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Coisas da vida
28 de Abril de 2008 | por Carol Bataier
Parada, com as mãos na cintura, ela olhava para as roupas penduradas nos cabides. Pensava em um vestido de abotoar, sem decote e florido. Pensava no vestido que não tinha: ele seria a peça perfeita. Mas como ele não fazia parte do seu modesto guarda-roupas, começou a buscar entre suas blusas uma que parecesse adequada.
Vermelha não. Nem preta. Nada pesado, nada de decote. Encontrou uma, azul. Azul é bom, é neutro. Azul assim, clarinho. Deixa mais leve, mas bonito, até. Não era ainda o que queria, mas servia. Justa, mas nem tanto. Cobria a barriga. Decote discreto, em “U”. Era o mais próximo possível daquilo que imaginava.
Pensou que no dia em que comprou a calça jeans que usava agora, deveria ter comprado uma saia florida que viu na vitrine. É claro que no dia não pensou nisso, mas agora, era daquela saia que ela precisava. Passava do joelho, com um botão na cintura, branca, com flores azuis. Seria perfeita. Se arrependeu por ser assim e nunca pensar em ocasiões especiais na hora de comprar roupas. Tudo bem, tudo bem. Escolheu mesmo a calça jeans, que nem era tão justa assim.
Sapatos: nada de salto. Uma sandalinha preta, de tiras. Velha e gasta. De ir à feira. Mas ficava boa com a roupa.
Cada detalhe era importante, e por isso tirou os brincos de argola, pegou uma caixinha de madeira e lá no fundo encontrou dois coraçõezinhos prateados: presente do passado. Era hora de usá-los.
Parou em frente ao espelho. Olhou-se com estranhamento e satisfação. Pensou ainda no vestido das flores. Pensou agora nos cabelos e decidiu que os usaria presos num coque, assim, bem diferente.
Pegou a bolsa, a única, preta, de couro. Colocou dentro o presente embrulhado em papel vermelho e azul. Procurou na penteadeira o pedacinho de papel dobrado, achou e guardou no bolso de trás da calça. Pronta, saiu.
Na rua, reparava em como as pessoas não reparavam nela. Achou aquilo estranho e confortável. Estava ali, tão comum, numa quarta-feira de sol e calor, às 2 da tarde, no meio das pessoas que iam às compras, que voltavam para o trabalho depois do almoço, que passeavam. E agora ela tomava consciência do que era fazer isso tudo, que sempre se faz sem perceber. Como se aquelas roupas emprestassem a ela uma outra consciência.
Parou no ponto, esperou. Fez esforço para não fumar. Olhou para o pulso e pensou que um relógio pequeno, prateado, lhe cairia bem. Entrou no ônibus, pensou por 25 minutos que parecem 5. Desceu. Tirou do bolso o papelzinho com o endereço: Rua Paraná, 356.
Depois de três quarteirões, estava procurando pelo número indicado. Deveria encontrar uma casa de portão cor de vinho, com um fusca branco na garagem. Quando percebeu que se aproximava, sentiu aquela dor de estômago que sempre vem anunciar a sua ansiedade. Fez novo esforço para não acender um cigarro. Guardou o papelzinho amassado. Parou em frente ao portão vinho e bateu palma. Na porta, saiu uma senhora de avental. Atrás dela vinha um menino de pés no chão e roupa suja. Depois chegou uma moça mais jovem e quando seus olhares se cruzaram foi como se ela, do lado de fora do portão, encontrasse consigo mesma, com seu passado, ali do lado de dentro, tão modesta e sorridente, de sorriso tão parecido com o seu.
E foi essa moça mais jovem quem a convidou para entrar. Ela aceitou. As mulheres a olhavam com desconfiança, ainda que a mais jovem não conseguisse disfarçar a felicidade que dá quando se tem alguém de volta. Ela se ajoelhou na frente do menino. Ele, de uns 5 anos, a olhava sem expressão. Ela reparou nos olhos verdes dele e os seus se encheram de lágrimas. Aqueles olhos eram de alguém. A mulher do avental se afastou, muda, mostrando respeito pelo momento. Ela abriu a bolsa e de dentro tirou o embrulho: “pra você”. O menino aceitou, tímido. Ela ajudou-o a abrir. Era um caminhãozinho. Ele sorriu. Ela chorou. Foi convidada a entrar na casa. Entrou levando o menino pela mão: ela confusa, ele indiferente. Sentou no sofá, tomou suco servido pela moça mais jovem, tentou conversar com a senhora do avental. Mas sua atenção era toda voltada para o menino. Queria saber se ele tinha amigos, se ia à escola, o que estava aprendendo, do que gostava de brincar. Ele respondia com monossílabos e sorria para os elogios dela.
Duas horas depois ela se despedia no portão, pensando se aquela sensação de conforto e medo era o significado de ser mãe. Pensando que se tivesse vindo de vestido florido, talvez a mulher mais velha fosse mais gentil com ela. Pensando que se tivesse estudado mais, e colocado num dia um vestido florido, ao invés da mini-saia, nada de ruim teria acontecido. E jurando que mataria aquele que um dia chamasse aquele menino de olhos verdes de filho-da-puta.
Tags: crianças



8 de Maio de 2008 às 23:55
“Ê padre imbecil, por que não emprestou os balões para a menina?”
“porque de Isabela, Ronaldo e padres, o inferno está cheio.”
Vejo Diogo Mainardi em seus textos. Cuidado para não se tornar um “ser” tão inconveniente quanto.
… não tem como! o Brasil é um país movido pela solidariedade orgânica…
9 de Maio de 2008 às 2:11
Olá Daniel, seu texto está muito bom! Concordo com você em vários aspectos, mas gostaria de supor um fato interessante, o que você acharia se os balões do tal padre fossem amarrados no bilau do Ronaldo o “Fenônimo” para que este subisse com mais eficiência?
9 de Maio de 2008 às 11:12
Dae Daniel, os balões do Padre poderiam ser amarrados no Corinthians também, pra ver se ele sobe pra primeira divisão!!!
hehehehehehehehe.
sou Coritiba, nao tenho richas paulistas, mas não pude deixar de fazer este comentario.
abraço.
10 de Maio de 2008 às 15:35
Respondendo em nome do Joaquim Veloso:
“Aline, Diogo Mainardi é uma besta, mas o salário dele em muito me interessa. Para conseguir ganhar o mesmo, eu mando você para o inferno junto com o Ronaldo, a Isabela e o padre imbecil.
Gabriela, acho que o problema do Ronaldo é que o fenônimo dele tá subindo fácil demais. Não soltem suas cachorras e cabras pelo Rio de Janeiro!
E Tabyon, serei sucinto´: vá para a putaqueopariu!
Obrigado pelo direito a resposta.”