Personagem
Olê Muié Rendeira
1 de Maio de 2008 | por Revista Wave
Atriz, cantora e ativista política, a artista carioca Vanja Orica esteve presente em momentos históricos da cultura brasileira
por Daniel Faria
Editor-chefe
“Eu fui muito marcada por aquele episódio em 68 com os militares, com aquele meu gesto durante a passeata contra a morte daquele estudante [Edson Luiz, assassinado em 28 de março de 1968 por militares durante um confronto no restaurante Calabouço, centro do Rio de Janeiro], acontecida na véspera. Nós nos reunimos no Teatro Opinião e depois saímos em passeata. Quando o exército estava para massacrar a todos, eu me coloquei a frente, me ajoelhei e fiz o gesto: ‘Não atire, somos todos brasileiros’. Aí eu fui presa e depois fui muito vigiada”.
Como muito acontece no país, a atriz, cantora e diretora de cinema Vanja Orico, tem sua carreira preterida em razão de um acontecimento essencial para a vida política brasileira, mas que é relativamente pequeno em comparação ao talento e importância dessa mulher na história do cinema nacional. Poucas artistas incorporaram de forma tão natural a brasileira típica, morena, quase índia, quanto Vanja. Talvez apenas Carmen Miranda conseguira tal feito com maior esplendor.
Filha do diplomata e escritor Osvaldo Orico, Vanja nasceu no Rio de Janeiro, no dia 15 de novembro de 1931. Sua estréia no cinema não poderia ser mais graciosa. Após alcançar o segundo lugar de um concurso de música na Europa (seu pai trabalhava na Bélgica como adido cultural), ganhou uma bolsa de estudos na Itália. Na rua do colégio onde foi estudar, Alberto Lattuada e Federico Fellini filmavam Mulheres e Luzes [Luci Del Varietà, 1950], e a irmã de Lattuada a levou até Fellini, que gostou do tipo físico de Vanja, perfeito para o papel da cigana Moema.
Assim, a brasileira estreou no cinema no primeiro filme dirigido por Fellini, cantando duas músicas, a folclórica “Meu Limão, Meu Limoeiro” e “Coplas”, de sua autoria. Trechos de Mulheres e Luzes, com Vanja, podem ser vistos no youtube. O reconhecimento a levaria à rádio italiana, onde apresentaria o programa Macumba, especializado em música brasileira tradicional.
“Tu me ensina a fazer renda que eu te ensino a namorar”
De volta ao Brasil, em 1953, Vanja faz teste e é aprovada para o longa O Cangaceiro, de Lima Barreto. O filme, inspirado no lendário Lampião, seria um dos maiores sucessos cinematográficos do país em todos os tempos e o primeiro a conquistar prestígio internacional. O Cangaceiro recebeu o prêmio de melhor filme de aventura do Festival de Cannes e o de melhor trilha sonora com a música “Muié Rendeira”, interpretada por Vanja, no papel de Maria Clódia.
Contratada pela Columbia, distribuidora de O Cangaceiro, a artista faz shows de divulgação e participa de programas de rádio e televisão por toda a Europa. Com apenas dois filmes no currículo, Vanja já era reconhecida internacionalmente. Torna-se estrela de primeira grandeza e estampa dezenas de capas de jornais e revistas.
Em 1954, grava seu primeiro LP pela gravadora Sinter. No disco, interpreta canções de Dorival Caymmi (“João Valentão”) e Waldemar Henrique (“O Uirapuru”), e conta com arranjos do então iniciante Antônio Carlos Jobim. É das primeiras artistas brasileiras a excursionar pelo Leste Europeu, cantando as músicas de O Cangaceiro, especialmente “Muié Rendeira”, grande sucesso em quase toda a Europa, assim como “Sodade, Meu Bem, Sodade”, de Zé do Norte.
No cinema, participa de algumas produções e co-produções estrangeiras, com destaque para S.O.S Noronha, de 1957, dirigido pelo francês Georges Rouquier. Mas é sua voz o grande atrativo. “Os cinco rivais da moreninha, bem brasileira, Vanja Orico: o canário - que aprende com os mestres; o coleiro - que canta nas alvoradas; a araponga - que imita os ferreiros do sertão; o sabiá - que sonoriza as florestas do Brasil e o tico-tico - que espalha fubá”, escreveu sobre ela em 1957, de Paris, o grande Heitor Villa-Lobos.
Ciclo do Cangaço
A segunda fase da sua carreira, nos anos 60, é a chamada Ciclo do Cangaço. Participaria de Lampião, o Rei do Cangaço (1964), Cangaceiros de Lampião (1967) e Jesuíno Brilhante, o Cangaceiro (1972). Em Cangaceiros de Lampião, de Carlos Coimbra, faria o papel de Maria Bonita, personagem a qual é ainda hoje frequentemente associada.
Após o episódio de 68, na passeata contra o regime militar, Vanja também ficaria marcada como ativista política. Mulher de várias facetas, em 1973 estréia como diretora em O Segredo da Rosa, com Ivan de Almeida e Isolda Cresta no elenco. Ficaria 15 anos sem atuar, desde O Caçador de Esmeraldas (1979), de Oswaldo de Oliveira, até A Terceira Margem do Rio (1994), de Nelson Pereira dos Santos, mas nesse meio-tempo, escreveu o argumento de Ele, o Boto (1987), de Walter Lima Jr.
Em 1981, lançou mais um LP pelo selo Seta, com canções de Carlos Lyra, Vinicius de Moraes, Noel Rosa e Marcos Vinicius, dentre outros. Há, ainda, um belo texto de Antônio Houaiss sobre a artista no encarte do disco: “Ninfa, mito, espera, verdade, beleza, certeza. O fato é que ser Brasil chegou em você a um ponto de cristalização que, se alguém fizer uma equação Brasil - Vanja - Mulher, estarei aí de coração”.
Ano passado, foi lançado o DVD Vanja Vai Vanja Vem, documentário de Adolfo Rosenthal, juntamente com o disco Mexe Com o Corpo. Ambos procuram traçar um retrospecto da carreira de Vanja, hoje já com 77 anos de idade, mais de 50 deles prestados a cultura nacional. Nas palavras de outro baluarte artístico do país, o escritor Jorge Amado: “Vanja Orico, cantora, artista, cineasta, atuante figura cultural brasileira, presença que se impõe à admiração de todos que amam a arte, a literatura e a democracia”.

Vanja em 2007, em foto de divulgação do DVD Vanja Vai Vanja Vem, documentário de Adolfo Rosenthal sobre sua vida


7 de Dezembro de 2008 às 15:17
Qurida Vanja,
Como fiquei feliz em ver sua foto.voce continua uma mulher Maravilhosa e muito bonita.
Vanja, todos esses anos se passaram e eu tenho muito te que agrdecer o empurranhao que deu na minha vida como `modelo em Paris.gostaria sinceramente de poder ficar em contato contigo, nao me esqueco quando saimos juntas no rio pra baladas depois das suas gravacoes. Vanja, eh com uma emocaao enorme que escrevo esse e-mail pra voce. Perdoe-me pela falta de contato durantes todos esses anos. gostaria muito de ter noticia do Daniel o filho do Andre pois perdemos ha muitos e muitos anos o contato. que bom que o aolfo agora se ocupa das usa cosias,fico feliz em saber que ele esta ao teu lado. Vanja qulquer coisa fale comigo gostaria muito de saber mais sobre voce, su vida atual. etc.. voltei pro Brasil depois de tantos anos e nao consigo a readapitacao neste pais muitas cosias mudaram… alias sempre foi assim. querida um abraco bem forte e sincero.
Sandra Souto