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Bossa Nova 50 Anos
20 de Fevereiro de 2008 | por Daniel Faria

 

Dia de luz, festa de sol: João Gilberto e Tom Jobim no filme Copacana Palace, de 1962 

Depois de uma primeira experiência falida no Rio de Janeiro como membro do grupo vocal Garotos da Lua, no começo dos anos 50, o baiano João Gilberto perambulou pelo país em casas de amigos e familiares, entristecido e sem um centavo nos bolsos. A situação mudaria em 1958, quando encontrou o maestro da gravadora Odeon, Antônio Carlos Jobim, que impressionado com sua técnica de violão, adquirida após anos de treinamento intensivo, seria um dos suportes da sua carreira. Convocou João para tocar violão em duas faixas do disco Canção do Amor Demais, da cantora Elizete Cardoso, todo composto de músicas de Jobim e letras do poeta Vinicius de Moraes. É história, a história da Bossa Nova.

Em 2008, com apenas um dos três principais nomes vivo, a Bossa Nova completa 50 anos de existência. No ano passado, a prefeitura do Rio de Janeiro tombou o estilo como patrimônio da cidade. Celebrações estão agendadas por todo o ano, no Brasil e no mundo. Mais do que um movimento musical, a Bossa Nova é vista como um instantâneo da transição entre os chamados anos dourados, do país de Juscelino Kubistchek, da seleção de futebol bicampeã do mundo, para o Brasil controlado pelos militares, das perseguições políticas, das canções de protesto e da Tropicália.

Mas atentamo-nos na música. Se o Plano de Metas de JK premeditava os “cinqüenta anos em cinco”, a música brasileira pôde experimentar uma sofisticação parecida na mesma época. A arte de João Gilberto, que gravou o primeiro disco, Chega de Saudade, em 1959, assimilava a música de Ary Barroso e Dorival Caimmy ao mesmo tempo que se integrava ao jazz americano de Duke Ellington e Tommy Dorsey. Baiano de origem humilde, sem grandes ambições intelectuais, é impressionante como a interpretação minimalista de João Gilberto tomaria proporções inigualáveis na música brasileira.

Em seu livro Verdade Tropical (Companhia das Letras, 1997), Caetano Veloso, o grande defensor da obra de seu conterrâneo, define a arte de João como “a posição em face da feitura e fruição de música popular no Brasil que sugeria programas para o futuro e punha o passado em nova perspectiva – o que chamou a atenção de músicos eruditos, poetas de vanguarda e mestres de bateria de escola de samba”. Caetano acredita que a síntese da bossa nova criada por João é a convergência da música mais tradicional, como o samba-canção, em face com o que mais moderno se produzia no resto do mundo, criando uma música ao mesmo tempo brasileira, tradicionalista e vanguardista.

Bossas e bossas Toda essa complexidade da obra acaba por acarretar confusões a respeito do termo Bossa Nova. O escritor, jornalista e pesquisador Ruy Castro sugere em seu famoso livro, Chega de Saudade – A História e as Histórias da Bossa Nova (Companhia das Letras, 1990), a existência de duas vertentes. A bossa nova (com letras minúsculas), estilo musical, que inclui o talento de João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes, e a Bossa Nova, estilo de vida carioca, tão defendida pelo jornalista Ronaldo Bôscoli e que também representa a música de Carlos Lyra, Roberto Menescal, Marcos Valle, Sérgio Mendes, dentre outros.

Há essa distinção? João Gilberto, por exemplo, renegava o rótulo a afirmava que fazia samba, não bossa nova. O próprio Tom Jobim nunca relutou em desprezar o título. A elite carioca de classe média alta que se reunia para tocar violão no apartamento de Nara Leão não corresponde a música de João Gilberto. O baiano prosseguiria na carreira refinando temas populares desprezados à época pela mesma turma que o acolheu e endeusou sua arte.

É famosa a declaração do cantor brega Odair José a respeito de Carlos Lyra, em entrevista a Folha de S. Paulo: “Outro dia mesmo vi na televisão uma coisa absurda. Aquele cara que toca violão e é casado com uma americana, Carlos Lyra, dando uma entrevista dizendo ‘a gente não era como Francisco Alves e Ângela Maria, éramos rapazinhos de classe média alta que faziam música de bossa nova para tocar no nosso ambiente chique’. Ah, deixa de ser babaca. Quem é de classe média alta e é chique não precisa falar essas coisas. Mesmo porque todos os cantores da Bossa Nova são cópias do João Gilberto. E o João Gilberto vem do interior da Bahia, não é de classe média alta. O João Gilberto faz música para o povão”. Não necessariamente está correto: João, com exceção de poucas canções, nunca foi um estrondo popular. Mas nunca deixou de interpretar temas populares. Em seu repertório constam desde a compositora mexicana Consuelo Velázquez até o roqueiro Lobão. Seria inaceitável para a segunda vertente da Bossa Nova, se João não fosse João.

[Haja justiça. A crítica de Odair José – merece respeito por emitir opiniões que ficariam impagavéis caso ditas pela matriz Roberto Carlos - teria maior vericidade se direcionada a Ronaldo Bôscoli, esse sim defensor implacável da marca criada em Ipanema. Mas Carlos Lyra, mesmo que aparente ser o contraponto de Bôscoli pela sua “benevolência” com o samba do morro, tencionava elitizar a música popular, e não popularizar a bossa nova. Autenticidade por autenticidade, fiquemos com Bôscoli.]

Quanto ao estilo de vida, João e Tom pouco participavam das reuniões dos apartamentos ou das festivas rodas de violão na praia, muito menos concediam entrevistas a torto e a direito o estilo musical. Ambos partiram para os Estados Unidos logo no começo da década de 60, onde se tornariam estrelas internacionais. A bossa nova way of life de barquinhos, violão e mar também pouco seduziu a nova geração de Edu Lobo, Chico Buarque e Geraldo Vandré, além dos baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil. Em comum, esses artistas veneravam João Gilberto e nutriam enorme respeito e admiração por Tom Jobim, mas tampouco estavam empenhados em dar prosseguimento nulo a uma espécie de composição que já era conservadora em 1964, e que não dizia respeito ao momento do país.

Tom, Vinicius de Moraes, Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal, Carlos Lyra e o uísque

Aos pés do Brasil Alheios ao golpe militar, Jobim e Gilberto eram reconhecidos na América como músicos de altíssimo nível, gravavam e eram gravados pelos mais talentosos jazzístas dos Estados Unidos e emplacavam discos nas paradas de sucesso. A bossa nova é no começo da década de 60 vista como instituição nacional, e influenciaria centenas de artistas no mundo inteiro, como Miles Davis (“Se João lesse as notícias do jornal em voz alta, soaria brilhante assim mesmo”) e Frank Sinatra (que gravaria o excelente disco Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim, com o brasileiro). João voltaria consagrado para o Brasil anos depois e Tom morreria em Nova York, no ano de 1994, tratando um tumor maligno na bexiga.

No Brasil, a partir de 1964, a música brasileira entraria na celébre fase das rixas musicais, das competições televisivas e dos calorosos festivais. Destaca-se a participação de Nara Leão nesse novo panorama. Até então, a jovem capixaba era apenas a musa da Bossa Nova, namorada de Ronaldo Bôscoli e dona do apartamento onde a turma se reunia. Porém, após a instauração do movimento miliatar, Nara seria porta-voz das renovações musicais, estética e politicamente falando. Nara não era oportunista, como querem seus detratores. Mas também não era pioneira, como celebram seus fãs mais exacerbados.

A grande qualidade da carioca é a de se livrar de estigmas no momento que estes se tornam repetitivos. Quando a Bossa demonstrava claros sinais de cansaço, Nara enveredou pela canção de protesto. Assim que os protestos passaram a ser usados como mercadoria para canais de televisão, foi a vez da irmã da jornalista Danuza Leão defender a Jovem Guarda e escolher o Tropicalismo como nova bandeira. É importante ressaltar que a Tropicália, liderada por Caetano Veloso, era ao mesmo tempo a solução e a antítese da Bossa Nova. Se aos olhos de muitos, suas canções eram espalhafatosas pela inclusão de guitarras elétricas, por outro lado os tropicalistas mantiveram a característica de “adoção popular” de João Gilberto, na escolha de repertório. João aprovou veemente, esclarecendo que tudo que os baianos pretendiam com as roupas plásticos, os cabelos desgrenhados e as polêmicas performances ele concentrava em sua voz.

Nova Bossa Nova Meio século depois, a Bossa Nova permanece sinônimo de sofisticação musical, de vocais contidos e acordes dissonantes, de letras simples mas belamente estruturadas, estilo musical reconhecido em todo mundo e que continua arrebatando corações. Mas é inegável que ainda se apóia em glórias do passado, no repertório obsessivo em torno de Jobim e Vinicius, dos públicos elitistas, excessivamente carioca, estática. Tentativas de revitalização na sinergia com a música eletrônica resultou em desastres como a drum ’n bossa de Fernanda Porto, e acertos como alguns discos ingleses de Marcos Valle (compositor de primeira hora da Bossa Nova, autor, dentre outras, de “Samba do Verão”), ou mesmo o grupo de hip-hop americano Black Eyed Peas sampleando músicas de Sérgio Mendes e Tom Jobim.

Bebel Gilberto, filha de João, é o último nome brasileiro a se destacar no resto do mundo com sua música, um misto interessante de bossa nova e interseções trip-hop. E interessa muito suas harmonias vocais, nem sempre perfeitas, emotivas sem exagerar, sugerindo novas possibilidades para o estilo. Seu disco Momento, do ano passado, propõe concepções que deveriam ser mais celebradas que as tradicionais comemorações à beira da praia revisionando pela milionésima vez “Garota de Ipanema” e “Corcovado”.

Em Nova York, gravação do álbum Stan Getz e João Gilberto. Da esquerda para a direita: Tião Neto, Tom Jobim, Stan Getz, João e Milton Banana.

4 comentários

  1. Marcelo Xavier diz:

  2. Dimitri diz:

    Otimo Texto, Dunkan ^^

  3. Pedro Sá diz:

    Nara não era carioca e sim capixaba.

  4. Augusto Cesar Costa diz:

    Ser carioca, já disseram, é um estado de espírito. Depois, Nara só nasceu em Vitória-ES. Ainda bebê de poucos meses foi levada pro Rio, então…

    Parabéns pelo artigo, Daniel!

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