Colunas
Cinema paradiso
20 de Fevereiro de 2008 | por Joaquim Veloso
Tropa de Elite, vencedor do prêmio Urso de Ouro de melhor filme no Festival Berlim 2008, é um fenômeno. As falas do Capitão Nascimento estão na cabeça do público, as salas lotaram, os canais de televisão lutam para exibi-lo. Filme brasileiro mais visto de 2007, “Tropa”, ainda assim, não é populista. É popular. Seu diretor, José Padilha, conseguiu fazer um filme baseado nas idéias do sociólogo austríaco Karl Popper para o grande público. Moldou a alta cultura ao gosto do povo.
Ao lado de Cidade de Deus, Carandiru e Dois Filhos de Francisco, o filme de Padilha se insere em uma lógica diferente da que foi a usual no cinema brasileiro. Embora peguem dinheiro do Estado, são títulos que atraem grandes públicos. Ser visto, entreter, é a intenção primordial deles. Sempre foi diferente.
Nos anos 60, na mesma noite em que o presidente João Goulart pediu a reforma agrária em um discurso na Central do Brasil, o cineasta Glauber Rocha exibiu pela primeira vez seu Deus e o Diabo na Terra do Sol. Era 13 de março de 1964. Dezessete dias depois, os militares desceram o cassete, frustraram o cineasta revolucionário e mandaram o ex-presidente socialista ir pastar (na verdade, ele foi sozinho: refugiou-se em uma fazenda no Uruguai).
Glauber queria mudar o país com seus filmes. Seu projeto era conscientizar o espectador, levá-lo a questionar as estruturas vigentes, promover a revolução da esquerda, esquerda na qual Goulart também acreditava. Enquanto sonhava acordado, os militares tomaram o país. Demorou quase quarenta anos e um sem número de filmes ruins para que se entendesse que política fica em outra alçada e que entreter é o melhor que o cinema pode fazer.
Levou-se menos tempo para construir Hollywood. Lá, não houve um proprietário de estúdio que considerasse que a sua função era alterar a ordem do que quer que fosse. A Warner Brothers foi fundada por quatro irmãos poloneses – nenhum deles com vínculos na indústria de entretenimento; a Fox Pictures, pelo húngaro William Fox, que vendia roupas na rua; Carl Laemmle, alemão e comerciante, fundou a Universal; e o lituano Louis B Mayer, da MGM, começou a vida profissional vendendo sucata. Entraram para o ramo do cinema porque notaram que podiam ganhar dinheiro. Os quatro estúdios mudaram o mundo.
No Brasil, ao invés de trocarem a sucata pelo cinema, preferiu-se criar um ferro velho cinematográfico. O Estado bancava a turma do “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”, lema do Cinema Novo. Não exigia nenhum retorno. Formou-se uma geração mais de intelectuais do que de cineastas e o resultado é que se impediu a criação de uma indústria moderna. Embora alguns títulos se salvassem, pouca gente viu aqueles filmes.
Os cineastas brasileiros capazes de levar público às salas eram tachados pela esquerda de reacionários (como Domingos de Oliveira) ou chamados pelos militares de retardados mentais (como José Mojica Marins). Ninguém pareceu atentar para o fato de que o importante era criar um modo de financiamento que, aos poucos, independesse do Estado. Hoje o discurso da dependência continua, e somos brindados com a idéia de que, sem a mão pública, não se pode fazer filmes.
Não é assim que pensa o cineasta Lourenço Mutarelli. Seu O Cheiro do Ralo conseguiu a aprovação da Lei Rouanet, mas nenhuma empresa se interessou em descontar seus impostos investindo no título. Com dinheiro limitado pelo próprio bolso, Mutarelli fez um filme espetacular. Faturou o Festival do Rio e a Mostra de São Paulo do ano passado. Teve público. Pagou-se. O Estado não teve nada a ver com isso. O Cheiro do Ralo é um filme de esquerda. A esquerda brasileira demorou quarenta anos para notar que podia fazer isso. Parte dela ainda acha que é impossível.
Tags: tropa de elite


