Literatura
Cormac McCarthy
26 de Abril de 2008 | por Revista Wave

Tudo que o escritor americano, autor de Todos os Belos Cavalos e Onde Os Velhos Não Têm Vez tem a dizer está em seus livros.
por Tiago Lopes
O responsável por um dos melhores filmes da década é um escritor que concedeu um total de quatro entrevistas em todos os seus 75 anos de existência. Cormac McCarthy acha que tudo o que tem pra falar está em suas obras, o que é uma atitude um tanto incomum nos dias de hoje se comparada com a de outros escritores vivos e atuantes, que sempre procuram chamar para eles a visibilidade que seus trabalhos publicados possuem.
O primeiro livro do escritor, The Orchard Keeper, foi publicado em 1965 e, só depois de 22 anos, com a publicação do seu sexto romance, Todos os Belos Cavalos, é que sua obra começou a ser conhecida por um público que ia além de um restrito grupo de críticos literários e seus poucos leitores. Mesmo despertando o interesse de apenas um pequeno número de pessoas, Comarc McCarthy já era considerado o melhor escritor desconhecido da América.
Aparentemente, o único interesse que o Sr. McCarthy possui depois de finalizar um livro é publicá-lo, sem se preocupar com a carreira que faz depois que sai de suas mãos, se é bem-sucedido ou aceito como uma obra de qualidade. “Eu nunca tive nenhuma dúvida sobre as minhas habilidades, eu sabia que podia escrever, eu só precisava descobrir como comer enquanto fazia isso”, declarou em uma de suas raras entrevistas.
Isso quer dizer que empregos formais nunca foram uma escolha sequer pensada por ele, que já chegou a dispensar consideráveis quantias de dinheiro oferecidas por uma palestra sua sobre suas obras, dizendo “tudo o que eu tenho a dizer está lá nos livros”. Até receber alguma inesperada quantia de dinheiro, vinda de associações congratulando sua estréia, McCarthy vivia em estado de sobrevivência e não se importava muito com isso.
The Orchad Keeper foi escrito durante três anos, depois levado para a Random House (”era a única editora que eu já tinha ouvido falar”) e entregue nas mãos do editor Albert Erskine, que já havia trabalhado com William Faulkner e reconheceu em McCarthy um escritor do mesmo calibre. Resolveu publicá-lo e não vendeu quase nada de seus 4 livros posteriores.
Em parte, devido à falta de vontade do próprio McCarthy em divulgar seus livros e também por esses serem da espécie menos aprazível ao grande público: extrema violência permeando histórias sem ambições épicas. Outer Dark, seu segundo livro, conta a história da busca de uma mãe pelo seu bebê. O pai - irmão da mãe da criança - esconde o filho na floresta e diz para a irmã que ele morreu de causas naturais. Ela não acredita nele porque acha que o bebê foi dado e vai atrás do recém-nascido.
O livro narra a busca dela pela criança e do pai por sua irmã. Atrás deles, três homens misteriosos que farão do fim da busca uma das passagens mais ríspidas e despidas de qualquer remorso ou compaixão criadas por um escritor americano no século XX.
No livro seguinte, McCarthy imagina algo ainda mais desprezível para o personagem principal de Child of God: Lester Ballad, um assassino necrófilo que vive em cavernas, junto com os cadáveres em decomposição de suas vítimas, sejam elas seres humanos ou animais. Nesse livro, McCarthy também testa os limites de aceitação de sua prosa pelo leitor, dando um simpático tratamento a esse personagem, sem tecer teorias que tentem explicar o seu comportamento.
Os seus dois romances seguintes já mostram alguma ambição maior. Sutree é o seu livro mais longo escrito até hoje e o mais engraçado (de uma maneira terrivelmente triste, mas engraçado) e Meridiano Sangrento foi o responsável por atrair adjetivos realmente superlativos para o tipo de prosa criada por ele.
Até hoje considerado seu melhor romance e, por alguns, o mais sangrento já escrito desde A Ilíada, foi a primeira obra do McCarthy a chegar no Brasil, impulsionada pelos elogios da imprensa especializada americana, que considera a história de um grupo homicida de americanos caçadores de escalpo um dos maiores triunfos em prosa da literatura ocidental.
Depois de atingir um de seus objetivos - escrever o grande western americano - Cormac McCarthy aquietou um pouco sua incessante busca pelo choque através da violência com a Trilogia da Fronteira, composta pelos livros Todos os Belos Cavalos, A Travessia e Cidade da Planície. Com isso, conseguiu (involuntariamente) atingir um público maior, já que os dois primeiros narram as histórias de garotos americanos que se aventuram em fugas para o México e conseguem atrair problemas que exigem como única saída atitudes violentas, não sendo os protagonistas dessas histórias responsáveis por espalhá-las em seu meio (como nas obras anteriores) mas sim ocasionais vítimas dela.
E, mesmo quando os protagonistas não estão envolvidos em situações de perigo, alguém aparece para narrar histórias de revoluções repletas de atos horrendamente inimagináveis (A Travessia possui um que não dispensa uma gota de sangue, mas que é de um absurdo quase insuportável). Cidade da Planície, que encerra a trilogia, é focado na amizade em idade adulta dos sobreviventes dos dois livros anteriores.
A partir daí, tudo o que o Cormac escreve ganha uma maior ressonância, mesmo que ele ainda mantenha a discrição. Todos os Belos Cavalos foi adaptado para o cinema por Billy Bob Thornton e o resultado foi quase que imediatamente esquecido. Seu livro seguinte, Onde os Velhos Não Tem Vez, foi considerado uma obra de porte menor, mas cresceu de maneira absurda quando transposto para o cinema pelos irmãos Cohen, que adaptaram fielmente não só o conteúdo do livro, mas todo o estilo de prosa do Cormac (quando optaram pela ausência de trilha sonora, como se esta fosse tão desnecessária quanto a pontuação é em sua prosa). Acabaram criando um dos melhores e mais premiados filmes da década.
O livro mais recente do escritor, A Estrada, ganhou o prêmio Pulitzer em 2007 e se tornou um best-seller desde que passou a integrar o Oprah’s Book Club, lista de indicações de livros da citada apresentadora de tv norte-americana para o seu numeroso público de donas de casa melodramáticas. O autor que for agraciado com essa honraria é convidado para dar uma entrevista em seu programa. O escritor aceitou e o resultado é tão bizarro quanto o Silvio Santos perguntando ao Milton Hatoum em qual caravana ele veio. Mas é esclarecedor devido a raridade de qualquer pronunciamento feito pelo escritor sobre sua obra e vida pessoal.
A idéia de reclusão que Comarc McCarthy tinha antigamente,quando era um escritor completamente desconhecido, já se tornou mais flexível. Depois de aparecer num dos programas mais populares dos EUA, ele ainda prestigiou a festa do Oscar e mostrou uma empolgação difícil de ver nos outros convidados quando anunciaram os prêmios de Onde os Fracos Não Têm Vez.
Devido ao sucesso desse filme, mais duas adaptações de suas obras já estão em produção: A Estrada está com lançamento previsto para o fim desse ano e foi dirigido por John Hillcoat, responsável por A Proposta, um ótimo western roteirizado por Nick Cave e pouco conhecido abaixo da linha do Equador; e Meridiano Sangrento, que vai ser posto em frames pelas mãos do duvidoso Ridley Scott, que foi do cafona (Um Bom Ano) ao eficiente (O Gângster) em um curto espaço de tempo, mas fez Alien, então é confiar cegamente no que ele vai fazer.
Cormac e os irmãos Coen, os responsáveis pela bem sucedida adaptação de Onde os Velhos Não Têm Vez

