Literatura
Crônica: A Colméia
1 de Março de 2008 | por Daniel Faria
Na infância, Julinho insistia, para toda sala.
- Piolhento, Matias, você é um piolhento - exclamava com seu sorriso torto, e desde a tenra idade, cafajeste.
- Ainda me paga, Julinho, ainda me paga – o outro retrucava, sob as risadas dos coleguinhas de classe.
Jogavam bola naquele campinho em frente ao boteco do pai do Julinho, Seu Madureira. Matias era a enciclopédia da feiúra, dizia o Toninho da mercearia, ao vê-lo desfilar pela vizinhança com a sujeira dos pés alcançando até o joelho, a camiseta velha e desbotada e aquele cabelo tão crespo e desgrenhado que um desavisado diria tratar-se de uma colméia de abelhas. “Eita neguinho feio esse Matias”, viviam cantando os velhotes.
Mas era Julinho seu grande perseguidor. Sob o olhar altivo do pai Madureira e dos tios e primos que lotavam o boteco depois das cinco da tarde, quando acabava o expediente da fábrica de plástico, Julinho se sentia no direito de ser o dono da rua. Não havia criança naquela vizinhança que ousasse desafiar o menino, que segundo Marina, que trabalhava no Supermercado Boa Vista, teria cortado o dedo do padre João com um canivete, após este determinar-lhe vinte pais-nossos e trinta ave-marias por ter roubado a caixinha do dízimo. Marina só não revelava como estava sempre tão informada em relação a tudo que dizia respeito ao padre João.
E era assim todo dia, na escola, na rua, no campinho em frente ao boteco.
- Piolhento, Matias, você é um piolhento.
- Ainda me paga, Julinho, ainda me paga.
********************Com o passar dos anos, a convivência diminuiria. A família de Matias, que atravessava complicações financeiras, fora morar no único ponto não-asfaltado do lugar, a entrada norte, “lá no Pé Vermelho”, apelidavam os moradores. No Pé Vermelho, Matias foi bem acolhido pelos traficantes, tão piolhentos quanto ele.
Do outro lado da cidade, Julinho passava a ser o maior consumidor do boteco de Seu Madureira. Bebia como ninguém. Há quem diga que nem mesmo o Toninho, famoso pelas peripécias etílicas, conseguia acompanhar o fôlego do menino. E continua cafajeste; quem poderia não rir dos apelidos que ele rapidamente cunhava para os desprovidos?
Foi quando os dois, assistindo a um jogo de timecos locais no estádio municipal, se reencontraram. Matias estava mudado. Usava agora roupas modernas, como aqueles moços que vieram da capital. Mas o cabelo crespo e desgrenhado era o mesmo, quiçá maior. E assim que o viu, Julinho berrava, provocando risos nos presentes:
- Piolhento, Matias, você é um piolhento.
E coincidentemente, a partir daquele dia, os dois se encontravam com freqüência. Campeonatos de sinuca, peladas nos campinhos da cidade, pescaria nos rios, onde estivesse Matias, lá estava Julinho a debochar do amigo de infância.
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Porém, Matias já não abaixava a cabeça. Conseguira uma arma com seus amigos traficantes e estava disposto a terminar de vez com essa perseguição. Levaria a vingança às últimas conseqüências. “Chega de humilhação”, pensava. “Dessa vez você me paga, Julinho, dessa vez você me paga”.
Dito e feito. Certa tarde de quinta-feira, quando os funcionários da fábrica de plástico se posicionavam para mais uma tarde de bebedeira após o expediente no boteco do Seu Madureira, lá já estava Julinho, bêbado e estampando apelidos em cada qual que entrava. Matias se aproximou, armado, e certo que aquela boca nunca mais proferiria ofensas a seu respeito. E assim se fez. Antes que Julinho pronunciasse o habitual “piolhento”, Matias disparou cinco tiros, três dos quais no rosto, e um precisamente que lhe estourou os dentes. E pela primeira vez, estampou um largo sorriso. “A humilhação agora é da família desse desgraçado”, pensava. Os olhares pasmos só confirmavam seu regozijo. E fugiu.
Óbvio, porém, que a polícia descobrisse o autor do crime, com tantos que testemunharam o assassinato. E logo Matias foi fichado e preso. Trancafiado numa cela com mais 15 presidiários, após uma semana vários de seus colegas reclamavam de coceiras no cabelo. O rebuliço era geral.
“Cortem o cabelo desse neguinho!”
“Vamos passar a faca nesse piolhento!”
Em pouco tempo, o carcereiro adentraria o corredor com outro guarda e arrastaria Matias para outra sala.
- Neguinho, vamos cortar esse cabelo, seu piolhento, vai passar piolhos para todo mundo.
E o carcereiro do presídio raspou-lhe a cabeleira.
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Daniel Faria, 22 anos. Pisciano, assim como Bertolucci, Glauber Rocha, Villa-Lobos, Philip Roth, Gabriel Garcia Márquez e Elis Regina são piscianos. Editor-chefe e idealizador da Revista Wave, já escreveu na Revista Paradoxo e na extinta Revista Bizz. E-mail: daniel.faria.7@hotmail.com
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