Opinião
Nelson Rodrigues e os idiotas da objetividade
20 de Fevereiro de 2008 | por Daniel Faria
“Se o copy-desk já existisse naquele tempo, os Dez Mandamentos teriam sido reduzidos a cinco”
Quando Nelson Rodrigues fora contratado por Samuel Weiner para escrever em seu recém-criado jornal, Última Hora, no ano de 1951, ficou pasmo com aquela redação moderna, que utilizava técnicas americanas na confecção de notícias. Era a revolução do “lead” e do “copy-desk”, a busca constante pela objetividade, o corte de excessos literários ou qualquer tipo de uso supérfluo das palavras.
Para Nelson, freqüentador de redações desde os 13 anos de idade e acostumado com uma imprensa pitoresca, que utilizava exclamações em manchetes e redigia textos com um grau passional digno de dramalhões mexicanos (ou de uma peça de Nelson Rodrigues), esse novo jornalismo era frio, insensível ao leitor. Não demorou, e logo criou uma nova categoria: “os idiotas da objetividade”, passando a ridicularizar a classe em suas crônicas.
Hoje, é óbvio perceber qual lado predomina. Com exceções de alguns párias, que se destacam mais por afinidade ideológica do que por seu apelo popular (Paulo Henrique Amorim, Diogo Mainardi, Arnaldo Jabor, há mais alguém?) e que ainda assim dependem muito de causas externas não-relacionados aos seus textos para chamar atenção, não há mais real ligação entre o jornalismo e o público.
Um espirituoso amigo disse que apenas jornalistas e estudantes de jornalismo lêem jornais. Exageros à parte, essa relação jornais-público segue em um distanciamento atroz, quase imperceptível para aqueles que não participam do fluxo. E os não-participantes constituem a enorme maioria.
Que real repercussão o editorial da Folha de S. Paulo tem na população do país? A coluna rancorosa de Diogo Mainardi converte não-convertidos? E o uso abusivo de termos como caixa 2, laranjas, lavagem de dinheiro, alguém sabe o que significa, além de negativas? A esquerda não critica a “mídia golpista”? A direita não reclama da falta de vigilância dos meios de comunicação? Enquanto isso, as pessoas normais estão atentas às curvas de Gyselle, no Big Brother. O distanciamento não poderia ser maior.
A mídia, esse moinho de vento travestido de dragão de Cervantes, perdeu na falta de humanização que Nelson Rodrigues reclamou, a possibilidade de ascender a velha influência sobre a iletrada/iletárgica massa. Caros amigos, vejam bem. No Brasil, a tendência para a preguiça e interesse na vida alheia sobrepuja qualquer inclinação política. E atenção, isso não é defeito nem fruto de anos e anos de colonização e subserviência aos desenvolvidos. É característica intrínseca do brasileiro, quase imutável.
E a solução? Voltar ao sensacionalismo grotesco, subdesenvolvido, ou ignorar que o país não criou ainda condições econômicas para que o jornalismo seja sempre tão elitista (falamos de posição social, não cultural ou intelectual; há toda uma diferença)? Nem o mar nem a terra. Precisa-se na verdade humanizar os “idiotas da objetividade”, para que estes não criem os “cretinos fundamentais”, que tanto assolam as salas de redações e as esquinas do país.
Brasileiro tem pavor (ou inveja agressiva) de credibilidade, elitismo, clubes fechados, pretensa superioridade, enfim, qualquer demonstração de intelectualidade. É o maior trunfo da esquerda e o maior pânico da direita, que incrivelmente estúpida, não faz a mínima idéia do papelão ridículo que exerce. Os jornalistas partidários esquecem do primordial, do exemplo estampado na cara de todo mundo, quase cuspindo.
É o fator humano que levou Lula a presidência do país. É o fator familiar, a fascinação popular, a exposição da decadência da enorme distância entre os pobres e a classe média, a suposta possibilidade de ascensão, que levaram Lula a ser reeleito. É a ineficácia da oposição, o distanciamento, os ataques gratuitos a características que não são particulares do presidente, que tornam o “lulismo eterno” idéia positiva para milhões de brasileiros.
Os idiotas da objetividade tentam com afinco permanecer com esse ímpeto recalcado, procurando manter uma divisão de classes que não empolga nem os grandes empresários, sedentos por consumidores, muito menos a população, por motivos óbvios. A batalha não é entre as bestas da esquerda e as bestas da direita. É confronto de classes. Nelson Rodrigues e seu temor aos grã-finos politicamente detestáveis, hoje continuaria se posicionando contra essa classe tão antipática. Apenas a nomenclatura mudou. A esquerda de 1968 é a direita de 2007. Só os idiotas da objetividade ainda não perceberam.
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