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Falsa inclusão digital
28 de Abril de 2008 | por Revista Wave

O brasileiro, quinto maior comprador de computadores, saberá usufruir do mundo virtual de maneira adequada?

por Daniel Faria

Segundo a Cetelem, o Brasil possui em 2008 cerca de 44 milhões de internautas. Em 2006, o número era de apenas 14 milhões. Em 2007, foram vendidos quase 11 milhões de computadores. Nos últimos três anos, com o aumento de renda dos historicamente menos favorecidos através dos programas sociais, com a estabilidade econômica e com o crescimento de empregos de carteira assinada, o Brasil viu a classe C receber aproximadamente 20 milhões de brasileiros e tornar-se a maior classe social do país.

A pergunta é: saberá o brasileiro recém-informatizado usufruir do mundo virtual adequadamente?

Ora, as quatro últimas décadas nos ensinaram que informação, para o brasileiro, é sinônimo para televisão. É a televisão o veículo-mor, o grande condutor de notícias, desde a derrocada do rádio a partir da década de 50. É só avistar qualquer periferia, seja em grandes capitais ou no interior: a quantidade de antenas parabólicas é sempre surpreendente.

Pois bem. Segundo dados da consultoria IDC e da Associação Nacional dos Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos, as vendas de PCs superaram pela primeira vez a de televisores, com vendas de 10,7 milhões de máquinas comercializadas no país em 2007, contra 10 milhões de TVs.

Os números impressionam, talvez menos a quantidade do que a velocidade da transformação com que ocorreram. O Brasil é o país de número cinco em venda de PCs, atrás apenas de Estados Unidos (64 milhões), China (36 milhões), Japão (13 milhões) e Reino Unido (11,2 milhões). Apenas em 2007, houve um aumento de 153% na compra de notebooks.

E qual a motivação do brasileiro que se submete a comprar um computador? “O desejo inicial de quem compra o primeiro computador é acessar a internet”, afirma César Aymoré, diretor de marketing da Positivo Informática. Em um pequeno espaço de tempo, um grande número de pessoas do país descobriu o acesso à rede. A questão que me incomoda, repito, é a utilização de tal mecanismo para a compreensão da informação.

Tem muita antena e pouca gente antenada, como diria Maria Bethânia. Para as famosas redes de relacionamento, o brasileiro demonstra disposição. Dos aproximadamente 44 milhões de internautas brasileiros computados pela Cetelem, pelo menos 23 milhões são usuários do orkut.

Não penso ser necessário discutir, em 2008, a validade ou não-validade de uma rede social virtual, mas é necessário ater-se à monstruosidade de alguns números. No mínimo, 55% dos usuários do orkut em 2008 são brasileiros. Há quatro anos, o número não ultrapassava os 6%.

Assim como as citadas antenas parabólicas, lan houses abarrotadas de adolescentes já se tornaram partes naturais da paisagem das periferias e favelas. A partir de R$ 1, muitos jovens descobrem pela primeira vez a internet. Orkut, MSN e jogos on-line são as principais motivações desses internautas de última hora.

Má vontade com a educação
Que a internet é caótica na organização de informações, todo mundo sabe. Que tentativas de regularização e regulamentação de seu conteúdo são impossíveis e deveras patéticas, todo mundo sabe. Que o brasileiro tem sérios problemas na área da educação e que qualquer projeto governamental de apoio às vendas e ao uso de computadores deveria vir acompanhada de incentivos morais e intelectuais, todo mundo esqueceu.

Incentivos como a Lei do Bem, que cortou impostos federais sobre a venda de PCs, ou o Programa Computador Para Todos, que como o próprio nome diz, tem como objetivo possibilitar a população adquirir equipamentos de qualidade, são muito responsáveis pelo notório aumento nas vendas de computadores. O que não significa, porém, que o Brasil realiza plenamente a dita inclusão digital.

A inclusão digital seria, em suma, a democratização do acesso às tecnologias da informação, para o cidadão simplificar sua rotina diária, maximizar o tempo e as suas potencialidades. Não é o que ocorre no Brasil. O uso dos computadores pessoais é extremamente débil, fruto da má educação de seus usuários.

Tentativas de suporte, como os telecentros, centros gratuitos de acessos aos computadores e à internet, atingem apenas 6% dos internautas do país. Ou seja, existe a procura, existe o crédito, mas a qualidade e decência da utilização acompanha a grande escassez da educação do país.

Cabe a pergunta final: irá o brasileiro descobrir as reais potencialidades do uso da internet ou a nossa já famosa má vontade com a educação prevalecerá? Quero acreditar na primeira opção, apesar dos 508 anos recém-completados do bananão constantemente provarem-me o contrário.

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2 comentários

  1. Tiago Lopes diz:

    Sacanagem não convidarem os amarelos aqui pra e-meiar umas perguntas pro cara.

    Mas bem feita a entrevista, toda boa.

  2. Tiago Lopes diz:

    E esse comentário deveria ter saido abaixo da entrevista do Arnaldo, o Branco…

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