Literatura
América tropicalista
20 de Fevereiro de 2008 | por Revista Wave

Psicodelia e Marylin Monroe na obra-prima do bruxo José Agrippino de Paula
por Daniel Faria
Homero São Jorge Guerreiro. Bruxo do Embu. Ilíadas na voz de Max Cavalera. Escritor maldito, grosseiro e sujo, resistia aos mais básicos cuidados com a higiene e saúde. Esquizofrênico, morreu sob os cuidados do irmão e da mãe. Esquizofrenia pouca é bobagem? Autor enquadrado entre os tropicalistas quando todas as partes envolvidas insistiam em desmentir qualquer ligação. José Agrippino de Paula (1937-2007) é um personagem e tanto.
José Agrippino de Paula nasce a 13 de julho de 1937. Em São Paulo. Filho do advogado Oscavo de Paula e Silva e da escritora e professora de história Claudemira Vasconcelos. Estuda arquitetura na FAU/USP até a morte do pai, quando prossegue os estudos na UFRJ, no Rio de Janeiro. Vive da mesada da mãe. Escreve sua primeira obra, Lugar Público (Civilização Brasileira), em 1965. É celebrado por parte da crítica como o que há de mais moderno na nova literatura brasileira.
Tão personagem quanto Marilyn Monroe, Burt Lancaster, Marlon Brando, John Wayne, Marlon Brando, Harpo Marx e os outros ícones que protagonizam com o autor em PanAmérica, livro-obra-contracultural-psicodélica, lançada em 1967. Não poderia ser, afinal, ano diferente. É cultura pop, repleto de referências aos cânones dessa sociedade que consome celebridades, informação e coca-cola em medidas desmedidas. Óbvio que trabalhos de arte dessa índole, tão perenes exatamente por louvar o efêmero, sejam virtualmente ignorados tanto pela massa ignorante quanto pela alta classe acadêmica das letras.
O autor construiu em PanAmérica justamente um caleidoscópio alucinante de todas as convenções possíveis, incorporados nas situações tragicômicas de seu personagem-narrador. O livro narra a pretensiosa tentativa de se filmar episódios não-seqüenciais da Bíblia, em movimento cinematográfico. É o roteiro do roteiro do filme. As histórias bíblicas, sagradas, se misturam às profanas descrições de atos sexuais do autor com Marilyn Monroe. É tudo popularesco afinal, é tudo digno de ser encenado em Hollywood.
A voz lenta e grave de Agrippino, aliado a sua persona xamânica, encantaria os tropicalistas, ainda em fase de gestação. Em 1967, lança seu principal livro, PanAmérica (Tridente). Dirige no ano seguinte o média Hitler III Mundo, e em 1969, o espetáculo Rito do Amor Selvagem, proibida pela censura após algumas bem recebidas apresentações. Se torna a grande referência para a psicodelia, inclusive no uso experimental de drogas. Assustado com a repressão – sua casa recebe seguidas batidas policiais -, foge com a mulher, a bailarina Maria Esther Stockler, para a África.
Marginalizado, sofrendo de esquizofrenia, Agrippino tem em PanAmérica e em sua própria vida essa brilhante contradição de se refugiar dos mitos industrializados ao mesmo tempo que faz destes sua energia motora como autor. Nada mais anti-starsystem que Agrippino. Sua caracterização pessoal – aspecto bárbaro, barbas enormes, roupas antiquadas – era a antítese de toda a parafernália descrita em PanAmérica. É provável que sua esquizofrenia tem origem nesse conflito.
Passa anos de irrelevância no cenário literário, apesar de continuar escrevendo. A alcunha de maldito persegue sua obra É diagnosticado como esquizofrênico desde o começo dos anos 80, e vive recluso em uma casa no subúrbio paulistano de Embu das Artes. PanAmérica e Lugar Público são relançados entre 2001 e 2004 pela Editora Papagaio. Sofre enfarto fatal e morre aos 70 anos em 4 de julho de 2007. Deixa 500 cadernos lotados de anotações.
PanAmérica
José Agrippino de Paula
Editora Papagaio
Gênero: Ficção
Preço: R$ 25,00
Leia trecho do livro PanAmérica, livro do escritor morto no ano passado:
“Eu apontei para o final da praia onde estava situado o rochedo e eu e ela continuamos caminhando. O Céu azul servia de fundo para o rochedo e descemos a longa pedra que se introduzia inclinada na água do mar. A espuma branca explodiu para o alto batendo no rochedo. Eu mostrei para ela um grupo de pedras escuras e disse que lembrava o excremento de um animal. Eram pedras escuras e verdes que se amontoavam umas sobre as outras. A água verde do mar deslizava sobre as pedras escuras, penetrava nos cantos das pedras e escorria retornando para o mar. Marilyn Monroe pediu o maço de cigarros e eu o retirei do calção enquanto ela se estendia no dorso da pedra. Ela estava com um biquíni minúsculo e ela expunha a sua pele branca ao sol. Eu via ao longe as grandes massas de água avançando e batendo na pedra. Eu deitei ao lado de Marilyn Monroe e perguntei se ela queria que eu passasse o óleo de bronzear. Ela respondeu com um movimento de cabeça e voltou a recolocar o cigarro na boca. Eu destampei o vidro e despejei um pouco de óleo de bronzear na minha mão. Eu esfregava o óleo na barriga de Marilyn Monroe, nos ombros, no rosto; e depois eu disse para ela virar de costas. Ela virou lentamente de costas e apoiou o rosto nos braços. Eu passei óleo de bronzear nas costas de Marilyn, e depois deitei ao seu lado. A minha cabeça estava inclinada e eu via o rochedo como uma enorme massa de carne imóvel se introduzindo na água do mar. A espuma branca explodia para o alto e salpicava de pequenas gotas o dorso imenso de pedra. A água corria entre as pedras e se distribuía entre os vãos, e escorria fervendo para o mar. A imensa massa líquida verde continuava enviando lentamente a série de pesadas ondas que se aproximavam do rochedo. Eu olhava para as pedras, que pareciam ter uma consistência pastosa e pareciam ter sido jogadas do alto. Depois o rosto de Marilyn Monroe estava muito próximo do meu e a pele branca irradiava a luminosidade do sol. Eu vi muito próximo dos meus olhos o nariz, a boca, os dentes, os olhos, os pêlos da sobrancelha e os poros. O rosto era recortado pela luz azul e brilhante do céu. Ela movimentou a boca lentamente e eu vi os dentes aparecendo, a língua e depois os lábios se fecharam. Eu sentia a mesma desproporção da natureza, e o rosto de Marilyn Monroe iluminado pelo azul do céu, e eu via as dimensões gigantescas da boca, do nariz e dos olhos fechados. “
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Daniel Faria, 22 anos. Pisciano, assim como Bertolucci, Glauber Rocha, Villa-Lobos, Gabriel Garcia Márquez e Elis Regina são piscianos. Editor-chefe e idealizador da Revista Wave, já escreveu na Revista Paradoxo e na extinta Revista Bizz. E-mail: daniel.faria.7@hotmail.com
Tags: tropicalismo


3 de Abril de 2008 às 21:01
qual será que foi a penitência por cortar o dedo do padre?
e quem foi que disse que bala mata “apelido”?