Música
Meninos do Rio
1 de Março de 2008 | por Daniel Faria
A Revista Wave conversou com a banda carioca Do Amor, principal promessa independente para 2008
Eles são cariocas, defendem o axé baiano e o heavy metal, já passaram pelas bandas de Caetano Veloso e Los Hemanos e protagonizam concorridos shows em casas noturnas paulistanas, como a Outs, a Funhouse e o centro cultural Studio SP. E pensar que até o fim de janeiro o grupo ainda não tinha completado nem mesmo dez shows na curta carreira. O que não significa falta de experiência.
Vale a pena conferir o currículo dos membros da banda: Gabriel Bubu, (guitarrista e baixista) se apresentou com os Los Hermanos, Branco Mello e R
ubinho Jacobina, dentre outros; Gustavo Benjão (guitarrista) fez parte da banda de Lucas Santtana, Nina Becker e Jonas Sá; Marcelo Callado (baterista) e Ricardo Dias Gomes (baixista) são muito responsáveis pela sonoridade do ótimo disco Cê, de Caetano Veloso, e excursionaram o Brasil e o mundo acompanhando o baiano.
O Do Amor foi formado em 2006, mas os integrantes se conhecem de longa data. Com exceção de Ricardo Dias Gomes, todos faziam parte do cultuado Carne de Segunda, “a maior agência de bons músicos que se tem notícia”, como definiu o jornalista e fotógrafo Marcos Bragatto. A herança deixada é o experimentalismo e a liberdade estética: no Do Amor, todos compõem, todos cantam, todos tocam. Sucesso nos shows, a divertida “Pepeu Baixou Em Mim”, homenagem-paródia com o guitarrista baiano, é composição da época do Carne de Segunda.
Com o recesso dos projetos paralelos, o Do Amor aproveita o momento para concentrar as energias no grupo. E o resultado parece positivo. A inusitada concepção sonora da banda, que valoriza tanto o axé oitentista de Luiz Caldas, o heavy metal do Iron Maiden e o duo alternativo americano Ween, encontrou boa recepção entre a crítica especializada. Por enquanto, apenas um EP lançado, apenas cinco músicas gravadas. Suficiente para enquadrar o Do Amor entre as principais promessas do circuito independente em 2008. A Revista Wave conversou com a banda.
Revista Wave - Há em grande parte da imprensa a suposição de que a atual geração de músicos cariocas (Orquestra Imperial, Roberta Sá, Jonas Sá, Marcelo Camelo…) é a mais talentosa em muito tempo. Vocês mantêm contato direto com essa turma, além da própria ligação com Caetano. Como é para vocês tomarem parte desse grupo?
Gustavo - Eles sempre gostaram dos nossos trabalhos, composições e, aos poucos, começaram a chamar a gente pra tocar em seus projetos, fazer coisas juntos…
Gabriel - Não vejo esse pessoal como um grupo, e sim como amigos. Os trabalhos de todos eles são bastante interessantes, mas não me vejo dentro do grupo algum “privilegiado”, “talentoso da década” ou qualquer outro arquétipo que a imprensa ache nutritivo. Acho que nem nenhum deles se sente confortável com esse enquadramento.
Marcelo - Quando éramos mais jovens, freqüentávamos os shows e até mesmo ensaios dos antigos grupos destas pessoas, e acabamos ficando amigos deles. Na verdade, apesar da diferença de geração, o que existe é uma forte relação de amizade e de trocas musicais.
RW - O Jornal do Brasil (07/01) destacou a apatia do público no show do Vanguart após a apresentação “vibrante” (segundo o jornal) de vocês, no festival Humaitá Pra Peixe. Há uma diferença estilística clara entre as bandas. Sendo o Vanguart uma banda decalcada no folk americano de Bob Dylan e no rock inglês do Radiohead, e vocês declarando amor por Luis Caldas e Pepeu Gomes, a reação do público, mesmo que o HPP não seja parâmetro popular, não revela uma valorização da brasilidade mais livre, quase popularesca, a um público alternativo, que não deixa de ser uma vitória para o grupo e para a música brasileira, com as devidas proporções respeitadas?
Gabriel - As influências da Bahia estão sendo muito comentadas e não são as únicas, muito menos as principais. Todos escutam de tudo a um bom tempo e, por exemplo, o Marcelo é um grande entusiasta de Bob Dylan também. A gente não está travando nenhuma batalha em prol da “verdadeira brasilidade”, até por que, sobre o que se mantém tradicional na cultura brasileira, podemos dizer que existem inúmeras diferenças de regionalismos. Muitas vezes antagônicos, até.
Marcelo - Bicho, acho um pouco perigoso esse papo de vitória de um grupo da música brasileira sobre um grupo da música gringa. Não existe isso, pra mim. Acho ótimo duas bandas diferentes no mesmo palco. Muito melhor pra música e pro festival existirem bandas distintas, cada qual na sua e se respeitando.
RW - Mas vocês conseguem perceber essa distinção entre as bandas independentes do Rio de Janeiro com os indies do resto do país? Do lado de vocês, artistas mais ligados à música brasileira, bem humorados, do outro lado grupos com forte influência inglesa ou americana, mais sérios.
Marcelo - Acho que não é possível generalizar. Tem de tudo em tudo que é lugar.
Gustavo - Historicamente, o Brasil sempre produziu músicas das mais diversas nas diversas regiões. Hoje em dia, com a aproximação de certas culturas, com o acesso das pessoas a estilos diferentes e com a Internet, talvez essa regionalização da música esteja mais diluída, menos aparente. É claro que existem diferenças entre as bandas, mas não acho que o fator regional seja tão significante agora.
Gabriel - Eu acho que os “indies do Brasil” (risos) são relativamente parecidos. É aquela pedreira de correr atrás de show e contato etc. Já no som, acho que tudo é muito vasto e cada vez mais, ainda bem. Ter influências estritamente inglesas ou americanas não vai de modo algum lhe fazer ser mais ou menos brasileiro.
Ricardo - É real este “não se levar muito a sério” da banda. Mas isso não tem motivo estilístico. Vem da nossa vivência.
RW - Isso de “não se levar muito a sério” é interessante porque há realmente quem veja o Do Amor como brincadeira, ironia. É notável o descompromisso e a despretensão da banda – e talvez seja exatamente isso que desperte o interesse em vocês. Mas até que ponto o Do Amor deseja ser ou não ser visto com essa alcunha de irreverentes?
Marcelo - O Do Amor esta sendo a brincadeira mais séria que pelo menos eu - e acho que os outros também - já tive na vida! Queremos estar aí, mostrar nossa cara e viver disso, sendo vistos como irreverentes, sérios, burros, gênios ou qualquer coisa que o valha.
Gustavo - A irreverência é apenas mais um modo de você lidar com alguma coisa ou situação. Não sei se somos descompromissados ou despretensiosos… acho que lidamos com nossas músicas de uma forma natural, sem neura. O humor é uma coisa presente, mas existe um compromisso sério, tanto com o público, quanto conosco mesmo. Tem uma música nossa chamada Brainy Days que é um dub, mas fala sobre o fim da humanidade. E é sério isso!
Ricardo - Não é objetivo, é inexorável.
RW - O axé é visto por parcela da crítica como música chula. O heavy metal, que também é citado como influência do grupo, é encarado como bobagem adolescente. Como vocês defenderiam e definiriam essa mistura do Do Amor?
Marcelo - Defendo dizendo que qualquer estilo musical é válido para nós. Não temos preconceito com nenhum tipo de musica e acabamos refletindo isso nas composições. É bem natural você compor coisas variadas quando ouve coisas variadas.
Gabriel - Eu não sei definir não, e não me preocupo com isso. Axé e Metal são matéria-prima que a gente pode usar quando quiser. Assim como a polca e o merengue.
Gustavo - O Axé e o metal têm tudo a ver. Imagina só um encontro do Armandinho, aquele do Trio Elétrico Dodô & Osmar, com o Eddie Van Halen. Ou então o Iron Maiden tocando suas músicas em ritmo de frevo, em cima de um trio, sacou? (risos) Tem até o lance da estética farofa, das guitarras mirabolantes, das convenções, tem tudo a ver. Acho que essa de ser chulo ou bobagem adolescente é de cada um. Eu amo o Axé e o Metal! Lindo demais!
RW - Vocês citam o Mulheres Q Dizem Sim como a principal influência do grupo. O caminho que pretendem traçar pode ser semelhante, no sentido de se tornarem “a banda cult carioca da década” ou acreditam no potencial de ampliar a platéia? Ricardo - Sinceramente, não sei. Estamos colocando a cara no mundo e sabemos que não temos total controle do nosso destino.
Marcelo - Acreditamos no potencial de nós mesmos, independentemente de ampliar platéia ou não. Queremos viver bem tocando juntos, sendo “a banda cult carioca da década” ou não. Na real, ‘tô cagando para esse e outros rótulos. O que importa é a musica produzida e a vontade de se estar ali.
Gustavo - Hoje em dia, os caminhos são outros. Esse negócio de se tornar cult pode até ser
bacana pro ego, mas queremos agradar mais gente do que a nata cultural ou a crítica especializada. Quando você faz uma música, de algum jeito, você quer que ela caia no gosto popular por achar que o seu trabalho pode ser de alguma forma relevante pras pessoas em geral. Nós não fazemos músicas pra um público específico.
RW - Em que a participação dos membros da banda como músicos de artistas de grande porte, como Caetano Veloso, Los Hermanos, contribuíram para a concepção de Do Amor, neste momento de privilegiar novamente a banda? Não apenas em termos musicais, mas profissionais, de contato com a imprensa, apresentações ao vivo.
Marcelo - Contribuiu muito, sim. Principalmente com relação a uma mudança no nosso próprio comportamento. Estamos mais calejados e maduros para poder lidar com e pôr pra frente nosso próprio trabalho. Além, é claro, de termos ampliado nossos contatos, tanto com imprensa, como com produtores e tal, o que é uma mão na roda também.
Gabriel - Falando de música, é sempre uma experiência de vida de cada um que, invariavelmente, é trazida por cada um, não se limitando aos artistas de grande porte. Em termos extra-musicais, sabemos que não tem colher de chá, sabemos que precisamos dar nossos próprios passos, e o que ajuda nessa hora é a experiência adquirida na estrada.
Ricardo - Somos apaixonados pelo nosso trabalho. Aprendemos muito tocando muito por aí com todos. A banda tem uma interseção maravilhosa de experiências
RW - Vocês possuem características próprias. Poderiam definir como o gosto de cada membro influencia nas músicas?
Gustavo - Eu não sei definir (risos). Sei que isso ocorre naturalmente. Gostamos de bastante coisas em comum, mas volta e meia um é mais especialista em uma banda ou artista do que outro. E é óbvio que existem diferenças. Isso ajuda.
Marcelo - Cara, isso é muito difícil, pois todo mundo ouve de tudo e, embora haja diferenças, no fim, todo mundo mete a mão nas músicas de todo mundo. Ou seja é uma puta suruba. Você vai querer se entender numa suruba? vai? (risos).
RW - Como a Internet está sendo importante na divulgação do trabalho da banda?
Gustavo O MySpace (www.myspace.com/doamor) é uma ferramenta de divulgação excelente. Já armamos alguns shows só através dele. Mas o lance pessoal, de entrar em contato, mesmo que por e-mail com produtores, bandas amigas etc, ainda é fundamental. A Internet só facilita a divulgação e a comunicação.
RW - O EP foi gravado no final de 2006, certo? Estão preparando um disco inteiro? O repertório está pronto para fechar um álbum?
Marcelo - Já temos repertorio para um disco inteiro sim. Estamos a fim de fazer isso ainda no primeiro semestre deste ano.
RW - Quais são os planos da banda daqui pra frente?
Ricardo: Trabalhar muito!
Marcelo: Muito show! Fazer um disco! Fazer muito mais show ainda!
Gustavo: Fazer shows, festivais, um disco, divulgar, viajar, se divertir, divertir as pessoas, e se possível nos bancarmos cada vez mais com a banda. O que mais podemos querer?
fotos: carol bitencourt e bortolo
Tags: independentes


