Personagem
Leila Diniz (1945-1972)
1 de Março de 2008 | por Daniel Faria

A carioca mais polêmica do século passado desafiou convenções e valores morais em plena ditadura militar

Como diz Leila Diniz / O homem tem que ser durão/ Se ela não chegar agora /Não precisa chegar/ Pois eu vou me embora/Vou ler o meu Pasquim
Erasmo Carlos - Coqueiro Verde

Símbolo da revolução feminina no Brasil, defensora da liberdade sexual, polêmica por natureza, as referências-alcunhas ao nome da atriz Leila Diniz passam quase por clichês. Famosa pelas frases sem pudores, escancarando a vida íntima com detalhes que enrubesceriam até uma Marilyn Monroe, ainda impressiona saber que, em plena ditadura militar paranóica na defesa de valores tradicionais da família brasileira, uma mulher de 24 anos possuísse tal coragem para causar tamanho furor. Desfilava pela imprensa do país com declarações de impacto poucas vezes vistas antes e quase sempre banalizadas depois.

Nascida em 25 de março de 1945, em Niterói, no Rio de Janeiro, Leila formou-se em magistério e foi ser professora de jardim da infância no subúrbio carioca. No Rio, aos dezessete anos, conheceu o cineasta Domingos de Oliveira em uma festa de Natal que este promovia em casa para seu círculo de amigos – do qual Leila não fazia parte. A futura atriz acabou passando a noite com Domingos. Era o inicio de uma relação que duraria três anos e um casamento e que abriu caminhos para sua carreira no teatro e, em breve, nas novelas da Globo.

Estreou como atriz, em 1963, dirigida pelo marido na peça infantil Em Busca do Tesouro. No ano seguinte, foi corista em um show de Carlos Machado e em 1964, contracenou com Cacilda Becker em O preço de um homem. Nas novelas, Leila estreou em 1965, na primeira telenovela exibida na Globo, Ilusões Perdidas, escrita por Ênia Petri, no papel da vilã. Fez ainda Eu Compro Essa Mulher e O Sheik de Agadir, ambas de Glória Magadan, em 1966. Em toda a carreira, participaria de 12 novelas.

No cinema, fez duas participações em filmes de Ambrósio Fregolente (O Mundo Alegre de Helô) e de Luis Alcoriza, que já trabalhou como assistente do espanhol Luis Buñuel (Jogo Perigoso). Em Todas as Mulheres do Mundo (1966), já separada a um ano de Domingos, foi dirigida pelo próprio e ganhou seu primeiro papel de destaque, num filme que relembrava momentos do casal. O ex-marido realizou ainda Edu, Coração de Ouro, no ano seguinte, estrelado mais uma vez por Leila e Paulo José, o ator com quem a carioca mais gostava de atuar.

Já estabelecida como atriz, as entrevistas concedidas por Leila na imprensa da época a tornaram celebridade nacional. Não medindo palavras (e palavrões), desprezando convenções, sua figura adquiriu proporções desmedidas, tanto para aqueles que lhe caíram de paixão, quanto por aqueles que a perseguiam. O auge da polêmica é a famosa entrevista feita pelo também polêmico jornal O Pasquim. Idealizado no final de 1968 pelos jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral, e o cartunista Jaguar, O Pasquim se configurou no principal veículo da imprensa no papel de oposição à ditadura militar no Brasil.

Pois bem, na entrevista, de 1969, no momento em que a perseguição política a toda manifestação transgressora e desafiadora aos bons costumes da sociedade (lembre-se: em 1968 as instituições religiosas e familiares ainda eram, e principalmente com a ditadura militar, extremamente valorizadas), a atriz com 24 anos desfilou tantos palavrões que O Pasquim precisou substituí-los por asteriscos. “Cada palavrão dito pela rósea boquinha da bela Leila foi substituído por uma estrelinha. É por isso que a entrevista dela até parece a Via Láctea”, explicou o jornal.

A sucessão de frases polêmicas (a mais famosa: “Você pode muito bem amar uma pessoa e ir para cama com outra. Já aconteceu comigo”, dentre outras, confira abaixo) fizeram dessa edição a mais vendida da história do jornal. A repercussão não poderia ser maior. Leila seria o avesso e o complemento do movimento feminista, defendendo prazer sexual e amor livre, a mulher moderna, símbolo de uma nova era, louvada pela esquerda. Por outro lado, a maior parcela da população desaprovou a atriz, de cujos impropérios recebidos, “vulgar” é o menos ofensivo. Exatamente após a publicação da entrevista, foi instaurada no país a censura prévia a imprensa. O decreto ficou conhecido como Decreto Leila Diniz.

A partir de então, Leila viu suas oportunidades na Rede Globo diminuírem consideravelmente, que não renovou seu contrato, alegando razões morais. As incômodas entrevistas perturbam a polícia política, que a acusa de ajudar militantes de esquerda. O apresentador do programa Flávio Cavalcanti – ironicamente, sempre tratado como reacionário – esconde Leila, que era jurada do seu programa, em seu sítio em Petrópolis.

Mas ainda não era o fim dos transtornos causados por Leila Diniz. A atriz casaria novamente, dessa vez com o diretor de cinema de origem portuguesa, Ruy Guerra, em 1971. Grávida, escandalizou a sociedade exibindo sua barriga de oito meses na praia de Ipanema, de biquíni. Após o nascimento de Janaína, sua filha, foi fotografada várias vezes amamentando a menina. É eleita a grávida do ano no programa do Chacrinha. Definitivamente, a opinião alheia e as patrulhas comportamentais pouco interferiam no estilo de vida da carioca. Independente, livre, e aparentemente, muito feliz. Era óbvio que incomodaria numa época tão vinculada a tabus.

Retoma a curta e bem sucedida carreira como vedete, estrelando a peça Tem Banana na Banda, onde improvisa partir dos textos de Millôr Fernandes, Luiz Carlos Maciel, José Wilker e Oduvaldo Viana Filho. Badala o carnaval carioca de 1971, sendo eleita a Rainha da Banda de Ipanema pelo agitador Albino Pinheiro. Porém, no ano seguinte, quando a fama alcançara o ápice, aos 27 anos de idade – número trágico da ressaca sessentista - Leila morreu em acidente de avião em Nova Delhí, na Índia, quando voltava de viagem da Austrália, onde participara do Festival Internacional de Adelaide para promover o filme Mãos Vazias. A atriz havia antecipado o vôo de volta por causa da saudade que sentia da filha. Notável: a “promíscua” Leila era mãe responsável e amorosa, mesmo levando uma vida tão autêntica, tão apaixonante.

Leiluska, como era chamada pelos amigos mais íntimos deixou um legado que ainda hoje é reverenciado por meninas e mulheres de várias idades. Se hoje sua história ainda impressiona, tente imaginar como isso se dera em uma época de mentalidade conservadora que apostou na repressão como via de moralização do país. Linda, ficará eternamente exposta pela própria juventude, ainda hoje à frente do tempo. Pioneira na real revolução sexual do Brasil, Leila fez quase sempre o que quis. Sua frase, “quebro a cara toda hora, mas só me arrependo do que deixei de fazer por preconceito, problema e neurose”, resume uma vida.

Frases:
“Nem de amores eu morreria porque eu gosto mesmo é de viver de amores”
“Cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco”.
“Viver, intensamente, é você chorar, rir, sofrer, participar das coisas, achar a verdade nas coisas que faz. Encontrar em cada gesto da vida o sentido exato para que acredite nele e o sinta intensamente”
‘Você pode amar muito uma pessoa e ir pra cama com outra”.
“Sempre andei sozinha. Me dou bem comigo mesma”.
“Eu trepo de manhã, de tarde e de noite”.
“Todos os cafajestes que conheci na vida são uns anjos de pessoas”.
“Quebro a cara toda hora. Mas só me arrependo do que deixei de fazer por preconceito, problema e neurose”.
“Eu durmo com todo mundo! Todo mundo que quer dormir comigo e todo mundo que eu quero dormir”.
“Só quero que o amor seja simples, honesto, sem os tabus e fantasias que as pessoas lhe dão”.
“Não sou contra o casamento. Mas, muito mais do que representar ou escrever, ele exige dom”.
“Eu posso dar para todo mundo, mas não dou para qualquer um”.

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3 comentários

  1. David Martins diz:

    Bem não sei o q dizer… falta palavras.. mas não e fácil viver com aquela culpa

  2. Cristal diz:

    Pessoal,

    Necessito da entrevista de Leila Diniz ao PASQUIM com URGENCIA quem puder mande para meu e-mail…..

    OBRIGADA!

  3. sofia diz:

    Para mim não existiu pessoa mais especial. Chorei de montão quando ela se foi. Ela foi, é e será sempre meu ídolo. Como já foi escrito, ela é uma estrela que sempre vai brilhar. Obrigada Leila pela sua existência…

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