preocupação comezinha. Então vem uma tal de Aline, que enviou e-mail para o nobre editor Daniel Faria, comparando o estilo do meu texto ao de Diogo Mainardi, aquele sujeitinho que afirmou que futebol emburrece, porque é a coisa mais estupidificante que existe. E isso porque sugeri que o padre sumido deveria ter emprestado os balões para a Isabela, o anjo caído.

Afirmou ainda para eu ter o cuidado de não me tornar tão desagradável quanto o Mainardi. Ora, mas não estou aqui feito um rei momo rocambolesco a explanar meus conhecimentos teóricos e práticos sobre o mais plebeu dos esportes? Não compareço toda semana aqui nesse poço de cultura que é a Revista Wave para comentar os assuntos popularescos, da nossa querida família brasileira? Para ser comparado ao símbolo da falsa elitização intelectual e política da mais indecente revista brasileira, que é a Veja?

Por outro lado, costumo jactar-me de minha propensão à sabedoria, pois meu repertório de alta cultura se iguala ao meu conhecimento futebolístico. Para exemplificar: em uma mesa sentado ao lado de figuras como Nelson Rodrigues, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino, não faria feio. E me pergunto, com toda a sinceridade que me é permitida, se o futebol combina com inteligência. O escritor Lima Barreto costumava dizer que tudo tem limite, e o futebol não goza do privilégio de coisa inteligente.

E agora? Serei eu, Joaquim Veloso, um paradoxo ambulante? E pior, um paradoxo ambulante teimoso e inconveniente, que não sabe se situar entre os porcos ou entre a nossa elite pensante? Você pode dizer que vários dos nossos pensadores contemporâneos entendem o futebol como o esporte brasileiro por excelência e debatem o assunto com a mesma perseverança com que Platão explicava a Teoria das Idéias nos bons tempos. Mas não me convencem, nem a mim, nem aos meus camaradas de cachaça, que assistem ao seu precioso jogo duas vezes por semana com a mulher reclamando da ausência sexual. E então, meus caro leitores? Futebol e inteligência são compatíveis? O que vocês acham?

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Obs: Não comentarei a segunda rodada do Campeonato Brasileiro por um único, singelo e indiscutível motivo: não liguei a televisão nesse domingo. Empurrado por amigos, fui conferir, na pacata cidade de Bauru, a versão interiorana da Virada Cultural. Não cheguei a tempo de conseguir ingressos para ver a única atração que me interessava de verdade, o Zimbo Trio, então fui compelido a assistir a uns tais de Carlos Bronson, banda horrível do litoral paulista, mais precisamente Santos (que é a única cidade do mundo onde peixe morre afogado), cujo esforço em estragar boas músicas de Caetano Veloso e Jorge Ben era admirável. Depois, vi a atração principal, Nação Zumbi. Não vi o Zimbo, mas vi o Zumbi. Eles tocaram uma única música, enorme, de quase uma hora e meia, que falava de maracatu, macô, malungo e maldades que mal consegui entender. Claro que eles davam uma parada no meio da música, porque ninguém agüenta tocar tambor tanto tempo, mas logo voltavam ao mesmo ponto onde tinham parado. Incrível! Até pensei ter ouvido uma música de Jorge Mautner que gosto bastante no meio daquela algazarra percussiva (porque, obviamente, melodia é algo que passa longe das rádios de Recife), mas decerto fora um delírio causado por doses etílicas excessivas.

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