Música
Fundamental é mesmo João
28 de Abril de 2008 | por Revista Wave

Amoroso está enfim sendo relançado pela Warner Music, em formato digipack. Saiba mais sobre o disco mais universal de João Gilberto. 

por Daniel Faria

João GilbertoAmoroso [1977]
Warner/WEA

1 ‘S Wonderful [George e Ira Gershwin]
2 Estate [Bruno Martino - Bruno Brighetti]
3 Tim tim por tim tim [Geraldo Jacques - Haroldo Barbosa]
4 Besame mucho [Consuelo Velaquez]
5 Wave [Tom Jobim]
6 Caminhos cruzados [Newron Mendonça - Tom Jobim]
7 Triste [Tom Jobim]
8 Zingaro [Chico Buarque - Tom Jobim
 

É difícil mesurar o impacto que o primeiro disco de João Gilberto, Chega de Saudade (1959) causou na música brasileira e mundial. Dezenas de personalidades, centenas de livros, milhares de canções influenciadas, todos já tentaram desvendar como o baiano conseguiu recriar e estabelecer um novo campo de atuação para a canção popular.

Possível seja que nenhum outro disco em toda a história musical do país seja tão esteticamente criativo e revolucionário. Caetano Veloso definiu o álbum de João em seu livro Verdade Tropical (Companhia das Letras) como “a posição em face da feitura e fruição de música popular no Brasil que sugeria programas para o futuro e punha o passado em nova perspectiva – o que chamou a atenção de músicos eruditos, poetas de vanguarda e mestres de bateria de escola de samba”. Em suma, o disco mais importante da música do país.

Se Amoroso, disco lançado por João Gilberto em 1977, quando ainda residia nos Estados Unidos, não tem o caráter revolucionário de Chega de Saudade, pode-se afirmar ao menos que é a obra universal e de maior qualidade do cantor e violonista. Longe de promover mudanças estéticas, Amoroso é seu trabalho mais palatável a ouvidos virgens de bossa nova, se é que isso é possível. É disco do mundo, de repertório eclético escolhido com precisão para a voz e violão de João.

Aliás, em um imaginário embate entre Amoroso e Chega de Saudade, a discussão pelo melhor repertório seria calorosa. Se na estréia, João entremeou compositores tradicionais como Dorival Caymmi e Ary Barroso com os estreantes Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli, em Amoroso a seleção de clássicos envolve os americanos George e Ira Gershwin (“‘S Wonderful”), o italiano Bruno Martino (“Estate”) e a mexicana Consuelo Velásquez (“Besame Mucho”), numa bela profusão de línguas.

Em comum nos dois discos, os melhores momentos estão por conta do sempre presente Tom Jobim. No papel de cereja do bolo de Amoroso - que coube a “Chega de Saudade”, a música, no álbum de 1959 – aparece “Wave”, em sua versão definitiva, superando a gravada por Frank Sinatra, em 1971. É um primor.

Tudo aquilo que tornou João Gilberto conhecido em todo o mundo está ali. A voz suave, cortando as sílabas no exato instante em que elas parecem se alongar desnecessariamente, o violão conduzido em sinergia rítmica com a voz e com a harmonia, e a orquestra no papel de ambiência, se incorpora aos outros instrumentos promovendo uma entidade única, o retrato e produto do que é a bossa nova.

Jobim ainda aparece em Amoroso na parceria com Newton Mendonça (dupla responsável por “Desafinado” e “Samba de Uma Nota Só”) em “Caminhos Cruzados”, com Chico Buarque em “Zíngaro” e sozinho em “Triste”. O melhor intérprete da bossa nova aliado ao seu melhor compositor.

Os arranjos ficam a cargo do mestre alemão Claus Ogerman, que já havia trabalhado com Jobim em vários discos, dentre os quais Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim, de 1967, e em The Composer of Desafinado, Plays, de Jobim, em 1963. João Gilberto teria se incomodado com o excesso de cordas dos arranjos de Ogerman. Perfeccionista beirando o chato, as reclamações de João merecem uma antologia.

Amoroso é o mais perfeito dos álbuns de João Gilberto. É límpido, sublime, não é possível ouvir uma única interferência, um único barulho que possa desmontar a estrutura harmoniosa das canções. Produzido no instante em que a bossa nova já era expressão musical difundida no mundo todo, o disco é o último gravado na estadia do baiano nos Estados Unidos, onde morou por dezessete anos.

Mereceu uma indicação ao Grammy como melhor cantor de jazz, premiação que não diz respeito à música que João Gilberto faz. Sua música deve ser encarada como a jóia trabalhada com esmero, de um brilho incalculável, nem jazz, nem samba, nem bossa nova. É música, amorosamente irrepreensível.

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