Música
Ah, a beleza que existe
20 de Fevereiro de 2008 | por Daniel Faria

Selecionamos dez discos fundamentais para entender a bossa nova

Desenvolver uma discografia básica da bossa nova em apenas 10 obras é tarefa hercúlea. É necessário se ater aos álbuns tradicionais, ma non troppo. Há de se lembrar que em 50 anos de vida, a bossa nova transmutou-se em diferentes fases, desde os heróis de primeira hora – João Gilberto e Tom Jobim -, até a dita “segunda geração” – Carlos Lyra, Nara Leão, Roberto Menescal, Edu Lobo - e produções esparsas com maior ou menor influência das matrizes durante as próximas décadas.

Portanto, em comum nos discos selecionados, tentei evidenciar as características que considero essenciais para o estilo. Os vocais contidos, cujo alcance das sílabas é interrompido antes de transparecer qualquer exagero, o ritmo do samba suavizado, quase imperceptível na percussão minimalista, e a famosa batida de violão, naquele conflito-complemento constante com a voz. Além das letras, poesia simples com temáticas amorosas e naturais. Os 10 álbuns possuem, em graus variados, as características descritas acima.

Outro critério escolhido é a representatividade das obras. Acredito que Amoroso, disco de 1977 de João Gilberto é mais completo, tem um repertório mais conciso, considero, enfim, melhor que Chega de Saudade. Mas é muita negligência conceber uma discografia de bossa nova sem esse álbum. Por outro lado, um disco como Domingo, de Gal Costa e Caetano Veloso, tem pouca importância na vida da música brasileira, o que não deixa de torná-lo espelho de como a bossa nova foi sentida e ouvida pela geração imediatamente posterior.

Por isso, outros artistas mais tradicionais ficaram, infelizmente, de fora da lista. Sente-se a falta de Sylvia Telles, Luiz Bonfá, Roberto Menescal, Johnny Alf, Sérgio Mendes, Wanda Sá, Miúcha, Toquinho, João Donato, Edu Lobo e tantos outros, que mereceriam figurar em qualquer lista definitiva da bossa nova.

Elizete Cardoso

Canção do Amor Demais (1958)

Com todo o respeito a divina cantora Elizete Cardoso, mas no disco que é considerado o marco-inicial da bossa nova, suas interpretações são de menor importância. Canção do Amor Demais fez história porque aqui se encontra pela primeira vez um disco todo repleto de canções da parceria Tom Jobim e Vinicius de Moraes, ainda longe da fama como compositores, e principalmente pelas faixas “Chega de Saudade” e “Outra Vez”, onde se ouve o irrepreensível violão de João Gilberto, rítmico e elegante, após anos perambulando (e incomodando) casas alheias em busca da sua marca tão particular. Embora a voz de Elizete ainda esteja presa aos boleros radiofônicos de gosto popular, mesmo que algumas das letras de Vinicius louve os corações quebrantados, tão atípico à Bossa Nova, aqui está a gênese do estilo.

João Gilberto

Chega de Saudade (1959)
O disco mais importante da história da música popular brasileira. Revisionista, celebra Dorival Caymmi (“Rosa Morena”) e Ary Barroso (“Morena Boca de Ouro”, “É luxo Só”, parceria com Luiz Peixoto). Moderno, revela Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli (“Lobo Bobo” e “Saudade Fez Um Samba”). Criativo, compõe sozinho as minimalistas “Ho-bá-lá-lá” e “Bim-Bom”. Mas são de Jobim, ora em parceria com Vinicius (“Chega de Saudade”, “Brigas Nunca Mais”), ora com o subestimado Newton Mendonça (“Desafinado”) as cerejas do bolo. Tom e João, aliás, protagonizaram brigas intermináveis durante as gravações do disco. Os músicos, os técnicos de som, os arranjos de Jobim, tudo desagradava o já impaciente João Gilberto. “Você é brasileiro Tom, você é preguiçoso”, é uma das frases antológicas que o baiano disparou ao amigo na época.

Carlos Lyra

Depois do Carnaval (1963)
Já é lugar-comum condenar aqueles que não percebem a qualidade do trabalho do carioca Carlos Lyra. Mas muitos ainda insistem em não reconhecer a beleza e a riqueza melódica do controverso compositor. Ativo participante do CPC - Centro Popular de Cultura, da UNE, Lyra provocou a primeira reviravolta na Bossa Nova, ao apresentar letras de temática social e nacionalista ambientadas em canções sofisticadas. Depois do Carnaval é seu terceiro e mais completo disco. “Aruanda”, samba maracatu em parceria com o então novato Geraldo Vandré, “Promessas de Você”, com participação de sua amiga Nara Leão, e a faixa-título são os destaques. Mas é “Influência do Jazz”, ironia maravilhosamente executada, a canção sintomática do descontentamento de Lyra para com a presença da música americana no samba brasileiro.

Nara Leão

Opinião de Nara (1964)
Seus detratores podem acusá-la de demagoga. Branca, jovem, moderna, nascida na zona sul do Rio, cantando sambistas negros como Zé Kéti e João do Vale, a impressão é de puro oportunismo, se Nara não tivesse sido, como várias outras vezes, a pioneira. Em 1964, o golpe da ditadura militar já ocorrera e o futuro já se mostrava sombrio. Assim como Carlos Lyra, Nara se apartou da já saudosista turma liderada por Ronaldo Bôscoli, o ex-namorado que a traiu com a cantora Maysa. Até então considerada a musa da Bossa Nova, logo Nara se mostraria uma das personalidades mais corajosas e originais de toda a música do país. Mesmo com sua voz pequena, sempre parecendo estar perto de falhar, em Opinião de Nara, a carioca passa por sambões como “Opinião” (mais tarde incluída na famosa peça de mesmo nome) e bossas de Jobim (“Derradeira Primavera”) com total desenvoltura.

Tom Jobim

Antônio Carlos Jobim (1963)
“Se o movimento da bossa nova tivesse produzido somente este disco, já estaria plenamente justificado”, escreveu o crítico especializado em jazz, Pete Welding, na revista americana Down Beat. A Bossa Nova já tomava o mundo e encantava os Estados Unidos. Gravado em Los Angeles com músicos americanos (o flautista Leo Wright, o trombonista Jimmy Cleveland e o baixista George Duvivier) mais o baterista Edson Machado para balancear os clássicos “Desafinado”, “Corcovado”, e claro, “Garota de Ipanema”, Jobim finalmente estreava um disco solo após mais de uma década de carreira. Os arranjos ficaram a cargo de Claus Ogerman, que produziria em 1977 o álbum Amoroso, o melhor álbum da carreira de João Gilberto pós-Chega de Saudade.

Stan Getz, João Gilberto e Antônio Carlos Jobim

Getz/Gilberto Featuring A.C. Jobim (1963)
João, em português: “Tom, diga a esse gringo que ele é um burro”.
Tom, em inglês: “Stan, o João está dizendo que o sonho dele sempre foi gravar com você”.
Stan, em sacanês: “Funny, pelo tom de voz, não parece que é isto o que ele está dizendo…”.
A gravação do álbum entre o saxofonista americano e os brasileiros pode não ter sido exatamente agradável, mas o resultado é um dos grandes discos do século passado. A participação de Astrud Gilberto, na época mulher de João, em “Garota de Ipanema”, com versos em inglês, transformou a música em sucesso popular, rendendo dois Grammy para o disco (Melhor Álbum e Melhor Single), superando os Beatles. Era o que de mais sofisticado e criativo se fazia na música. Em todo o mundo.

Gal Costa & Caetano Veloso
Domingo (1967)

Domingo é trabalho menor na discografia tanto de Caetano quanto de Gal. Ainda imaturos, tímidos nas gravações e longe das idéias que fervilhavam suas cabeças, os então jovens baianos entram na lista por representar a influência de João Gilberto nos tropicalistas. A produção límpida de Dori Caymmi tornou “Onde Eu Nasci Passa Um Rio”, “Domingo” e “Minha Senhora” (cantada por Gal no Festival Internacional da Canção, em 1966) ainda mais bonitas. João aprovaria, gravando posteriormente as duas melhores faixas, “Coração Vagabundo” e “Avarandado”. Wanda Sá, Francis Hime, Edu Lobo e Chico Buarque, dentre outros, se encantaram com a bossa tardia da dupla baiana, em estado embrionário do Tropicalismo.

Elis Regina e Antônio Carlos Jobim

Elis & Tom (1974)
Elis Regina nunca foi exatamente fã de Bossa Nova, e consequentemente, de Tom Jobim. Tom, por sua vez, desprezava os excessos e maneirismos vocais da gaúcha. É de se estranhar que a reunião de dois talentos que aparentavam distanciamento possa ter resultado em Elis & Tom, disco em que todas as catorze interpretações se tornariam clássicas. Gravado em quatro dias em Los Angeles, praticamente ao vivo, com o trio que acompanhava Elis – o guitarrista Hélio Delmiro, o baixista Luizão Maia e o baterista Paulinho Braga – mais o arranjador César Camargo Mariano, marido da cantora, Elis & Tom é excelente do início ao fim. E tem ainda o dueto “Águas de Março”, gravada já no segundo take, com risadinha e tudo.

Marcos Valle

Nova Bossa Nova (1998)
Talvez o disco Samba Demais, de 1964, seria a escolha ideal nessa lista, com suas canções variando os mesmos temas do amor-sol-mar da maioria dos compositores criados em torno de Vinicius e Jobim. Mas Nova Bossa Nova, gravado quarenta anos após o surgimento do estilo, é, assim como são os discos de Bebel Gilberto, a última tentativa de revitalização da Bossa sem banalizar para o puro drum n’ bossa simplório. Sonoridade próxima do funk, loops sintéticos, afro-grooves e ambiências modernas em letras puras e alegres. Os europeus, notadamente os ingleses, adoraram o disco. “Viva a vida, faça o que tem vontade, o amor está sempre perto”, canta Patrícia Avi em “Cidade Aberta”, um dos destaques do álbum, ao lado de “Novo Visual”, “Freio Aerodinâmico” e a simpática “Mushi Mushi”.

Bebel Gilberto

Momento (2007)
Os puristas dirão que a música de Bebel Gilberto não é bossa nova. Sim, a presença de jazz, afoxé, lounge e música latina estão lá (sempre estiveram, não?), mais os toques eletrônicos já tradicionais na carreira da cantora, ainda que em menor quantidade. Mas a sofisticação, a suavidade quase falhando da voz de Bebel, a levada agradabilíssima, ainda é, afinal, bossa nova. Não a bossa tradicional; para isso, basta reouvir os velhos discos do pai João Gilberto ou da mãe Miúcha. Ou mesmo o tio Chico Buarque, de quem selecionou “Caçada” para ilustrar o repertório de “Momento”. Bebel é, apesar da proliferação de cantoras ligadas a tradição da música brasileira, a única artista que realmente propõe novos caminhos para esta. Ouça a faixa-título, “Os Novos Yorkinos” e a versão de “Night And day” e comprove.

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