Personagem
Pés alados
13 de Maio de 2008 | por Revista Wave

Fred Astaire dançando com Ginger Rogers; ninguém fez mais para popularizar a dança do que esse casal

por Daniel Faria

Leveza, harmonia, elegância, simetria, equilíbrio, mas acima de tudo, sofisticação. Fred Astaire é sinônimo de tudo isso e permanece, 20 anos depois de sua morte e mais de 40 anos após abandonar a dança, o maior dançarino de todos os tempos. É a própria personificação de um ideal estético, de uma qualidade particular daqueles anos 30, de cenários art deco, de camisas brancas, sapatos de verniz e cartolas de seda, de uma Nova York cintilante e classuda, blasé e abundante, como nunca se vira antes e nunca se repetiria depois.

Para quem assiste a seus números extraordinários como a dança no teto e nas paredes de Núpcias Reais (1951) ou a disputa com a própria sombra em Ritmo Louco (1936), pode imaginar que Astaire já nascera deslizando suavemente por onde quer que andasse. A verdade, porém, é que o artista desde a tenra idade já ensaiava e trabalhava com inesgotável rigor para aprimorar sua arte.

Fred nasceu em Omaha, Nebraska, em 10 de maio de 1899, em uma época que o vaudeville tinha uma importância para o mundo do entretenimento tal grande quanto a televisão possui hoje. Acompanhados de uma mãe, Ann Geilus Austerlitz, determinada com todas as forças a expor ao mundo o talento prematuro de seus filhos, Fred e sua irmã Adele, dezoito meses mais velha, foram matriculados ainda crianças em escolas de piano e de dança.

Sob o olhar (e o chinelo) rigoroso da mãe Ann, Fred e Adele estreariam no vaudeville em Nova York em 1906, em Cyrano de Bergerac. Curiosidade: Fred interpretava Roxane – quem fazia Cyrano era Adele, mais alta do que ele. Em 1909, ambos passaram dois anos na escola, quando ficaram afastados temporariamente do palco. Foi a única educação formal dos irmãos, que em 1911 já estavam novamente em cima de palcos dançando tangos, valsas ou o que estivesse na moda. Já com 18 anos em 1917, Fred e Adele – com quase vinte – chegariam finalmente no circuito da Broadway, onde obteriam reconhecimento quase imediato.

Gloriosa Broadway
Nos anos que estiveram na Broadway, os irmãos Astaire formariam o caráter da sua arte assimilando o que existia de melhor na dança do começo do século nos Estados Unidos. A influência direta dos maiores dançarinos da época, os casais Eduardo e Elisa Cansino (pais de Rita Haywirth, futura parceira de Fred) e Vernon e Irene Castle, adicionada ao ritmo insuperável de dançarinos negros como Bill “Bojangles” Robinson e John Bubbles, tornaram a dança dos irmãos Astaire um misto de malícia, suavidade e classe, em total concordância com a música que se fazia nos anos 20.

E que música! Adele e Fred conquistariam Nova York em musicais como Lady Be Good (1924), de George Gershwin e seu irmão Ira; Funny Face (1927), também dos Gershwin; e The Band Wagon (1931), de Arthrur Schwartz e Howard Dietz, interpretando músicas que hoje estão entre os maiores clássicos do cancioneiro americano. “S Wonderful”, “Dancing in the dark” e “Fascinating Rhythm”, dentre outras, foram ouvidas pelas primeiras vezes nesses musicais, que fascinava também os europeus em bem sucedidas temporadas em Londres, Escócia e País de Gales.

E em uma dessas temporadas no Velho Mundo, Fred perderia sua parceira. O Lorde Charles Cavendish, filho do duque de Devonshire, se encantara com Adele e a pedira em casamento, o que a fez desistir da carreira de dançarina. Sozinho, Fred faria o musical The Gay Divorce, em 1932, (com Clara Luce como parceira), onde apresentaria para o grande público a eterna “Night And Day”, de Cole Porter. No ano seguinte, Fred também se casaria, com Phyllis Blake Potter, uma socialite americana. Imediatamente após o casamento, partiram para Hollywood em um avião. Era a vez do cinema conhecer o talento do dançarino.

Nascido para bailar
“Apesar das orelhas enormes e daquele queixo, seu enorme talento superará tudo”, profetizaria David O. Selznick, chefe de produção da RKO Radio Pictures, a nova casa de Fred Astaire. Estrearia no cinema em Voando Para o Rio (1933), cujo número “The Carioca”, uma rumba de Vincent Youmans, seria a primeira de muitas antológicas parcerias com outra também estreante, a estonteante Ginger Rogers.

Quando a irmã abandonara a carreira, Fred decidira que nunca mais teria outra parceira fixa. Ginger, que Fred considerava cafona (“nunca se sabia com que monstruosidade Ginger viria vestida para filmar”), porém, se tornaria sua mais notória companhia nos nove bem-sucedidos filmes que rodaram juntos pela RKO. Se a convivência fora dos estúdios não era um paraíso, entendiam-se perfeitamente em cena.

Filmes como A Alegre Divorciada, de 1934, Roberta, de 1935, e principalmente O Picolino, do mesmo ano, comprovavam o que um diretor de produção teria dito na época: “Ele dava classe a ela e ela dava sex appeal a ele”. O entrosamento era impressionante. Quando a Academia resolveu presenteá-lo com um Oscar por contribuição à técnica dos musicais, em 1949 – mesmo ano que rodaram o último filme juntos, Ciúme, Sinal de Amor, após dez anos separados – Ginger Rogers lhe entregou o prêmio.

Pés alados

Na década de 40, Fred se acompanharia de outras atrizes do nível de Eleanor Powell (Melodias da Broadway, 1940), Rita Hayworth (Ao Compasso do Amor, 1941, e Bonita Como Nunca, 1942) e Cyd Charisse (A Roda da Fortuna, 1953, e Meias de Seda, 1957). Um verdadeiro perfeccionista, Fred chegava a passar dez horas por dia ensaiando os complexos números, planejando-os com meses de antecedência.

Abandonaria a dança em 1968 e passaria a interpretar alguns poucos papéis dramáticos. Durante todo esse tempo, até 1987, quando morre, manteve a imprensa afastada de sua vida particular com o mesmo rigor a que se dedicava à suas coreografias. Nunca se misturou com o pessoal de Hollywood, não gostava de dar entrevistas e vivia dizendo não entendia o suficiente de dança para opinar a respeito.

Tinha horror ao nostalgismo. Fez o que pôde para livrar-se da caricatura que formaram de sua época, afirmando não ser saudosista e que sempre odiou os sapatos lustrados e as cartolas que usava nos filmes. Mas é impossível não imaginar que, onde quer que esteja, alto-falantes escondidos nas nuvens estejam fornecendo a música, produzida pela colossal orquestra da MGM, regida por Lennie Hayton ou Johnny Green, para que Fred Astaire dance e encante eternamente.

8 comentários

  1. fabrício diz:

    muito bom! adoro o fred astaire!

  2. Isaac Pipano diz:

    Por isso nunca gostei de futebol.

  3. Adriana Gomes diz:

    Ele sabia como ninguém unir a dança e a música de uma forma que ambos se tornavam um só na leveza dos seus pés.

  4. osmar diz:

    Ele e Ginger Rogers formavam um par perfeito. Pareciam que tinham nascido um para o outro. Foi o maior dançarino que já existiu.

  5. adriana diz:

    um dos melhores dançarinos se não for o melhor. todos os seus filmes são leves e a coreografia envolvente. assisti ciúme, sinal de amor e amei a cena em que sapateia com sapatos “mágicos”. fantástico. pena hoje não haver dançarinos como ele.

  6. Emerson diz:

    os melhores dançarinos foram:
    michael Jackson.
    Fred aster.
    genny kally.
    chirley temple.
    james brow.

    depois tiveram outros.

  7. sebastiana olivia diz:

    sou apaixona pelos dois maiores dançarinos que eu ja vi:Michael Jackson e Fred Aster. com certeza

  8. naiara diz:

    Ele o Fred foi bom dançarino, mas dançar como Michael Jackson ainda tá pra nascer!!!

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