Personagem
O ‘homem de plástico’ multimídia
5 de Abril de 2008 | por Revista Wave
Multimídia, pop e cosmopolita, Andy Warhol tinha a cara de Nova York e o espírito aventureiro pra renovar a arte pós-vanguardas
Ainda antes de eternizar sua face na série Portraits, como faria também com a de alguns dos grandes ícones da época (Lennon, Marilyn Monroe e Mao Zedong estão entre seus mais conhecidos portraits), poucos saberiam que aquele magro grisalho com traços leste-europeus num canto da Exploding Plastic Inevitable se tratava de Andy Warhol.
Tido como um dos mais influentes artistas e agitadores culturais do século XX, Warhol organizou a turnê multimídia, que passou por algumas cidades estadunidenses entre 1966 e 67, tendo como base a exposição de seus trabalhos plásticos, então inovadores, que alçavam à arte a representação plástica da cultura popular, como a conhecidíssima série de Campbell Soaps ou colagens e serigrafias flertando com o mundo da propaganda e das histórias em quadrinhos (o que convencionou-se chamar Pop Art e teve em Warhol e Roy Lichtenstein seus principais nomes do lado de cá do Atlântico), além de seus filmes experimentais sendo projetados nas paredes.
Os espectadores imersos em tal ambiente warholiano ainda tinham estímulos auditivos, com a presença da talvez melhor banda da época nos EUA, o Velvet Underground. O grupo contava com a presença nos vocais da atriz alemã Nico, uma das estrelas dos filmes que Andy produzia em seu famoso estúdio The Factory, à época freqüentado por gente como Mick Jagger, Bob Dylan e Allen Ginsberg e epicentro dos “superstars” (nome ligado ao grupo de atores e performers que trabalhavam nas produções de Warhol em meados dos 60), que incluíam os nomes de Edie Sedgwick e Gerard Malanga (praticamente desconhecidos no mainstream, mas cultuados no mundo underground que endeusava o artista, uma das figuras intelectuais mais cultuadas do mundo durante a década de 60), e que também participaram da turnê como performers durante as canções do Velvet.
Andy Warhol’s Exploding Plastic Inevitable
A turnê foi tema do filme Andy Warhol’s Exploding Plastic Inevitable (1967), de Ronald Nameth, um curta de 18 minutos que pode ser visto no youtube, no qual aparecem cenas de múltiplos Warhols guiando carrinhos dentro de um supermercado (será que em algum lugar Andy sente-se mais à vontade que diante de seus modelos?), uma cena plasticamente interessante e ágil, citando a exposição de um ano antes chamada Supermarket, na qual telas das Campbell Soups eram vendidas por 1.500 dólares e latas verdadeiras das mesmas autografadas pelo artista por 6 dólares. Ainda que o visitante saísse de lá sem um Warhol original, poderia levar o modelo autografado pra casa.
Mas o foco do filme é a versão de Chicago da exposição, com a música do Velvet Underground sendo o principal destaque (executam três canções do álbum de estréia, que lançariam alguns meses depois e tem a capa desenhada por Warhol – uma das mais clássicas da história do rock, ostentando uma banana pop) e as projeções dos filmes dinâmicos e tremidos na tela chega a ser angustiante.

portrait de Marilyn Monroe, uma das mais famosas obras de Warhol
Plasticman multimídia
Warhol já experimentava com artes plásticas desde o final dos anos 50 e conseguiu uma projeção inicial numa exposição coletiva realizada em 1962 no Museum of Modern Art (MoMA) de Nova York ao lado de outros artistas que propunham a inserção dos elementos pop à arte, entre eles Roy Lichtenstein. Mas seu auge de popularidade foi atingido alguns anos depois, em meados da década de 60, quando sua arte atingiu o público médio e tornou-se referência: os Portraits e as Campbell Soups estavam em todos os lugares e eram imediatamente reconhecíveis como trabalhos de Warhol. Essa forte marca estilística fez de sua obra uma das mais facilmente reconhecíveis do século XX, ao lado de Picasso e Dali.
Com a criação da The Factory, em 63, Warhol passa a desenvolver seu trabalho com um estilo fortemente marcado também em vídeos avant-garde, sendo um dos principais nomes do gênero. Dentre os mais de 100 filmes que realizou entre a fundação e o fechamento do estúdio (após sofrer um atentado à bala do qual sobreviveu com enorme sorte), o destaque vai para os famosos (que quase ninguém viu) Vinyl e Blow Job.
O caráter multimídia do trabalho do plasticman (certa vez Warhol afirmara gostar tanto do plástico como material que gostaria de ele mesmo ser de plástico) era representado na parte musical pelo Velvet Underground, cujo lendário primeiro disco foi gravado nos estúdios do The Factory, sob produção artística de Warhol. A banda foi a pioneira do gênero art-rock e exibia um visual mais dark e agressivo que o dos ingleses que então dominavam a cena musical. As músicas com violinos e experimentações tonais versando sobre drogas, drag queens e prostitutas eram outra grande diferença entre a banda de Lou Reed e as mais populares da época. Uma banda tão avant-garde baseada em Nova York só poderia encontrar apoio em Andy naqueles tempos agitados.
Nova York é pop
A obra e a personalidade de Andy Warhol eram quase que uma personificação da metrópole, àquela época a cidade mais interessante do mundo e o espaço mais cosmopolita, urbano e rebatedor de referências do momento. San Francisco vivia a cena embrionária do que seria a explosão da psicodelia. A swinging London pegava fogo com a ascensão dos Rolling Stones e do mundo da moda. Paris recebia ainda ares do sopro nouvellevagueano e fervia num ambiente situacionista pré-revolucionário. As três cidades tinham cenas bastante profícuas, mas a Nova York de Warhol, Ginsberg, Dylan e Velvet, além dos Panteras Negras, era realmente a redenção do pop. E Warhol era o principal responsável por isso. Foi ao seu redor que emergiram o grupo artístico Fluxus (que revelou Yoko Ono, a responsável por roubar John Lennon da Inglaterra) e gente como Nico e os “superstars” da Factory, que representavam a arte underground.
Um revolucionário renovando as vanguardas
Após a revisão completa que as vanguardas modernistas impuseram à arte nas primeiras décadas do século XX, parecia que qualquer inovação no processo criativo seria baseado nos mesmos processos de desconstrução propostos por Duchamp, Picasso e cia. Mas Warhol conseguiu, imbuído de auto-promoção e espírito aventureiro, promover uma arte inovadora e revolucionária, que tornou-se um dos principais símbolos da pós-modernidade, respondendo imediatamente à invocação que ela constantemente faz da cultura popular, a principal temática dos trabalhos de Andy. É justamente por isso que, mesmo limitando-se a retratar produtos da indústria cultural ou pessoas famosas, a arte de Andy Warhol é tida como a mais influente dos últimos cinquenta anos. Vinte anos após sua morte.

Dois dos grandes nomes do século passado: Warhol foi um dos intermediários entre John Lennon e Yoko Ono



19 de Junho de 2008 às 15:37
muito bom
8 de Agosto de 2008 às 15:45
amei…
Flora te odeio
5 de Novembro de 2008 às 0:26
Warhol revolucionou toda maneira de vermos as personalidades…