Opinião
Brasil em transe
7 de Maio de 2008 | por Revista Wave

Conflito de gerações, saudosismo do que não existiu, revolta juvenil. A verdade é que o Brasil é o reino dos ignorantes.

por Daniel Faria

Editor-chefe

Assisti a pelo menos três vezes nessa semana a edição especial em DVD de Terra em Transe, de Glauber Rocha, mais o maravilhoso documentário no disco de extras. Confesso que nunca analisara a obra como profética. Preferia conferira no contexto em que foi criada, naquele turbulento instante entre a renúncia de Jango e o golpe militar.

Admirava o cineasta baiano como denunciador das maquinações das elites sobre as massas. Considerava suas obras verdadeiras metralhadoras giratórias contra a religião, contra os líderes políticos, a oligarquia, contra Deus e o Diabo. Mas nunca tinha reconhecido o Glauber visionário que dessa vez se mostrou a mim através de Terra em Transe.

Explicarei o exato instante em que sua luz pairou sobre mim. Porém, antes gostaria de registrar uma discussão que sustentei recentemente com amigos e familiares. Em um debate sobre a ascensão econômica da classe C do país, o assunto “mentalidade política das massas” surgiu, e o tema perseguiria meus pensamentos por alguns dias. Ora, com as reformas sociais, o brasileiro pode enfim se dar ao luxo de não ser manipulado eleitoralmente, como é prática recorrente no país desde pelo menos todo o sempre?, era a questão que perturbava minha mente.

Nos anos turbulentos da ditadura militar, a censura, as torturas e a repressão policial, além das dissidências da oposição, desmotivaram a participação popular em organizar-se politicamente contra o suposto “inimigo em comum”, os militares. Mas era inegável que existia um grande número de intelectuais, artistas e estudantes dispostos no mínimo a debater a sombria situação em que vivíamos. Mesmo com todo o perigo, mesmo na clandestinidade, havia a admirável alternativa de se opor, de se rebelar.

E hoje em dia, com toda a liberdade de expressão, com a ascensão social, com os meios de informação atingindo quase a totalidade da população, constato que o brasileiro médio nunca fora tão alienado e disperso. O crescimento cultural não acompanhou a estabilidade econômica e nossa produção intelectual está estagnada. Nossos ícones ainda são os mesmos, e só esperamos relevância dos mesmos artistas que nos surpreenderam nas décadas de 60 e 70.

Sim, aqueles eram a elite intelectual de seu tempo e sua produção tem muito do seu valor exatamente por sua proposta de contra-valores aos propostos pelos militares. Eram o foco da resistência. E hoje em dia, qual a motivação? Insistir em carregar a bandeira esquerdista quando a própria “esquerda” está no poder? Atualmente, vemos algumas correntes de pensamento que de tão dispersas e sem sustentação, merecem rápido destaque.

A classe dita pensante pode ser dividida em três: primeiro, os situacionistas, apoiadores e apoiados pelo governo Lula, cuja função única é glorificar os feitos nunca vistos antes na história desse país e também acusar a mídia fraudulenta da oposição. Segundo, a própria oposição, tão mal-organizada, tão dissidente que só angaria preguiçosos e semi-estudiosos teóricos. Por fim, aqueles que se encontram à esquerda da esquerda, os ditos vermelhinhos, também semi-estudiosos teóricos muito presentes em universidades públicas, de idéias tão radicais quanto estapafúrdias e que não merecem crédito.

Como editor de um site especializado em cultura nacional, e que não deseja estampar apenas assuntos de arquivos em suas páginas virtuais, entristeço-me com a nulidade da produção cultural que essas três correntes nos presenteiam. E aqui, retorno à revelação que Terra em Transe teve sobre mim. Antecipo-me e afirmo que considerei unicamente o aspecto cultural, que é o que mais interessa-me no momento, do que a intencionalidade política inerente às obras de Glauber.

É sob esse prisma que afirmo que o momento mais lúcido de Terra em Transe é o instante em que o poeta e jornalista Paulo Martins, interpretado por Jardel Filho, tampa a boca de um típico pobretão chamado Jerônimo que se põe a reclamar da fome, e pergunta ao telespectador: “vocês já imaginaram um Jerônimo no poder?”. Tanto esse take quanto as intervenções do político Porfírio Diaz, maravilhosamente interpretado por Paulo Altran, a respeito da ignorância do povo foram de vitais importância para o esclarecimento da confusão sobre a alienação e discrepância cultural do brasileiro nos dias atuais.

Esclareço, mais uma vez, que não usarei a frase de Paulo Martins sobre Jerônimo como alegoria ao presidente Lula, como muito se fez por aí. Primeiro, porque o Jerônimo do filme é o coitado, é a conseqüência do subdesenvolvimento. Lula sempre foi ou a solução ou o medo, nunca a vítima, apesar da história pessoal representar fielmente a média da população menos favorecida do país pós-industrialização. Mas como já afirmei, concebi os trechos de Terra em Transe como proféticos na estagnação cultural em que nos encontramos.

Ou seja, ao conceder poder ao povo, ao deliberar projetos de financiamento de computadores, ao colaborar na aquisição de aparelhos televisivos com medidas que permitam o financiamento de bens domésticos, o governo vê sua classe de sustentação nas urnas se igualando aos poucos a classe média, produzindo uma imensa gama de brasileiros apáticos em discussões políticas e culturais, mesmo tendo a seu dispor todos os meios de comunicação existentes.

(Cabe reforçar que a classe média dita esclarecida, padece da mesma baixa representividade cultural das classes inferiores. Ou existe tanta diferença entre a produção consumida por um ou outro?). Então por que, culturalmente, ainda vivemos à custa dos velhos ídolos de sempre?

Cada vez mais, concluo que o povo é simplesmente bestial, como acreditava Porfírio Diaz, no filme de Glauber. Ou como explicar bobageiras como o sertanejo universitário, a vulgaridade do funk carioca, a pobreza harmônica e poética do axé baiano, em um país que já produziu compositores como Tom Jobim, Dorival Caymmi, Heitor Villa-Lobos? Como explicar a rasteira compreensão de grande parte da população para uma obra tão direta e genial quanto Tropa de Elite? Como explicar as audiências de programas sensacionalistas sobre celebridades inúteis e escândalos repetidos a exaustão? Por que o crescimento social não pode ser acompanhado pelo desenvolvimento mental da população?

Talvez o debate seja mais complexo do que aparente, e valeria toda uma reavaliação dos alvos e artesões da chamada alta cultura. Mas esse não era um problema superado pelo pós-modernismo, ou em instância nacional, pelo Tropicalismo e pelo Cinema Novo? Onde está nossa elite intelectual? Onde estão nossas obras provocativas e polêmicas? Onde estão nossos líderes? Onde estão as discussões calorosas sobre o futuro da arte nacional? Onde estão as dicotomias entre o nacional e o internacional, entre o novo e o velho, entre o lícito e o ilícito? Por que minha geração é privada disso, e em seu lugar só encontra ignorância, acomodação, alienação, desconhecimento, banalização, estupidez, nulidade estética?

Essas questões eu gostaria de dividir com os leitores da Revista Wave. Gostaria de iniciar o debate. Gostaria não de simplesmente acreditar na bestialidade do brasileiro, mas creditar nossos problemas a algum mal maior. Há quem escolha o governo como bode expiatório, como se o problema não configurasse algo ancestral. Mas basta de tanta ignorância.

Por fim, uma inspiração. Nos chamados Anos Dourados do governo de Juscelino Kubitschek, foi criado o mais famoso e premiado estilo musical do país, a Bossa Nova, que completa 50 anos de gloriosa existência em 2008. O desenvolvimento econômico possibilitou, ou pelo menos inspirou, a existência de uma música moderna, sofisticada e brasileira, que ganharia o país e depois o mundo. Qual arte caracteriza o Brasil economicamente estável de 2008? Está na hora de recontarmos essa história, o mais breve possível.

3 comentários

  1. Marina diz:

    Vejo a cultura no Brasil estagnada desde o fim da década de 1980, período de efervescência cultural ainda sob influências remotas do movimento tropicalista. O que mais contribuiu para a produção cultural da geração de 1980 foi o fato de essa geração ter sido a primeira a experimentar uma liberdade até então desconhecida pelas anteriores. Já não haviam mais os compromissos estílisticos com a forma ou as repressões políticas da ditadura.
    Contraditoriamente, toda essa liberdade parece ter contribuido para a situação que observamos hoje.
    Existe algo muito peculiar nesse começo de século, o surgimento de uma cultura de mercado, aquela própria para vender e entreter sem instruir. Essa suposta liberdade, que na verdade é uma liberdade condicionada, cega os olhares. Não se sabe mais contra o quê se manifestar ou a favor de quê lutar, a produção cultural perde o seu valor artístico e social, torna-se vazia.
    É dificil prever os rumos daqui por diante, mas creio que esse silêncio de hoje não vai durar por muito tempo.

  2. alicio diz:

    Sou brasileiro,43anos ,vivo em españa, leio sempre e me atualizo com as questoes do meu pais atravez dos blogs e da net. ontem estive pensando este mesmo assunto,e e´incrivel que todo o paradigma de arte no caso musica brasileira parece que se cristalizou nos anos 60, e a sensaçao que tenho por aqui nao e diferente, custa muito a chegar novas apresentacoes ou quando vem ( caso show do ministro gilberto gil que foi canselado em Madrid) sao musico que ja tem uma forte presensa musical. creio que o Brasil tem feito suas liçoes no campo economico para dar satisfaçoes aos nossos” Senhores” e se esquece de liçoes mais importantes como cuidar da educaçao, pedra angular na formaçao das novas geraçoes de cidadaos, so com acesso continuo a qualidade de um ensino fundamental, investimentos serios em pesquisa,e uma boa dose de esperimentalismo estetico, coisa que foi esquecida, optando por regras comodas e praticas (ver-se a força da Globo). A semanas atras estava no you tube e vi a catora Maysa na televisao japonesa falando em ingles e cantando em portugues em 1957 isso e uma loucura o quanto o Brasil ja teve um lugar de distinçao na qualidade e internacionalidade do seu produto cultura.
    atualizar creo que seja a palavra de ordem, gostaria do brasil como um pais serio e que respeite seus filhos, mas nao perder este humor quase sarcastico ao se mirar no espelho

  3. admin diz:

    Muito pertinentes os comentários da Marina e do Alicio. A Marina escreveu que não há contra o que se manifestar. Realmente, mas por que na época do pré-Getúlio, com os modernistas, no Estado Novo, com os sambas de Noel Rosa e Ary Barroso, e mesmo nos Anos Dourados, do JK, o país conseguiu produzir obras de qualidade e relevância cultural tremenda? Ou seja, não acredito que o problema seja necessariamente a falta de motivação social e política. Mas sim, é uma questão interessante a ser discutida. E me pergunto, como fez nosso entrevistado Arnaldo Branco: caso a ditaduta militar ainda existisse, que artista brasileiro faria oposição? O Simoninha?
    Alicio, é triste perceber que como cantava Elis Regina, nossos ídolos ainda são os mesmos. Até imagino qual seja o tal vídeo que você citou da Maysa e eu, com meus 21 anos, me emociono ao vê-los. Sou tomado por uma nostalgia e uma melancolia que não deveriam existir, visto que nada diz a respeito da minha vida pessoal. Sinto que o país estagnou e acredite, você que está na Espanha, que um show do Gilberto Gil, em fase decadente da carreira, é ainda mais relevante que quase toda nossa produção atual. E isso é triste.

    Abraços

Deixe um comentário