Música
Ney inclassificável
7 de Maio de 2008 | por Revista Wave
Aos 66 anos, Ney Matogrosso desafia a idade e revitaliza a carreira e a vida pessoal em vigoroso disco
por Daniel Faria
Editor-chefe
Pessimista, Oscar Wilde dizia que a tragédia da velhice consiste não no fato de sermos velhos, mas sim no fato de ainda nos sentirmos jovens. Sem tempo de auto crítica – o bufão irlandês morreria jovem, aos 46 anos – Wilde não chegou a enfrentar o dilema: assumir a idade e esquecer o desequilíbrio juvenil ou mandar às favas a dignidade e continuar interpretando o papel de garotão por décadas e décadas?
Na música popular brasileira, há aqueles que, ao optar pela primeira opção, produzem obras belíssimas e harmônicas, maturas, mas de quase nenhum vigor ou impacto para o presente, como Chico Buarque e Gal Costa. No outro espectro, roqueiros como os Mutantes e Erasmo Carlos, baseiam ainda seus repertórios nas glórias passadas, insistindo nos mesmos temas juvenis que pouco combinam com seus cabelos brancos e rugas.
Oscar Wilde também dizia que não devemos estrear na vida como um escândalo, pois o escândalo deve ser guardado para tornar interessante a velhice. Essa parece ter sido a solução, ainda que parcial, que Ney de Souza Pereira, o Ney Matogrosso, encontrou para o dilema da idade. Assim como Caetano Veloso fez em seu disco Cê, de 2006, Ney reconhece a idade, mas optou por desafiar o tempo com um disco ao mesmo tempo atemporal e vigoroso.
Seu último disco, Inclassificáveis, é o registro em estúdio da turnê de mesmo nome que Ney apresenta desde setembro de 2007. Fruto de uma apresentação poderosa, animada, o disco apresenta uma sonoridade essencialmente roqueira. Carlinhos Noronha (baixo), Júnior Meirelles (guitarra), Sérgio Machado (bateria), Emilio Carrera (teclado), DJ Tubarão (percussão e pick-up) e Felipe Roseno (percussão) são os jovens que acompanham Ney no seu processo de revitalização pessoal e musical.
Não que Ney necessariamente necessite provar sua importância e atualidade para alguém. Contrariando Wilde, ele e Caetano também são famosos pelos diversos escândalos em suas longas e notáveis carreiras. Há 35 anos, o artista já polemizava com seu grupo, o Secos & Molhados, um dos grandes fenômenos de vendas da história do país. A banda atraia os holofotes tanto pela qualidade de sua obra quanto pelas maquiagens andróginas e carregadas dos seus membros e pela voz inconfundível e feminina de Ney.
Em plena ditadura militar, o Secos & Molhados exalava sexualidade, misticismo, folclore português e rock n’ roll em clássicos como “O Vira”, “Sangue Latino” e “Assim Assado”. Em carreira solo, se firmaria como um dos melhores intérpretes da música brasileira, homenageando desde o sambista Cartola à Cazuza, que fora seu namorado. Ney está acostumado com as polêmicas, e sua estranha figura, teatral mas rústica, feminina mas incisiva, faz dele um “inclassificável”.
Inclassificáveis, o disco, lançado pela EMI, é a tentativa de rever esse personagem, agora com 66 anos. A idade é tema de grande parte das letras do disco. A entrada já é sintomática: “O Tempo Não Pára”, de Cazuza e Arnaldo Brandão, e versos como “se você achar que eu estou derrotado, saibam que ainda estão rolando os dados” vem demonstrar que ele está no jogo, presente e ativo. “Mal Necessário”, de Mauro Kwtiko, é quase um manifesto: “sou o novo, sou o antigo, sou o que não tem tempo, o que sempre esteve vivo”, enquanto o piano e a guitarra armam um clima de pura profusão emocional. Brilhante, um dos melhores momentos do disco e a melhor interpretação de Ney em anos.
O tema “idade” reaparece na quase afro “Lema”, de Carlos Rennó e Lokua Kanza, resumo das intenções do álbum. “Envelhecer, certamente com a mente sã, me renovando, dia a dia, cada manhã”. Outros destaques são “Ode Aos Ratos”, de Edu Lobo e Chico Buarque, aqui revista com energia impressionante por Ney e banda, e “Divino, Maravilhoso”, de Caetano e Gil, quando os versos “é preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte” são berrados em alta e clara voz, provando a ótima forma vocal do artista. Quanto a forma física, bem, a atual turnê, com seus figurinos apertados e suas simulações de strip-tease, demonstram que Ney é sinônimo para corpo são, mente sã.
Se Oscar Wilde conhecesse Ney Matogrosso, acreditaria na fonte eterna da juventude, tal qual seu famoso Dorian Grey. Vários clichês de superação da idade poderiam ser usados aqui para encerrar o texto. Mas deixemos que outro trecho de “Lema”, de Inclassificáveis, resuma o espírito do disco. “Ser novo para mim é algo velho, quero crescer, quero viver o que é novo. Sim, o que eu quero assim, é ser velho”. Oxalá que todos os medalhões soubessem encarar a velhice com tamanha desenvoltura.
Ney Matogrosso. Inclassificáveis
EMI
1. O Tempo Não Pára (Cazuza e Arnaldo Brandão)/ 2. Mal Necessário (Mauro Kwitko)/ 3. Leve (Iará Rennó e Alice Ruiz)/ 4. Fraterno (Pedro Luís)/ 5. Ouça-me (Itamar Assumpção e Alice Ruiz)/ 6. Um Pouco de Calor (Dan Nakagawa)/ 7. Novamente (Fred Martins e Alexandre Lemos)/ 8. Mente, Mente (Robinson Borba)/ 9. Lema (Carlos Rennó e Lokua Kanza)/ 10. Sea (Jorge Drexler)/ 11. Por que a Gente É Assim? (Cazuza, Ezequiel Neves e Frejat)/ 12. Coisas da Vida (Alzira Espíndola e Itamar Assumpção)/ 13. Ode aos Ratos (Chico Buarque e Edu Lobo)/ 14. Inclassificáveis (Arnaldo Antunes)/ 15. Veja Bem, meu Bem (Marcelo Camelo)/ 16. Divino Maravilhoso (Caetano Veloso e Gilberto Gil)/ 17. Coragem, Coração (Cláudio Monjope e Carlos Rennó)



19 de Maio de 2008 às 17:37
Coragem, Coração (Cláudio Monjope e Carlos Rennó)palavras prego.
Obrigado,
Nicole Québec Canada
Ney Matogrosso est le Dieu du Brésil
2 de Novembro de 2008 às 10:59
Quero muito um exemplar dessa revista com essa materia de ney Mato grosso, não acho para comprala em lugar algum, então resolvi apelar para internet e estou disposto a pagar pelo preço que for necessario, inclusive as despesas de postagem, grato, Vivaldo Monteiro Neto, Rua Marechal Deodoro, 443 Centro Taperoá - Ba. cep. 45430-000
4 de Novembro de 2008 às 20:43
Olá ,gostaria de saber o endereço eletrônico do Cláudio Monjope,será que é possível?
16 de Agosto de 2010 às 14:51
Concordo com o que vc escreveu sobre o Ney.
Ele além do artista versátil que é,está envelhecendo com sabedoria.
Nota mil para ele.