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Entrevista com o cartunista Arnaldo Branco
13 de Maio de 2008 | por Revista Wave
“O Brasil é na verdade um país sério demais”; Revista Wave entrevista o cartunista Arnaldo Branco
por Daniel Faria
“Ele é inteligente, ele é engraçado, ele é gente boa, ele é o cartunista Arnaldo Branco e você é fã”, diz a descrição da sua comunidade no Orkut. O carioca Arnaldo Allemand Branco, 36, é um dos principais nomes da nova geração de cartunistas do país e certamente o mais ácido e politicamente incorreto. Seus dois personagens mais conhecidos, por exemplo, são o malandro Capitão Presença – super-herói cujo poder é sempre ter maconha e que virou livro pela Editora Conrad – e o cafetão ultra-machista Joe Pimp, que adora espancar e humilhar suas mulheres.
Arnaldo foi um dos criadores, ao lado dos também talentosos Allan Sieber e Leonardo, da já legendária Revista F., talvez a última tentativa decente de se realizar uma publicação de humor no país. Arnaldo trabalhou na elogiada adaptação para quadrinhos da peça O Beijo no Asfalto (Nova Fronteira, 2007) de Nelson Rodrigues – as ilustrações são de Gabriel Góes. Atualmente, escreve colunas para a revista Monet e desenha a série de quadrinhos “Mundinho Animal para o site G1.
Já definido como “o melhor cartunista que não sabe desenhar da atualidade”, pelos traços toscos e quase infantis, a maior qualidade de Arnaldo é exatamente a agressividade irônica das suas tiras. A classe artística brasileira é seu alvo preferencial. Sendo a Revista Wave uma publicação atenta à situação cultural do país, não poderíamos deixar passar as pepitas de sabedoria desse talentoso cartunista. Com vocês, o Mau Humor de Arnaldo Branco.
Revista Wave - Seu pai [o jornalista Aloísio Gentil Branco], era Secretário de Redação do Correio da Manhã e d’O Globo, certo? Quando foi isso? Ele chegou a trabalhar com o Nelson Rodrigues?
Arnaldo Branco - Secretário do Correio da Manhã, de 50 e poucos, creio, até o colapso total do jornal em 1969, e Secretário de Redação d’O Globo, de 1971 até sua morte, em 1987. Tinha 15 anos quando o pai morreu, não lembro de conversar sobre Nelson Rodrigues, que passou rapidamente pelo Correio em 1967, mas eles devem ter convivido. Não acredito que gostasse dele, meu pai era amigo incondicional do Carlos Drummond de Andrade - ainda temos lá em casa a obra completa autografada - que o Nelson vivia sacaneando, principalmente por não ter ouvido elogios o suficiente do Drummond para sua própria obra.
O Nelson era um pouco egocêntrico, não é?
Opa, mas nenhuma crítica pro Nelson por isso. Ele trabalhou em vida por um reconhecimento que veio, na proporção justa, só depois da morte, tinha mais que azucrinar os colegas de geração - e redação.
O fato de o seu pai ser jornalista te influenciou na idéia de seguir a carreira? Por que decidiu optar pelo curso?
Com certeza meu pai influenciou minha escolha, ficou aquela imagem romântica de um emprego que te permite conviver com gente como Otto Maria Carpeaux e Drummond, e que costumavam chamar O Quarto Poder. Claro que quebrei a cara, tanto porque já não era bem assim no tempo do meu pai como porque agora é pior - você é colega do Jabor ou da Hildegard Angel e qualquer blogueiro tem mais influência que o Mônica Bergamo.
E o gosto pelos quadrinhos? Quando surge a idéia de fazer carreira como cartunista?
Angeli. Tive uma curta fase de gostar de quadrinhos de super-herói e era um desenhista promissor, que devia ter estudado ao invés de achar que ia evoluir naturalmente sem praticar, então já fazia HQ’s com dez, doze anos. Mas basicamente o culpado é o Angeli esse lance de me orientar para quadrinhos de humor e de comportamento. Ele era o mais próximo de um rockstar que um quadrinista podia ser, portanto deixei essa carreira de back up se não conseguisse aprender a tocar guitarra, o que acabou acontecendo.
Vamos falar de bairrismo. O Caetano diz no Verdade Tropical que percebe uma ingenuidade quase boba na maioria dos paulistanos, se bem me lembro, não estou com o livro para consultar, ele afirma isso usando o Toquinho como exemplo. Você, que é tipicamente carioca, no bom sentido, o que difere um paulista de um carioca? Aliás, como você definiria o carioca?
Acho que a informalidade carioca faz mais vítimas do que a tal frieza paulista. Já vi muita gente ser magoada pela famosa mania de marcar encontros que nunca vão se concretizar, ou de marcar e simplesmente não comparecer do carioca, que, vítima de um bolo, finge cariocamente não se importar. É preciso muito cinismo para sustentar a couraça da espontaneidade por aqui. Enquanto a pontualidade paulista até para enventos sociais mostra respeito por regras básicas de convivência humana, mesmo que pareça de fora uma obsessão doentia em organizar a diversão. Já defini isso de forma mais grossa: São Paulo é pra casar, Rio de Janeiro é pra fuder.
No “Mundinho Animal”, do G1, sua proposta é tirar sarro da nossa classe artística. O mais interessante é que você expõe geralmente o ridículo do artista anônimo, daqueles que procuram um lugar ao sol. O que você acha que acontece com o país? Os novatos são patéticos realmente ou não existem condições de se criar arte decentemente no país?
Na verdade, falo de todo tipo de artista, os em ascensão, os em queda, os do panteão e os ancorados ao solo, que nunca irão a lugar nenhum. Talvez a confusão seja porque não nomeie os consagrados diretamente. Não acho que aqueles que estão buscando lugar ao sol sejam melhores ou piores por definição, só acho que o talento nunca é pré-requisito para o reconhecimento aqui no Brasil - e o encontro dele com o sucesso é um evento bissexto. Que não há condições, isso é óbvio. Nosso mercado editorial é ridículo, a indústria do cinema inexiste, nem vou falar de teatro, que, se não é um anacronismo, aqui é tratado como um, entretenimento para a terceira idade. Funcionando mesmo temos a TV, que nivela por baixo por uma questão de sobrevivência, isso nem é uma crítica.
Por que você acha que isso acontece? A estabilidade econômica e a ascensão social não poderiam criar condições para a produção de uma arte esportiva, de vida, de neopolítica, assim como foi a Bossa Nova na época do JK, ou os sambistas do Estado Novo, como o Noel Rosa, o Lamartine Babo, o Ary Barroso? Ou o brasileiro só funciona pressionado, como no regime militar?
Não, acho que se os militares voltassem ao poder estariam feitos, imagina sofrer a oposição do, sei lá, Wilson Simoninha. Acho que o que havia antes que dava condição para o artista se desenvolver era o culto do amor pelo ofício - por vários motivos, inclusive pela falta do que fazer, a indústria do entretenimento não te oferecia tanta coisa que dispersasse sua atenção. Acho que a contracultura e o vanguardismo radical têm uma parte de culpa também, quando decretaram que a Academia é um câncer e que qualquer coisa pode ser considerada arte - e que negar esse Direito Sagrado ao artista é o supra-sumo da caretice. O que acontece é que todo mundo fica achando que já nasceu pronto, ninguém se aprofunda ou troca idéias. Não é a toa que o umbiguismo come solto nas artes.
O Fernando Gabeira é candidato a prefeito do Rio e a Rolling Stone desse mês o estampou na capa. O que você acha do Gabeira? Essa coisa de político-star, alternativo, é coisa inédita no país ou estou esquecendo de alguém?
O Gabeira é legal por todas as coisas de que vai ter que abrir mão para poder se eleger, como todas as pessoas bacanas que tentaram antes. Político-star-alternativo não é inédito: o Darcy Ribeiro, por exemplo, era muito mais hardcore - a campanha para governador do Rio em 86, que estava perdida de qualquer jeito para a força do Plano Cruzado e do PMDB, foi hilária. Imagine um candidato gago falando dos peitinhos das índias que Pedro Álvares Cabral encontrou em 1500.
E o Darcy concorreu com o Gabeira nessa eleição, que era filiado no PT. O que eu sugeri com político-star-alternativo é que virou, digamos, cool, apoiar o Gabeira. Capa em revista moderninha, pró-campanha na internet, apoio da classe artística e tudo mais. Mal comparando, é uma situação que acontece muito nas eleições americanas, onde a participação de blogueiros e dos artistas muitas vezes é considerada mais valiosa do que a da grande parcela da população. No Brasil, isso pode vir a acontecer?
Estou descrente porque o processo eleitoral é viciado, e porque manjo a indignação seletiva desse povo na internet. Quando quiseram fazer campanha contra a eleição da Rosinha, uma causa justa, lembro que a chamada no site “Rosinha Não” dizia: “De São Conrado a Santa Teresa, diga não!” Isso em uma eleição para Governador! Conclamar a Zona Sul para conter as hordas de bárbaros é too much classe média, não é a toa que depois da vitória da senhora Garotinho surgiram várias campanhas pela volta do estado da Guanabara. Mas torço pelo Gabeira, quem diria que aquele cara que vi de tanga na TV em 1980 ia virar a última reserva moral da nação.
Cartunistas brasileiros intelectuais existiram aos montes, ou pelo menos alguns que merecerem a alcunha, como o Millôr, o Jaguar, o Henfil, são vistos dessa maneira. Dos cartunistas mais novos, e pelo o que eu te conheço, você é o que tem o perfil mais próximo dessa tradição clássica: é carioca, tem repertório político e tem doses suficientes de erudição, alta cultura ou o que você preferir. O que você acha que é preciso para ser intelectual no Brasil?
Lembro do Woody Allen falando sobre o fato de sempre o tomarem por intelectual: “é que eu uso óculos”. Minha formação literária é mais acidentada que a carreira do Pete Doherty, e meu repertório político, se estamos falando da política tradicional, é bem rarefeito, devo ter feito umas dez charges na vida. Bem, acho que se você quer trabalhar com algo que envolva criatividade, vamos botar a coisa assim, você tem que ler bastante - não como alguém que acha que o número de letrinhas decodificadas pelo seu cérebro acumula pontos para algum programa de milhagem intelectual, mas como alguém sendo influenciado por aquilo. Quando já sabia que queria trabalhar com humor, lia por exemplo o Millôr como quem se droga - estava sob a influência, e não lendo apenas pela fruição ou pra acumular bagagem.
E qual desses cartunistas é seu preferido? Lembro de ter lido uma entrevista em que você afirmava ter se interessado inicialmente pelo Henfil. E no trabalho de roteiros, diálogos, quem foi a principal referência?
Meu favorito é o Jaguar, se estamos falando desses especificamente (residentes no Rio - o Henfil era mineiro - com bagagem intelectual etc). Herdei uma coleção das revistas Senhor, onde o Jaguar tinha uma seção, “O Jacaré”. Relia aquilo direto, era sensacional. Mas a revista Senhor era de outro Planeta já na época em que o Brasil era outro Universo - as piadas com episódios históricos às vezes vinham com as legendas em latim, e isso não é uma piada sobre como as edições eram antigas, o público da revista sabia o que queriam dizer em português. O sucateamento do ensino é um dos grandes inimigos do humor. Mas voltando, Henfil nem foi muito uma influência no traço - o dele era daquele jeito caligráfico, mas intencional e excelente. O meu foi o que consegui fazer imitando provavelmente o Angeli, mas muito mal. No texto, sempre li com atenção os roteiristas de cinema que gosto, como Clifford Oddets, Ben Hetch, Billy Wilder, Woody Allen, além dos suspeitos brasileiros de sempre: Verissimo, Millôr, Ivan Lessa.
Você já afirmou que o primeiro lugar em que você realmente exerceu o diploma de jornalismo foi na extinta revista Bizz. O jornalismo, como profissão, te interessa? Você preferia ser reconhecido como cartunista ou jornalista?
Bem, no meu caso sempre quis fazer coisas, e não escrever a respeito. Conheço vários jornalistas da área de cultura que botam no currículo que foram os primeiros a escrever sobre essa ou aquela banda - não entendo a glória disso. Mas gosto muito de vários jornalistas que conseguem manter uma assinatura.
Ainda no jornalismo. Você concorda que exista uma falta de humor absurda no jornalismo atual? De um lado você tem as lamúrias do Jabor, a agressividade cada vez mais cinza do Mainardi, o recalque do Reinaldo Azevedo e do outro a imparcialidade sem brilho dos idiotas da objetividade, que são os nossos jornalistas anônimos. O Paulo Francis, por exemplo, que é ídolo de praticamente todos eles, mesmo quando pingava veneno, era implacavelmente engraçado, possuía o (mau) humor necessário. O brasileiro desistiu de vencer pela anedota?
O problema é que existe esse mito de que o brasileiro é engraçado, bem-humorado, o país da piada. Mentira. Aqui o índice de analfabetismo funcional nivela por baixo a capacidade de entender humor - e brasileiro não aceita gozação, só ri de si mesmo sob efeito de drogas. Desses que você citou, gosto do Diogo Mainardi: acho que uma prova do que falei, sobre o lance do brasileiro não ter senso de humor, é o tanto de pessoas que pedem a demissão do cara, como se sentissem ameaçados por opinião divergente. Não que concorde com o que escreve, só acho que leva com engenho seu raciocínio do ponto A ao ponto B. O Reinaldo Azevedo se dá mal quando tenta ser engraçado porque é um acaciano que faz trocadilhos sofríveis. O Jabor sofre do mal dos moralistas: a gente acaba se perguntando que moral eles têm pra isso. O Brasil é na verdade um país sério demais. De Gaulle estava errado.
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15 de Maio de 2008 às 12:32
O Arnaldo é muito bom.
Sugiria tambem a entrevista com o Sieber e com O Manson.
Abraços!
15 de Maio de 2008 às 19:26
Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer! Dahmer!
15 de Maio de 2008 às 19:27
E mais “Dahmer! Dahmer!” só pra fechar o retângulo.
15 de Maio de 2008 às 21:44
“Aqui o índice de analfabetismo funcional nivela por baixo a capacidade de entender humor - e brasileiro não aceita gozação, (…)” verdade verdadeira…nunca decepciona hein, Arnaldo?
Agora, apesar do ranço direitista do Mainardi, eu também concordo com você que o cara sabe escrever. Mas, tipo, esse Reinaldo Azevedo que cara nojento. Ele me lembra o Sr. Smithers dos Simpson, briga, esperneia, xinga, morre e mata pelo chefe (no caso dele Lauro Jardim e o Sabino). Bleerrgh…Neocons de merda.
15 de Maio de 2008 às 23:04
Dahmer e Sieber…. são muito cheios de idéias boas e de grande visão social e política.
8 de Novembro de 2008 às 18:50
Arnaldo Branco é fantástico, sem tirar nem por. Quando resolvi fazer Jornalismo eu tava no meu auge de leitura do Mau Humor. Chega a ler as mesmas coisas umas 5 vezes por dia. Ele é foda, sou muito suspeita pra falar. Mas Sieber, Dahmer e Leonardo merecem muita atenção também. São quase tão bons pra mim quanto o Arnaldo.
30 de Dezembro de 2008 às 3:55
“Desses que você citou, gosto do Diogo Mainardi: acho que uma prova do que falei, sobre o lance do brasileiro não ter senso de humor, é o tanto de pessoas que pedem a demissão do cara, como se sentissem ameaçados por opinião divergente. Não que concorde com o que escreve, só acho que leva com engenho seu raciocínio do ponto A ao ponto B.”
Mainardi é digerível a partir do momento em que há o mínimo de polidez. Não há: é bruto, estúpido, repetitivo, conservador, wannabe anti e mais. Assim, nem é possível chegar ao ponto B.
14 de Agosto de 2009 às 18:50
sensacional!
ele é muito bom!
25 de Setembro de 2009 às 15:42
Ele é genial!