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Nostalgias Minhas
17 de Fevereiro de 2008 | por Carol Bataier
Perdemos Ayrton Senna, Frank Sinatra, Paulo Autran, Chico Mendes.
Perdemos a malandragem carioca, que agora nem usa mais chapéu de lado.
Perdemos o medo de assalto, a segurança e isso tudo que a gente vê na TV.
A vergonha na cara, também perdemos um pouco.
E perdemos um muito da floresta amazônica.
Mas uma das maiores perdas dos últimos tempos, em minha opinião, foi algo sutil, que aparentemente causou pouco abalo. Algo que passou despercebido pelos olhares vidrados em frente às telas: o hábito de escrever cartas.
Eu, que passei pela transição carta/e-mail, não poderia deixar de sentir uma dorzinha nostálgica. Eu sei o que significa essa perda. Sei o que é errar e rabiscar, rasgar, beijar o papel, escolher selos e – alegria das alegrias – esperar ansiosamente pela chegada do carteiro.
Até meus quinze anos, sempre escrevi cartas. Tinha amigos distantes pois, devido ao trabalho do meu pai, mudávamos muito de cidade. Assim, amigos ficavam e saudades vinham. E, pelo que me lembro, até 2000, internet ainda não era tão comum. Pelo menos aqui nesses interiores.
Então, para matar a saudade, escrevíamos. Mandávamos fotos, presentes, lembranças, beijos de batom cor-de-rosa e marcas de lágrimas no papel. E aguardávamos ansiosos pela resposta.
Havia até – não sei se ainda há – nos gibis da Turma da Mônica, uma página cheia de endereços de leitores que queriam fazer novos amigos. Escrevíamos e eles respondiam. Lembro-me das inúmeras tardes que passei sentada em frente ao portão aguardando a ilustre presença do carteiro. E ele me trazia tantas coisas, tantas pessoas: letras corridas, redondas, rabiscadas, tintas coloridas, beijos, fotos, histórias.
Depois, eu respondia e, calculada a distância, sabia que teria entre uma e duas semanas de espera até a próxima carta.
Hoje é tudo muito rápido. Não há a ansiedade, a espera e a curiosidade. Tudo sana-se em uma página: de cara sabemos como é nosso novo “amigo”, de que gosta, o que faz, o que odeia, etc.
O contato com pessoas de longe virou coisa rotineira: estamos no orkut, de repente nos deparamos com um rosto conhecido perdido em página alheia, descobrimos o velho amigo, que alegria! Trocamos scraps e e-mails emocionados, cheios de novidades: “Como vai? E a família? Meu Deus, sua irmã ta enorme!”. Adicionamos o amigo no msn, conversa vai, conversa vem e um dia ele vira só mais um contato on-line. Você vê ele lá, mas não tem o que falar, porque já perguntou tudo o que tinha que perguntar e, como não participa da vida dele, vocês não têm mais assuntos em comum.
Eu mandei e recebi muita carta (e hoje ainda escrevo algumas!). Li muitas histórias, porque, entre a chegada de uma carta, a formulação da resposta, o envio e o recebimento de outra, muita coisa acontece.
Fico triste quando penso que meu irmão não vai saber o que é a emoção por trás de uma letra tremida, ou a alegria que é ver o rapaz de azul e amarelo dobrando a esquina. Acho que acabamos perdendo também um pouco do romantismo.
E quem quiser me escrever, que fique à vontade para pedir meu endereço. Eu juro que respondo. E com direito a letra emocionada, rabisco entre parênteses e beijo no final.
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Carol Bataier , 23, finge que estuda jornalismo, finge que trabalha e finge que escreve só pra fingir que gosta de fazer alguma coisa. E-mail: carolbataier@yahoo.com.br



24 de Fevereiro de 2008 às 21:05
realmente cartas tornaram-se coisas do passado… recentemente mandei uma carta a um amigo que não responde e-mails [ele respondeu à carta com um e-mail], por conta disso, conversamos sobre a aposentadoria compulsória das missivas, que renderam em outras épocas belos livros pra explicar-nos sobre a personalidade de tanta gente [pouco antes de ler este texto colocava de lado “Cartas a um jovem poeta” de Rilke, depois de terminar a leitura de uma carta]. será que um dia publicarão coletâneas de e-mails?