Opinião
Beleza pura
5 de Abril de 2008 | por Revista Wave
por Tiago Lopes
Eu mesmo não possuo o que chamam costumeiramente de “padrão ocidental de beleza”, not at all, mas a tenho em um nível que me torna aceitável em alguns círculos sociais, e nenhum deles é de jogadores de RPG ou sadomasoquistas, logo não sou, assim, freaking ugly. Mas essa cidade [N.E.: Natal, RN, no caso do Tiago, mas poderia ser qualquer outra, feiúra não escolhe berço.] os possui em demasia e isso tem me afetado de uma maneira negativa, a ponto de diminuir meus pensamentos a quase um único: como vou compensar o tremendo rojão de feiúra que insiste em se instalar no meu campo de visão diariamente? De que maneiras irei reestruturar as áreas do meu cérebro danificadas por visões tão infernais quanto as que me assombram no decorrer de um dia?
Aqui, irei explicar o que fazer depois de passar um longo tempo exposto a uma enorme concentração de cafuçus, ou péssima escrita num livro ruim, ou ritmos desengonçados numa música vulgar, ou imagens tacanhas num filme brega, enfim, tudo que vá contra os princípios de beleza e estética do mundo branco ocidental terá a sua cura apresentada na lista de O QUE FAZER PARA COMPENSAR A CONSTANTE PRESENÇA DE COISAS FEIAS NO SEU CAMPO DE VISÃO:
Pessoas: Comecemos pelo que mais incomoda: ver gente feia. Em caso de ônibus lotado na direção da zona norte, não só ver, como: ter seus vírus expelidos diretamente dentro de seu nariz através de tosse, espirro ou fala cuspida; sentir suas axilas cabeludas no seu pescoço, em graus variados de fricção, dependendo da velocidade do ônibus ou do acidentamento da estrada; tocar em suas tranpirações excessivas; ouvir suas conversas sobre “traição”, “assassinato”, “roubo”, “o show do calypso no faustão”, “o paredão do Big Brother”, “a novela das oito”, “vestibular”, “emprego”, “tela quente”, “filmes da Julia Roberts e da Sandra Bullock”, “primeiro paredão do primeiro BBB”, “velocidade excessiva do motorista”, “velocidade baixa do motorista”, “traição”, “Ana Maria Braga, Xuxa e Betty Faria são pessoas bonitas”, “beijo gay”, “celular com câmera e mp3″, “traição”.
Num ônibus lotado, à medida que as pessoas vão falando, vão se tornando cada vez mais feias, cada vez mais próximas de um grau Costinha de feiúra, a ponto de despertar em você um tipo de complexo de édipo menos estudado: a vontade de furar os olhos com a presilha mais próxima. Isso, se não tratado da maneira correta, irá interferir na sua vida criativa, emocional e até mesmo sexual, caso tenha uma. Ao descer de um ônibus como esse e chegar em casa, lave as mãos, antes de qualquer coisa. Depois, ache em algum lugar (tv, internet) um desfile da Victoria’s Secret. Não importa o ano do desfile, o importante é deixar as imagens das angels substituirem gradativamente as de pessoas que mais parecem excremento de cavalo do que seres humanos na sua cabeça. Ver a Alessandra Ambrósio indo e vindo numa langerie é sufocar a imagem de uma big mamma com cara de cocô que veio sentada do seu lado no ônibus e não teve sequer a educação de segurar sua mochila. Ver a Isabeli Fontana dar um giro na ponta da passarela, empinar a bunda e abrir um leve sorriso para a câmera é esquecer instantaneamente da pirralha que não parava de respirar catarro bem ao lado do seu ouvido. Confesso que o Seal cantando não é my idea of fun, então vê o desfile em mute e põe o Kind of Blue, aí sim você vai apagar definitivamente da sua memória aquela música iradadahoramuitolôca que tocou durante todo o trajeto, em diferentes saídas de som. Taí, Kind of Blue e desfile da Victoria’s Secret: uma parceria que dá certo!
Literatura: Ler um livro ruim e descobrir que ele só é ridicularmente ruim na centésima página é raro, muito raro. Aconteceu comigo duas vezes: Mate-me Por Favor e Mulheres. O primeiro ocupa, tranquilo e imóvel, o posto de pior livro que já li. E o segundo… Toda uma história. Gostava muito do Bukowski enquanto ainda era um jovem mancebo. Aos 15 anos, já havia lido duas coletêas de contos dele e ainda o achava um dos meus escritores favoritos. Aos 15 anos, eu levava muito a sério Linkin Park. Depois de um tempo, Mulheres caiu nas minhas mãos e fiquei até empolgado em ler uma novela do cara. Cheguei na página cem certo de uma coisa: eu era uma besta aos 15 anos. Se o meu eu de hoje conhecesse o meu eu de 15 anos, sentiria vontade de cuspir na cara de um pirralho tão idiota. Deveria ter desperdiçado meus 15 anos lendo mais literatura policial - que eu lia muito antes de topar com esse sujeito e achar que gostar dele era um sinal de amaduracimento - e menos Bukowski. Engraçado como aos 15 anos, qualquer coisa que contenha o menor sinal de sacanagem é algo passível de idolatria. Hoje me arrependo de verdade de ter perdido tanto tempo nessa besta, nesse sub-Henry Miller, nesse anarfa. Caralho! Muito puto de ter perdido tanto tempo lendo esse cara. Então, para compensar o excesso de feiúra literária que se alojou no meu cérebro advindo de tanta merda, qualquer diálogo, qualquer mesmo, do Shakespeare. Transcrevo um dos meus favoritos, extraido de Ricardo III, por enquanto, a minha peça favorita dele:
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ANA: Foste provocado pelo teu espírito perverso que nunca sonha com mais nada senão carnificinas. Não mataste este Rei?
RICARDO (Duque de Gloucester):Concedo-vos que sim.
ANA: Concedes-me, porco-espinho! Pois me conceda Deus também uma maldição sobre ti por esse feito perverso. Oh, como ele era amável, doce e virtuoso.
RICARDO (Duque de Gloucester): Melhor para o Rei dos céus que o tem agora.
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Oh! Quanta finesse! Ironia! Em míseras linhas apenas. Sério crianças, não há mentira alguma no que dizem sobre Shakespeare. E ele não precisou escrever “pau” e “buceta” pra causar sensação de repúdio (se é isso que você procura num livro), só algumas tragédias absurdamente violentas, enfeitadas com os melhores diálogos de todos os tempos.
Música:
Love me or leave me and let me be lonely
You wont believe me but I love you only
I’d rather be lonley than happy with somebody else
You might find the night time the right time for kissing
Night time is my time for just reminiscing
Regretting instead of forgetting with somebody else
There’ll be no one unless that someone is you
I intended to be independently blue
I want you love, dont wanna borrow
Have it today to give back tomorrow
Your love is my love
Theres no love for nobody else
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Considero esses versos os mais bem escritos para uma canção popular de todos os tempos. A aliteração é tão perfeita porque não é só uma mera sequência de vogais desconexas (o que já qualifica toda a mpb como um troço aquém do incapaz), mas algo que atinge o objetivo máximo e essencial da música popular sem parecer minimamente cafona: falar sobre amor. A música foi escrita por Walter Donaldson e a letra por Gus Kahn em 1928. De lá pra cá, a wikipedia lista mais de 40 versões feitas por diferentes artistas. Só conheço a versão gravada pela Nina Simone e acho impossível ela (a música) soar tão bonita na voz de outra pessoa. Ouve todo o resto depois de ouvir isso aqui, quando sentir a necessidade sempre presente de abafar qualquer barulho incômodo (eu sei que música ruim não é uma “coisa feia no seu campo de visão”, mas é algo feio que, não importa o quanto você feche os ouvidos, sempre vai estar lá, logo, ligeiramente pior que uma imagem incômoda é um barulho incômodo).
Cinema: Aqui é fácil. Primeiro: evite ver filmes numa tela de computador. Isso foi criado como uma última alternativa e não como a única para se ver filmes. Dito isso, para cada Cinderela Bahiana ou similares que você acidentalmente tenha visto, não precisa lavar os olhos com água corrente. Procura ver Era Uma Vez No Oeste, Manhattan, qualquer um que tenha a Scarlett (menos esse aqui), 2001 - Uma Odisséia no Espaço, qualquer um do Wes Anderson, Jules e Jim, O Homem que Não Estava Lá, O Melhor da Juventude, Quanto Mais Quente Melhor e outros tantos que ou possuem elementos de um altíssimo grau de beleza, ou foram filmados nesse mesmo padrão. Só mais uma, para tentar dar um extreme makeover na crítica especializada: filme não é confete ou serpentina para ficar pregado na retina.
Tags: isabeli fontana, pessoas


7 de Maio de 2008 às 21:19
A verdade é que o brasileiro é realmente bestial. O país onde a música mais tocada é algo chamado créééu não merece créditos.
8 de Maio de 2008 às 12:48
Belo texto!
10 de Maio de 2008 às 1:54
amigo…seu texto não poderia ser mais coerente……sou fã de terra em transe e acho esse o melhor filme de Glauber apesar de amar dragão da maldade e deus e diabo……..,.estamos na era da informação………..muita informação…….daí nossa confusão entretanto certos valores se tornaram ultrapassados .,vide socialismo…hoje nem lula se considera comunista….mas é triste ver um país se acabar neste lixo cultural…nessa busca por padrôes holliwwodianos de estética dos filmes vulgo globo filmes , a monopolização de certos meios de comunicação como as rádios, sem ofender mas as de cunho evangélico estão dominando tudo,a televisão ,a globo a alienar ….a distorcer a mentalidade do povo……uma educação pública medíocre e privada de qualidade abaixo da média……depois se valoriza quem no mar das dificuldades se dá bem…como um exemplo a ser seguido quando aqueles que não atingiram o esperado deveriam ser guiados…enfim estou frustrado por que o melhor da cultura de nosso país não é mostrado .e discordo de você em relação `a tropa de elite……..achei aquele filme…..não uma critica ao governo e sim um aparelho publicitário do bope por mais que eu veja o sr, padilha falar que seu filme não é fascista ele é extremamente próximo disso, sou mais cidade de deus ,mesmo que ambos tenham bordões utilizados publicamente……veja a lista ….aumentou a quantidade de candidatos ao bope graças ao filme……
10 de Maio de 2008 às 15:27
Pedro Henrique, também gosto bastante do Dragão da Maldade, mas meu preferido ainda é o Deus e o Diabo na Terra do Sol, porque acho que o Glauber conseguiu passar sua mensagem de forma mais lúcida e completa.
A discussão sobre o Tropa de Elite é cheia de nuances que muitas vezes não percebemos. Acusar o autor de Ônibus 174 de fascista é complicado…
A verdade é que o filme foi muito mal-interpretado pelo grosso da população, quando a intenção do Padilha, ao meu ver, era demonstrar a degradação do personagem principal e como a discussão está muito, mas muito além do embate entre polícia e bandidagem. Talvez o formato estético até certo ponto conservador e hollywoodiano da fita tenha contribuído para essa dicotomia entre bem e mal, que não existe necessariamente. Agora, se tem pessoas que querem entrar no Bope para matar bandidos, realmente, é de se lamentar.
Abraços.
15 de Maio de 2008 às 2:35
grande texto! esse trecho é sensacional:
Ou como explicar bobageiras como o sertanejo universitário, a vulgaridade do funk carioca, a pobreza harmônica e poética do axé baiano, em um país que já produziu compositores como Tom Jobim, Dorival Caymmi, Heitor Villa-Lobos?
parabéns!