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‘Da dor’
5 de Abril de 2008 | por Carol Bataier
Ela lá sentada no degrau da porta, pernas no sol, encostada no batente, essas coisas de criança, vestido sujo e tudo mais.
Mas de cabeça baixa, cabelo despenteado, e segurava uma mecha desgrenhada entre os dedos, enrolando e puxando.
Do lado de fora, o gato dormia, barriga pra cima, desse jeito que dá preguiça só de olhar.
Cena de todo-dia, se ela não continuasse olhando para baixo sem dizer um “oi, me dá um bombom?”.
Silêncio de criança a gente sempre respeita, são naturalmente temperamentais, não precisam fazer cena. Silencie também. Depois, falei de coisas banais, como “dia bonito. Tem bolo, quer?”. Ela só “uhun, ahn, tá” e balançava a cabeça. A mecha de cabelo entre os dedos ainda.
O silêncio começou a me preocupar. Tirei os sapatos e fui colocar as pernas no sol também, ali do lado dela, no pedacinho de degrau que me sobrava.
Ela me mostrou que tinha lágrimas nos olhos, mas não eram tão dolorosas. Umas lágrimas fulgázes, talvez. No chão, entra as pernas, o vasinho de margaridas sem margarida nenhuma, só pedaços. Ela entendeu que eu me preocupava, pegou o vasinho com as duas mãos e me estendeu e nessa hora vi algo em seu rosto que apagava a expressão de vítima: “o gato comeu”. E olhou para ele, com ódio que não mete medo, cara de criança, parecendo brincadeira.
Depois olhou para o vasinho com pedacinhos verdes e a expressão de piedade voltou. Deixou cair mais duas lágrimas e eu fiquei em dúvida se o molhado da terra era água da torneira ou choro dela.
Senti que agora falaria, e falou. Contou que cuidava todo dia da plantinha e que, depois do colégio, colocava ela no sol. Falava esfregando os olhos. E hoje, não entendia porque, o gato veio e acabou com suas margaridas. Ela ganhou as margaridas do avô, quando ainda nem havia flores, só um matinho. Ela cuidou e viu as flores crescendo. Colocou nomes. Mostrou para as amigas. E o gato acabou com tudo.
Senti que ela havia decidido que passaria o resto do dia por ali, ao sol, olhando para o vasinho quase vazio. Quando o sol se for, ela entra.
Coisa tão importante merece respeito e silêncio. Levantei e, ainda olhando de longe, pensei que ela tinha acabado de descobrir o mundo.
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