Música
Que me mate no Estácio
5 de Abril de 2008 | por Daniel Faria
Pérola Negra, disco de 1973 de Luiz Melodia, será apresentado na íntegra no Teatro Municipal de São Paulo, no dia 26 de abril, às 18h. A Revista Wave conta a história de uma das melhores estréias da história da MPB.
Luiz Melodia
Pérola Negra [1973]
Phonogram
1 Estácio, eu e você [Luiz Melodia]
2 Vale quanto pesa [Luiz Melodia]
3 Estácio, holly Estácio [Luiz Melodia]
4 Pra aquietar [Luiz Melodia]
5 Abundantemente morte [Luiz Melodia]
6 Pérola negra [Luiz Melodia]
7 Magrelinha [Luiz Melodia]
8 Farrapo humano [Luiz Melodia]
9 Objeto H [Luiz Melodia]
10 Forró de janeiro [Luiz Melodia]
Negro, filho do sambista Oswaldo Melodia, criado no morro São Carlos, divisa com Estácio, Luiz Melodia era o protótipo estético do cantor de samba carioca, daqueles dispostos a reclamar as agruras e cantar a malandragem suburbana do Rio de Janeiro por toda a carreira. Mas Luiz Melodia era ainda mais malandro. Dono de um estilo pouco usual, criativo e original, o artista desceu o morro para encantar a vanguarda artística não-exilada do começo da década de 70, ainda saudosista do encerramento abrupto do tropicalismo.
Aliás, “desceu o morro” só importa como valor de linguagem. É mais exato afirmar que os poetas Waly Salomão e Torquato Neto subiram o morro, em busca de formas autênticas (e excêntricas) de música, e se depararam com o menino de 20 anos, em 1971, que aprendeu a cantar na 1º Igreja Batista de Estácio e formou o primeiro grupo de rock cantando Beatles. Surpresos com as múltiplas possibilidades sugeridas pelas músicas que Melodia apresentava a dupla, passaram a divulgar seu trabalho na Zona Sul carioca e na coluna Geléia Geral, que Torquato assinava no jornal Última Hora.
Uma composição em particular abriria as portas para Luiz. Waly Salomão iria dirigir o espetáculo “Gal a Todo Vapor”. Em 1971, Gal Costa era a maior cantora brasileira, remanescente única dos tropicalistas (Caetano e Gilberto Gil estavam exilados na Inglaterra), e símbolo do “verão do desbunde” carioca, musa dos hippies praieiros. “Pérola Negra”, composição mais comentada entre os (até então) poucos que conheciam o trabalho de Luiz Melodia, foi apresentada a Gal por Waly. A cantora decidiu incluir a música no repertório.
Melodia ficaria impressionado com o “avanço intelectual” da nova turma, e com a beleza, então indiscutível, da “Maria das Graças (nome verdadeiro de Gal), aquela gostosinha”, diria anos depois, em entrevista ao site Gafieiras. “Pérola Negra” está gravada no disco Gal A Todo Vapor, ao lado dos clássicos “Como 2 e 2”, de Caetano Veloso, e “Vapor Barato”, que revelaria ainda outro jovem compositor, Jards Macalé. O prestígio só aumentou quando Maria Bethânia decidiu incluir “Estácio, Holly Estácio” em seu LP Drama – Anjo Exterminado, de 72. Com 21 anos, o garoto do subúrbio carioca já era cantado por duas das maiores cantoras da música brasileira.
No ano seguinte, coordenador pelo mesmo empresário de Gal, Guilherme Araújo, e contratado pela Phonogram, Luiz Melodia começou as gravações de seu primeiro disco. Os arranjos ficariam por conta de Perinho Albuquerque, produtor de Maria Bethânia. O resultado é Pérola Negra, obra-prima de Melodia e um dos mais versáteis discos da história da música brasileira.
De imediato, a primeira boa impressão. Ninguém sabia interpretar as suas composições tão bem quanto ele. As versões definitivas de “Pérola Negra” e “Estácio, Holly Estácio” estão aqui. E, atropelando o clichê, o termo “caldeirão de influências” faz todo sentido para um artista que cresceu ouvindo Ismael Silva, Noel Rosa, Geraldo Pereira, Jorge Ben e Jovem Guarda. Nenhuma canção é parecida com outra, mas a unidade é inegável.
Desde o samba “Estácio, Eu e Você”, passando por “Vale Quanto Pesa”, que condensa no mínimo três músicas diferentes em seus 3 minutos, até “Forró de Janeiro” e seus berros bizarros durante toda a música, todo o disco traz uma diversidade musical só vista antes nos discos tropicalistas.
Havia ainda canções com gosto de Jovem Guarda (“Pra Aquietar”), balada de cabaré (“Abundantemente Morte”) e rocks estradeiros (“Objeto H”). É trabalho árduo tentar definir e rotular qualquer música do disco. “Farrapo Humano”, um dos pontos altos do disco, transita entre solos de guitarra, seção de metais, levada funk, e imagens líricas incompatíveis com o clima alto astral da música (a letra fala de suicídio com caco de telha e caco de vidro). Mas nada supera em surrealismo a épica “Magrelinha”, apesar de seus curtos dois minutos. Regravada por Caetano Veloso em seu disco ao vivo Noites do Norte, de 2001, a letra da canção não conecta duas frases com sentido claro, na possível melhor interpretação da carreira de Luiz Melodia.
A crítica adorou o vigoroso début, mas Melodia só se fez perceber no grande público no disco seguinte, Maravilhas Contemporâneas, de 76, lançado pela Som Livre. A música “Juventude Transviada” estourou após ser incluída na primeira versão da novela Pecado Capital, da Globo. Sua carreira atravessaria altos e baixos desde então, sendo categorizado na alcunha de artistas malditos, como Walter Franco e Jards Macalé. Passaria a ser reconhecido como excelente intérprete com a versão “Codinome Beija-Flor”, de Cazuza, Ezequiel Neves e Reinaldo Arias, presente na trilha de O Dono do Mundo, novela global de 1991.
Luiz Melodia é parte de um time de artistas que transcende as possibilidades pré-determinadas que suas origens possam sugerir. Assim como Tim Maia e Jorge Ben, Melodia aprendeu a criar música universal partindo de um gueto improvável. A música negra suburbana brasileira no Brasil do começo da década de 70 seria tropicalista se o Tropicalismo não dependesse tanto explicitar o referencial teórico. Mais coerente é dizer que não há pérolas tão preciosas quanto nossas pérolas negras.
Tags: luiz melodia, samba


8 de Maio de 2008 às 4:20
Belo texto, sintetizando a importância (e urgência) de tudo que Ney tem a dizer sobre sua rica experiência com tempo neste belíssimo “Inclassificáveis”. Um cd/show politizado, denso, e, decididamente, anti-monotonia. Um soco no marasmo que assola a cena musical brasileira. Parabéns a Daniel e à Wave!