Personagem
Kevin Carter (1960-1994)
20 de Fevereiro de 2008 | por Daniel Faria

Fotojornalista sul-africano suicidou-se após anos registrando a miséria humana 

por Daniel Faria

“Eu estou depressivo…sem telefone…dinheiro para o aluguel…dinheiro para o sustento das crianças…dinheiro para as dividas…dinheiro! Eu estou sendo perseguido pela viva memória de matanças, cadaveres, cólera e dor…pelas crianças famintas ou feridas…pelos homens loucos com o dedo no gatilho, mesmo policiais, executivos assassinos…”
Trecho da carta de despedida de Kevin Carter

“Um homem ajustando suas lentes para tirar o melhor enquadramento do sofrimento dela talvez tambem seja um predador, outro urubu na cena”, comentou sobre a própria obra o fotográfo sul-africano Kevin Carter (1960-1994). A polêmica foto acima foi tirada em março de 1993, numa viagem ao sudeste do Sudão. Carter chegou com a intenção de documentar os movimentos rebeldes do país, mas o horror da fome e da miséria acabaram conduzindo seu trabalho.

Numa dessas expedições, Carter encontrou a criança da foto rastejando faminta até um campo de alimentação da ONU, a aproximadamente um quilomêtro do local. O fotográfo observou a garota, e percebeu um urubu a espreita. Carter diz ter aguardado até vinte minutos, esperando que o pássaro se retirasse. Como o urubu não saiu, ele procurou o melhor enquadramento, tirou a foto e açoitou o predador. Depois, partiu dali abandonando a criança da maneira que a encontrou.

A foto foi publicada pela primeira no The New York Times, em 26 de março de 1993. Imediatamente, a reação popular se manifestou. Cartas e telefonemas inundaram a redação do jornal americano, questionando o paradeiro da criança (até hoje desconhecido) e o comportamento do fotográfo após conseguir a imagem. A situação era, no mínimo, paradoxal.

Se para grande parte do público o fotojornalista foi desumano, sádico e frio, por não intervir no sofrimento da criança, para a crítica especializada Kevin Carter merecia todos os cumprimentos pelo profissionalismo e objetividade. Ganhou o Prêmio Pulitzer por Fotografia, em 23 de maio de 1994, o mais importante prêmio jornalístico do mundo, ao mesmo tempo que sofria pressão popular e pessoal pela sua foto mais famosa. “Essa foi a minha foto de maior sucesso, depois de dez anos como fotográfo, mas não quero pendurá-la na parede. Eu a odeio”, declarou em entrevista a revista American Photo.

Herói engajado ou urubu predador?
Kevin Carter começou a carreira em 1983, fotografando eventos esportivos para o jornal Sunday Express, de Johannesburgo, maior cidade da África do Sul. Logo trocaria de jornal, e passaria a cobrir atrocidades políticas para o diário Star. Com os fotográfos Greg Marinovich, Ken Oosterbroeck e João Silva, reportou em imagens espetaculares a crueldade do apartheid, nos anos entre a libertação de Nelson Mandela (1990) e sua eleição como primeiro presidente negro do país (1994).

O quarteto recebeu o apelido de Clube do Bangue Bangue, pela coragem em expor a própria vida em busca de retratos do terror ao redor. O risco era alto. Oosterbroeck foi morto ao ser atingido por uma bala a queima-roupa, disparada por engano pelas forças de manutenção de paz, no suburbio de Tokhoza. Marinovich precisou se submeter a sete cirurgias após ser baleado no peito, mas sobreviveu.

Em comum, os quatro - com exceção de João Silva, de Moçambique – cresceram em ambiente branco-burguês numa desigual África do Sul, e se mostravam desiludidos com o país, com a sociedade racista e com a existência em si. Marinovich declarou que vivia de registrar a vida dos outros para tentar esquecer da sua própria. Talvez por isso a tamanha coragem e frieza.

Mas nenhum dos outros membros do Clube Bangue Bangue imaginaria um fim tão trágico para Kevin Carter. Após a foto que o tornara conhecido mundialmente, o fotográfo começara a abusar exageradamente das drogas, e vivia reclamando da falta de dinheiro, da depressão e da enorme culpa. Enfim, no dia 27 de julho, dois meses depois do auge profissional com o Prêmio Pulitzer, Carter dirigiu até perto de um rio onde brincava quando era criança, amarrou uma mangueira de jardim no cano de descarga de sua picape, inseriu a outra extremidade na cabine do motorista, trancou-se, ligou o motor e começou a escrever uma carta de despedida, enquanto era asfixiado pela inalação de monóxido de carbono. “Eu estou realmente arrependido. O sofrimento da vida é tão grande que a alegria já não existe mais”, escreveu em um bilhete encontrado no banco traseiro.

Seus colegas receberam a notícia do suicídio com irritação, e passaram a defender Carter ao público, ressaltando seu profissionalismo e tentando explicar mais uma vez a ocasião da foto. Segundo eles, os fotógrafos recebiam a recomendação para não tocar pessoas na África, sob o risco de contágio. Marinovich, depois de algum tempo, disse que também vivia atormentado com as imagens perturbadoras que ele próprio captara. A idéia de suicídio rondava sua mente frequentemente, e que certa vez quase se atirou nas águas do Rio Danúbio.

O fato tomou grandes proporções, sempre dividindo opiniões. Em 1996, a banda do País de Gales, Manic Street Preachers, conhecida por seu comportamento radical e declaradamente socialista, ironizou a atitude do fotojornalista com a canção “Kevin Carter”, do álbum Everything Must Go. O documentário The Death of Kevin Carter: Casualty of the Bang Bang Club [A Morte de Kevin Carter: O Desastre do Clube Bangue Bangue] recebeu uma indicação ao Oscar em 2006. O filme Amor Sem Fronteiras (2003), estrelado por Angelina Jolie, recria em cena a imagem da foto captada por Kevin Carter.

A história do quarteto virou livro, escrito pelos sobreviventes Greg Marinovich e João Silva. “O Clube do Bangue-Bangue”, lançado no Brasil em 2003, pela Cia. Das Letras, é um relato dos dilemas éticos que o quarteto constantemente passava. Um dilema que o jornalista deve estar sempre disposto a enfrentar. Segundo Marinovich: “Tragédias e violência certamente geram imagens poderosas. É para isso que somos pagos. Mas cada uma dessas fotos tem um preço: parte da emoção, da vulnerabilidade, da empatia que nos torna humanos se perde cada vez que o obturador é disparado. Evidente que em grau maior, trata-se da mesma banalização que nos acomete ao olhar os jornais diariamente: há abismos demais.”

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Daniel Faria, 22 anos. Pisciano, assim como Bertolucci, Glauber Rocha, Villa-Lobos, Gabriel Garcia Márquez e Elis Regina são piscianos. Editor-chefe e idealizador da Revista Wave, já escreveu na Revista Paradoxo e na extinta Revista Bizz. E-mail: daniel.faria.7@hotmail.com

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28 comentários

  1. Mariana Scaliza diz:

    Muito bom este texto!!! Eu já tinha visto milhares de vezes esta foto em mensagens de correntes de e-mails, porém nunca soube da história por trás da imagem! Impressionante… alguns seres-humanos ainda têm sentimentos…

  2. VANESSA diz:

    Não tenho palvras ainda estou chocada com a foto….
    Vendo estas coisas me sinto um lixo,pois não dou valor a minha vida como eu deveria dar.

  3. Leila Santos diz:

    Leila diniz pra mim é um MITO muita de suas frases encaixam perfeitamente com o meu jeito de ser e de pensar se todas as mulheres tivessem só um pouquinho de pensar como ela seriam mais felizes por isso me orgulho de me chamar LEILA e meu falecido pai me colocou esse nome por ser fã numero 01 dela um exemplo de mulher pena que foi embora tão nova

  4. rhy diz:

    Vendo estas coisas me sinto um lixo,pois não dou valor a minha vida como eu deveria dar como diz a vanessa
    muito chocante mesmo

  5. patrícia diz:

    É, nunca podemos julgar as pessoas, pois quando você pensa estar apontando um dedo para o outro, tem 3 dedos apontados para você e um para cima, que é o juiz, Deus. Sou fotógrafa, e tenho certeza, Carter passou por mal bocados. Fotografar desgraça não é apenas apertar o botão da máquina, é ver o que realmente acontece agoniado por não conseguir ajudar, esperando que as pessoas vejam aquela imagem pensando em mudar seus pensamentos pobres, e enriquecendo o mundo ajudando ao próximo.

  6. Thiago Silveira Cogo diz:

    Se todos entrassem no problema como o próprio Kevin, também ficaríam em profunda depressão…

    Podemos apenas fazer uma reflexão, nos mobilizar para a nossa própria concientização em primeiro lugar, só assim os “maiores” darão o verdadeiro deselo pelo que é necessário.

    (em breve o Blog estará pronto).

  7. Antonio diz:

    terrivél

  8. Gra diz:

    O duro é saber, que isso é fruto do egoismo de seres que se dizem racionais!

  9. Fernando Varela diz:

    Uma curta vida, marcada pelos horrores, em testemunho cru do gigantesco abismo cultural que assola grandes massas de seres humanos, não pode ser comparada nem medida por quem nunca saiu do conforto de seu cotidiano burguês ocidental para vivenciar a realidade cruel dos que necessitam mais do que tudo - dos que necessitam esperança. A foto, pois, não retrata a fome, não retrata a morte, retrata a falta da esperança. Sim. Porque ninguém detém a morte, ela virá, inexoravel. Ninguém está livre da fome, e bom que seja assim, porque é ela, dentre outras coisas, que nos move adiante, que impulsiona nosso progresso, que nos faz sair da letargia para o trabalho, que nos dignifica e alimenta. Porém, ninguém merece sentir a falta de esperança, seja pelo motivo que for, pior quando o é pela ausência da solidariedade humana, pela solidão, pela blasfêmia espiritual, pelo crime de quem sonega ou nega, diretamente, oportunidades. Ninguém pode viver feliz aplaudindo um sistema econõmico e cultural onde os frutos do trabalho se concentram na mão de poucos abastados, que repugnantemente amealham soberbas e satisfações de desejos fúteis, às custas da negativa de sonhos de milhões de desafortunados seres que, inflelizmente, não estão ao redor dos midas capitalistas e por isso não podem sequer recolher as migalhas que lhes sobram da mesa, como fazem a classe média vassala e hipócrita de hoje em dia.
    Bom que se reflita: a morte pouco importa, o que realmente choca é a ausência de vida, ou pior, a ausência de esperança de vida.
    O triste fim do fotógrafo, ironicamente ou não, teve o mesmo rótulo da foto que lhe gerou a maior das honras possíveis na profissão em que tanto se dedicou…
    Kevin sofreu como a menina de sua foto. E o abutre que o perseguiu e aguardou a entrega de seu corpo, sem esperanças, foi a sociedade hipócrita de que fazemos parte.

  10. Priscila diz:

    “… e um deles, doutor da lei, imterrogou-o para o experimentar, dizendo: Mestre,qual é o grande mandamento na lei? E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo semelhante a este, é : Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos depende toda a lei e os profetas.” Mateus 22:34-40

  11. vanessa diz:

    Creio que Carter deve ter pensado: Podia ter feito diferente… pq não o fiz???Ele fez o que podia ter feito naquele momento, não tem como julgá-lo.Bem esta foto abre uma longa reflexão, o qto podemos e não podemos????É ver como é grande a incapacidade humana.

  12. Marcos Amaral diz:

    Certamente Carter não conhecia o amor de Deus para com o homem e para si mesmo.

    A causa do homem não ser consumido é a razão do sofrimento dele: distanciamento total de Deus.

    Com certeza se o nobre fotógrafo tivesse conhecido este amor demonstrado na Cruz do Calvário através da morte vicária de Jesus Cristo, ele compreenderia que ainda há salvação para o homem…

    Marcos

  13. Marco diz:

    O que você faria no lugar do fotógrafo no momento do famigerado “click”??

  14. Carlos P diz:

    Também sou fotógrafo. Entendo perfeitamente o trabalho dele.
    Impossível questionar o caráter de alguem que foi contra o regime do seu país, mesmo sendo da minoria branca dominante. Podia estar acomodado ou “jogando” do outro lado.
    Sofreu todo o tipo de perseguição depois da foto. Foi julgado pelos covardes “juízes de plantão” que mal sabem ser cidadãos de bem, quanto mais fazer alguma coisa pela humanidae.
    Ele estava ali, no meio do inferno para registrar uma das barbáries do mundo. Fez o seu trabalho. Aonde estavam os seus juízes? Provavemente muito bem acomodados em casa.
    Foi um injustiçado, inclusive pela banda que compôs a musica homonima.
    Triste fim

  15. Cleber W. M. diz:

    Com certeza não foi a foto que o fez entrar em depressãoe ao suicídio, mas as atrocidades que os lìderes mundiais fazem, ele retratou a realidade, e viu que ele não poderia fazer nada, não pela criança, mas sim pelo quadro que envolvia toda aquela sociedade… Deus já fez por todos o que nós na nossa insignificância, não poderiamos nem imaginar, Jesus veio e morreu por todos nós, porque fomos nós mesmos que fizemos o pecado e o distânciamento de Deus chegar até nós… Agora o que podemos fazer é nos entregarmos ao novo que Deus, aceitarmos o Senhor Jesus como Senhor e Salvador de nossas almas, ai sim, a nova terra que ele foi preparar para nós será totalmente livre dessas “fotos”… que não modificam nada nesse mundo… Deus abençoe a todos…

  16. mizinha diz:

    Acho ridiculo o fato dele nao ter ajudado essa pobre criança,talvez por isso ele nao tenha tido aguentado a pressão e se suicidado(culpa),achei que ele foi desumano e nao tenhu pena dele em nada…

  17. Zely Soares diz:

    • Muito triste… quando vi a imagem logo quiz pesquisar as origens dessa photo!!!

    Fikei chocado, mas achei bem intereçante…

    • Para Kelvin Carter: Meu amigo, tenho certeza que eu faria a mesma coisa, não sei ontem estaria AGORA!!!

    fike com Deus e sempre sonhei em ajuda-los, tanto q eu tenho um vídeo no youtube… pesquisem: zely33

  18. » Gritos silenciosos diz:

    […] http://migre.me/yFVF […]

  19. taci diz:

    primeira mente,depois de tempos,eu defendo kevin carter,ñ pelo que seus amigos disse a sua defesa,nem as pessoas que o julgaram e o condenaram,é facil julgar as pessoas,queria que todas as pessoas que o condenaram estivesse na sua pele,mesmo se ele tentasse ajudar aquela criança,de nada iria adiantar,estava no fim da tua vida ,e o estomago estava colado,iria vomitar tudo …então eu defendo kevin carter

  20. José Freire diz:

    Esse homem que com fotos chocou a todos…enquanto algumas pessoas simplesmente enxergam as suas fotos, ele sentiu o cheiro de morte e o odor da fome e descaso do mundo…ele aguentou muito, porém hoje encontrou o seu devido descanso…

    Fique com DEUS !!!

  21. FIM DO APARTHEID! FIM DO SOFRIMENTO? « Assuntos Polêmicos diz:

    […] Leia mais>> […]

  22. liliana diz:

    he leido bastante sobre esta foto ,estan los que sostienen que la niña no esta muriendo …

  23. Daneia dos Santos diz:

    Eu já recebi milhares me mail c estas fotos, mas foi a 1ª vez que recebi o nome do fotografo o q me fez buscar por ele na net, realmente deve ser muito duro conviver c as imegens reais do que ele passou. Isto já aconteceu faz tempo mas as fotos continuam a rolar mundo a fora…
    Devemos olhar mais para o próximo e não apenas para os nossos problemas.
    O mundo gira e a nossa vida é uma passage…
    God beless Kevin Carter. Bem haja.

  24. David Diniz diz:

    …Kevin Carter e’ mais um exemplo de que o entao chamado RACIONAL pode, para alem da ganancia, fazer tambem o bem. Deus condena o suicidio, mas eu entendo o bicho que o devorava por dentro: Tanto dinheiro a ser gasto em “projectos” de guerra como a falsa luta contra o terrorismo e o narcotra’fico quando muitos morrem de fome!
    Assim como outros revolucionarios (Malcolmx,Luther king, Che guevara, Bob Marley, Peter Tosh e Lucky Dube), Nao descarto a possibilidade de Kevin Carter tambem ter sido vitima do assassinato politico.

  25. Washington diz:

    Sempre recebí mensagens com estas fotos, mas todas as vezes que vejo me sinto profundamente triste. Bate uma angústia no peito e aí entendo porque o fotógrafo suicidou-se. Uma criança não pode sofrer. Ele deveria naquele momento largar tudo e cuidar daquela pequena e indefesa criança. Mas entendo sua profissão, que mostra a sociedade a falta de humanidade entre nós. Que Deus o perdoe pelo seu ato de desespero.

  26. Pessoa diz:

    Certamente Carter não conhecia o amor de Deus para com o homem e para si mesmo.

  27. Carla Luciene diz:

    Cito: John Kennedy: “Somos opostos ao redor do mundo, uma a conspiração monolítica e implacável se opõe a nós. Baseia-se, primeiramente, no encobrimento para expandir sua esfera de influência. É um sistema que tem recrutado vastos recursos materiais e humanos para formar uma máquina sofisticada, altamente eficiente que combina operações militares, diplomáticas, de inteligência, econômicas, científicas e políticas. Seus procedimentos não são revelados ao público, seus erros são enterrados. Não viram capa de jornal. E quem não concorda com eles, é morto.”
    SUICÍDIO? SER OU NÃO SER, EIS A QUESTÃO? Belíssimo comentário, Fernando Varella! 29.08.2010

  28. helia brito diz:

    Depois de ter visto esta foto dezenas ou ate mesmo centenas de vezes em msg correntes, depois de a ter olhado sem lhe dar importancia alguma……………………… ler este texto e saber a historia desta fotografia……… fico com vergonha das minhas queixas. Porra é uma historia que nos poe a pensar……………… nao tenho palavras para descrever o que estou a sentir………..

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