Especiais
A Multidão e as Luzes da Cidade
5 de Abril de 2008 | por Revista Wave

Ensaio sobre a personagem ‘multidão’ no cinema de Charles Chaplin; desorganizada e desordenada, mas ainda um organismo vivo

por Cesar Augusto Rodrigues

Cria da modernidade, nascida da urbanização e da necessidade de mão de obra para o desenvolvimento fabril, a multidão já era tratada como organismo e retratada na ficção pelos maiores literatos do século XIX, levando Walter Benjamin a considerá-la, no ensaio “Sobre alguns temas em Baudelaire”, o “objeto [que] impôs-se com mais autoridade aos literatos do oitocentos”[1]. Em seu ensaio, Benjamin apresenta a multidão e considera sua recorrente aparição na obra de autores como Baudelaire, Poe e Engels[2] a resposta lógica da ficção a um “grupo” que passava a comportar-se como público, e que, como tal, pretendia encontrar-se no romance seu contemporâneo. Então, dentro de suas características, cada um dos autores encontrou sua forma de inseri-la em seus textos, da lírica de Baudelaire à crítica social de Engels. Benjamin considera esse o principal motivo do sucesso de público que Baudelaire atingira na época.

Com o aparecimento e popularização do cinema, a multidão já era mais vasta, apressada e dividia as ruas das cidades com os automóveis. A vida passava a ser mais veloz e dinâmica e o movimento das imagens do cinema estava mais de acordo com sua velocidade. A literatura ainda destacaria a multidão (que chega a ser protagonista em Nadja, de Breton), mas é no cinema que a multidão do século XX mais vai se encontrar, no sentido reflexivo, já que uma variedade de “multidões” está disponível para a identificação do público segundo o olhar de diferentes cineastas.

Assim como na literatura oitocentista, a multidão do cinema é desorganizada, mas para o espectador do século XX, com o olho já habituado a esse movimento desordenado, que outrora fora capaz de ofuscar os olhares[3], ela é mais compreensível. Na maioria dos casos, ela é um complemento cênico, sendo importante na composição do cenário urbano, como utilizada em Acossado (1959) de Jean-Luc Godard, Ladrões de Bicicleta (1948) de Vittorio De Sica e especialmente em Luzes da Cidade (1931), obra-prima de Charles Chaplin, um dos nomes mais importantes para o desenvolvimento da linguagem cinematográfica e que em tal filme atingia seu ápice, utilizando nele seus experimentos de maior sucesso nos filmes anteriores[4] e conseguindo alcançar humor, lirismo e crítica social com igual força e sem ter que fazer concessões.

Mesmo sendo essencialmente cênica, a multidão tem importantes momentos como observadora nos filmes de Chaplin e Godard e tem papel ativo em cenas cruciais de Ladrões de Bicicleta, aqui o caso em que ela de fato age como um organismo. E talvez a multidão de De Sica tenha mais força ativa que as de Chaplin e Godard porque os próprios personagens são parte dela. Não se destacam, sendo apenas mais homens comuns que se misturam aos chapéus emparelhados. Nos dois momentos em que são outsiders despertam a ira da multidão.

Diferente do pai e do menino em Ladrões de Bicicleta, embora consiga camuflar-se na multidão, o malandro de Godard não se mistura a ela. Sequer faz parte dela, já que está apenas de passagem pela Paris onde os automóveis já ocupam mais espaço nas ruas que os pedestres. Ainda assim, Michel (o personagem principal, interpretado por Jean-Paul Belmondo) e Patrícia (Jean Seberg) podem caminhar livremente pela Champs Elisées, numa das cenas mais conhecidas da história do cinema. Michel, assassino procurado, ao não conseguir misturar-se à multidão a qual não pertence acaba sendo denunciado – inclusive por Patrícia – e acossado pela polícia. Corre sozinho definhando pela avenida enquanto os parisienses observam sem compreender seus últimos momentos.


Cidade das luzes que cegam

Logo na primeira cena de Luzes da Cidade, Chaplin entrega que a multidão será um elemento importante do filme. Nela, um monumento é entregue ao povo da cidade. O que pode parecer apenas uma deixa para os primeiros malabarismos de Charlie é na verdade a apresentação do povo como um personagem. A multidão sorri, aplaude e se espanta ao encontrar o vagabundo dormindo sob os lençóis no monumento ainda não inaugurado.Ainda que apareça em poucas cenas, quase sempre compondo o cenário da cidade por onde Charlie passeia como o flaneur de Baudelaire, o público pôde se encontrar no filme de Chaplin. Tanto a multidão das ruas quanto a “burguesia festeira”, representada pelo amigo milionário. E é justamente ao ver-se na tela que o público crê no vagabundo de Chaplin como um personagem real. Um flaneur na metrópole do entreguerras e do imediatamente pós-Crise de 29.

Infelizmente, a cena em que a multidão é mais emblemática foi cortada do filme por não se encaixar facilmente na montagem final [a cena pode ser vista aqui]. Nela, as pessoas andam apressadas, no ritmo que a modernidade as impõe em qualquer grande cidade; então aparece Charlie, flanando destacadamente[5]. Ele pára diante de uma vitrine e começa a brincar com um pedaço de madeira no chão usando a bengala. Tenta se livrar da madeira que está presa numa grade de bueiro e, cerca de um minuto depois, uma multidão se forma para observar o insólito: apenas o vagabundo encontra tempo para isso na vida urbana, mas a multidão de Chaplin parece um pouco antiquada. É uma multidão que pára e observa. Depois da primeira dispersão, Charlie reinicia sua luta, mas isso resulta numa discussão com um funcionário da loja, o que outra vez atrai um grande público, até que um policial[6] vem e faz com que Charlie vá embora dali.

Os personagens de Luzes da Cidade são aqueles que se destacam na multidão. Além de Charlie e sua antiquadez, a florista e o milionário também não seguem o ritmo frenético da massa. Mas diferente do protagonista eles não flanam. Estão mais ligados a determinados ambientes aos quais sua condição os conduz. Ela, por não ver, não pode acompanhar um fluxo que não conhece. Ele vive realidade diferente: possui um automóvel e participa da “multidão motorizada”.Já um grande ícone em 1931, muito se esperava da estréia de Chaplin no cinema falado. O mundo ansiava por ouvir a voz de Charlie, um personagem enorme à época. Quase parte do folclore de muitos lugares (o nome de Charlie foi adaptado para várias culturas e traduzido para várias línguas, como o Carlitos no Brasil), o vagabundo era uma das vozes que despertavam maior fascínio conhecer. Mas Chaplin optou por continuar mudo: Charlie não poderia ter voz; sequer poderia falar uma língua. Era universal.

O fato de Charlie ter continuado mudo manteve Chaplin em evidência ainda por anos, enquanto ícones como D. W. Griffith tornavam-se obsoletos ao tentar se adaptar ao cinema falado. Charlie continuaria mudo até o discurso final de O Grande Ditador em 1940, mais de uma década depois da inclusão de som ao cinema.

Da cidade moderna à metrópole contemporânea

Apesar do título, as luzes da cidade são pouco visíveis na fotografia em preto e branco. A cidade de Chaplin ainda não tinha os néons da metrópole contemporânea, mas já tinha na luz amarelada de seus postes mais luminosidade que nos lampiões da cidade de Poe em “O Homem da multidão”. Mas mesmo essas luzes eram quase tão imperceptíveis para o espectador quanto eram para a florista cega.

Essa cidade, iluminada pelas luzes amarelas, é também personagem no filme de Chaplin. Mais que um cenário por onde Charlie flana, a cidade tem vida própria e é habitat de diferentes tipos de pessoas. Cerca de trinta anos depois a Nouvelle Vague francesa, capitaneada por Godard e Truffaut, alçaria Paris a personagem também. Se essas eram belas representações de metrópoles modernas ocidentais (americanas e européias), é Yasujiro Ozu[7] quem vai apresentar a beleza da metrópole oriental se reconstruindo no pós-Segunda Guerra.

Num salto de mais de meio século, a metrópole contemporânea já vem sendo bem representada nas telas em diferentes leituras. Ainda que pouco preso à realidade, Vanilla Sky (2001) de Cameron Crowe é uma de suas mais belas representações. David (Tom Cruise) passeia entre realidades paralelas na Nova York da virada de século. As luzes, néons e painéis publicitários - tão tecnológicos quanto possível, parecem ter vida - são onipresentes. Os carros são mais espaçosos nas ruas que a multidão humana. Uma multidão de metal, muito mais veloz e que desespera os ambientalistas, hoje temerosos por conta do aquecimento global.

Noutras leituras, como as que Jia Zhang-ke faz das cidades da nova potência econômica, a China, a visão também é um pouco apocalíptica. É difícil ler a cidade de outra forma no século XXI. A urbanização e o desenvolvimento foram tão intensos nos últimos dois séculos que se tornaram um fardo pesado para o tempo carregar. Cabe à ficção, especialmente ao cinema, que parece ser a arte principal de mais um século diante da derrocada da literatura, representá-los e interpretá-los, de preferência da forma mais poética possível. Ainda que esse desenvolvimento seja temerário.

***********************************************

[1] in Walter Benjamin, “Sobre alguns temas em Baudelaire”, publicado postumamente à morte do autor em 1962.
[2] Ainda que o texto de Engels não seja ficcional, a forma utilizada para descrever a multidão se aproxima da ficção.
[3] Em nota de “Sobre alguns temas em Baudelaire”, Benjamin compara o movimento desordenado da multidão ao caos das manchas de cor da pintura impressionista, que já antecipava o modernismo: “A técnica da pintura impressionista, que extrai a imagem do caos das manchas de cor, seria portanto um reflexo de experiências que se tornaram familiares ao olho do habitante de uma grande cidade”. Teria a multidão influenciado o impressionismo ou o mesmo conseguido involuntariamente encontrar a melhor forma de retratá-la?
[4] Em Luzes da Cidade, Charlie mostra suas melhores acrobacias, reedita a performance do boxeador de O Campeão de Boxe [1918], dança, luta e até trabalha para pagar as contas da amada.
[5] Charlie é uma figura singular na metrópole de Luzes da Cidade; ainda que siga, com chapéu e bengala, o figurino comum, conserva um romantismo extra na forma de andar e no modelo de bigode, roubado alguns anos depois pelo populismo violento e usado como trunfo-piada pelo próprio Chaplin em O Grande Ditador [1940].
[6] O policial é um personagem constante nos filmes de Chaplin. O próprio cineasta afirmara certa vez: “Tudo que preciso para fazer uma comédia é um parque, um policial e uma garota bonita”.
[7] Ozu é visto como o cineasta que melhor representou a “reconstrução” japonesa em filmes como Pai e Filha [1949] e Era Uma Vez em Tóquio [1953]. Suas histórias eram cotidianas e contemporâneas e talvez por isso despertem menor fascínio no mundo ocidental que os samurais de Akira Kurosawa, o cineasta oriental de maior sucesso por aqui.

Tags: , ,

Deixe um comentário