Cinema
Massacre Silencioso
16 de Fevereiro de 2008 | por Revista Wave
O filme mais surpreendente dos irmãos Coen cresce em doses cavalares para tornar-se uma pequena obra-prima
por Gustavo Padovani
“Demorou 22 anos para esta moeda chegar até você”, diz o assustador Anton Chigurh (um inspirado Javier Bardem) para um indefeso caixa de conveniência no já familiar Texas retratado. A intimidação existente em um incerto jogo de cara e coroa, sob o comando de um assassino profissional, assustaria a qualquer um. Para os Irmãos Coen, este momento chegou. No lugar da moeda, um livro. Levou 23 anos para os diretores enfrentarem a adaptação de um romance. Com a inspiração aparentemente perdida, as possibilidades de um trabalho excelente eram desconhecidas. Agora, Onde Os Fracos Não Têm Vez (2007), responde pelas indicações de 8 Oscar, incluindo melhor filme, roteiro adaptado, diretor e ator coadjuvante.
Embora esteja sutilmente imbuído na trama, trata-se de um filme sobre destino. O ex-veterano do Vietnã, na figura de Llewlyn Moss (Josh Brolin), vê uma oportunidade de lucro quando encontra uma bolsa que transborda dinheiro em meio a uma malograda – e inexplicável – transação entre traficantes. Pega o dinheiro para si, mesmo tendo uma sorrateira idéia dos problemas que poderão ser acarretados. Entre Llewlyn estão dois personagens aparentemente maniqueístas: o bem aparece no papel cheio de princípios de Del (Tommy Lee Jones, envelhecido como nunca) e o mal representa o tétrico Anton Crigurh, um matador profissional que tangencia a psicose.
A fuga de Llewlyn com os dólares dá início à caçada sanguinária orquestrada com maestria pelos irmãos Coen, mas é apenas a camada epidérmica do que está em questão. O antagonismo nas interpretações de Tommy Lee e Javier Bardem mostra-se paradoxal à medida que os rastros de violência os conectam. Ambos acreditam em princípios (mesmo que distorcidos) e nas possibilidades criadas pelo acaso, simbolizado perfeitamente na cena em que ambos vêem seu reflexo diante da mesma TV desligada. Embora estejam no mesmo lugar, enquanto o matador usa sua força bruta e inteligência para executar suas funções, o xerife – nostálgico - acredita que ainda pode circular sem sua arma e usa desculpas para camuflar o pavor diante da crueldade de uma nova geração.
A ausência total de trilha sonora e os planos longos (com a fotografia de Roger Deakins, de Um Sonho de Liberdade) e silenciosos aumentam a tensão. O roteiro impecável combinado com a direção segura dos Coen se sustenta tanto quanto as ótimas atuações dos personagens extremamente bem construídos – incluindo ainda um papel coadjuvante de Woody Harrelson. Ao adotar o linguajar tipicamente caipira impresso no romance homônimo de Cormac McCarthy (No Country For Old Men) que gerou o filme, os diretores também conservaram a atmosfera da obra, aplicando uma sábia versão autoral (sem o humor negro e excentricidades de costume) sobre um universo de outrem. “Estes elementos fazem com que o filme fique mesmo, reconheço, mais difícil de se compreender em um primeiro momento. Mas a linguagem é a protagonista do filme que os Coen quiseram fazer. E, convenhamos, é belíssima” diz Tommy Lee Jones, um autêntico texano.
Onde o Talento Tem Vez
Premiados pelo sindicato de diretores de cinema dos Estados Unidos; arte dos irmãos transita entre o chocante e o divertido
A carreira de Joel e Ethan Coen é peculiar. Pouquíssimos diretores americanos conseguiram nestas últimas duas décadas uma carreira tão sólida, digna à classificação “cinema de autor”. Donos de uma visão irônica e excêntrica de cinema, suas objetivas procuram captar ambientes insólitos para desenvolver seus exóticos personagens. Paisagens tradicionalmente americanas tornam-se fontes de inspiração. “Esta coisa de geografia é interessante. Definitivamente, não somos figuras do Oeste ou do Sul dos EUA, palco de E Aí Meu Irmão, Cadê Você? (2000), mas detectamos desde sempre algo de profundo na maneira de se contar histórias, na narrativa do sul e do oeste americano, que nos atrai sobremaneira”, entregou Joel, em coletiva à imprensa para o lançamento do mais recente filme da dupla, Onde Os Fracos Não Têm Vez, candidato ao Oscar.
E foi a aridez dos estados do Texas e do Arizona a aspiração inicial do trabalho dos irmãos. Depois que Joel trabalhou como co-editor do filme Uma Noite Alucinante (terror clássico do diretor e amigo Sam Raimi), em 1981, se juntou ao irmão Ethan para o aclamado suspense de estréia Rastros de Sangue (1984). Na seqüência lançaram a comédia alucinada estrelada por Nicolas Cage, Arizona, Nunca Mais (1988). Embora esses dois filmes apresentassem os mesmos temas - ganância, vingança e violência -, ambos acabaram enquadrados em gêneros diametralmente opostos. Ao longo da carreira dos Coen, essa condição seria a marca registrada da dupla: esboçar em seus filmes uma linha inimaginável entre o que é chocante e divertido, pressionando o espectador a assustar-se com seus próprios limites éticos e lúdicos.
Os irmãos Coen entraram nos anos 90 de maneira pouco provável: retratando os anos 40 e 50. Inspirados no cinema clássico de Frank Capra e Orson Welles, lançaram o metalingüístico Barton Fink (1991) - o primeiro a vencer os principais prêmios de Cannes, incluindo Melhor Filme, Direção e Ator – e o criativo Na Roda da Fortuna (1994), com Tim Robbins e Paul Newman. Mas foi com Fargo (1996) que o prestígio realmente chegou. Indicado a 5 Oscars, o filme explorou um roteiro inteligente e recheado de um impagável humor negro, para contar uma trama macabra inspirada em alguns acontecimentos supostamente reais na terra em que os diretores nasceram. A atuação de Frances McDormand como a policial grávida Marge transformou-a na personagem mais memorável da dupla e rendeu um Oscar a atriz.
O Grande Lebowski, de 1998 é uma comédia mais “convencional” – se é que este termo pode se adequar à filmografia dos Coen. Estrelado por Jeff Bridges, o filme fez um sucesso razoável, conhecido por sua verborragia excessiva e situações hilárias beirando o surreal. Com dez anos de filmes inovadores nas costas, o cinema dos destemidos irmãos apresentou sinais de cansaço. Seja com o quase musical E Aí Meu Irmão, Cadê Você? (2000), a vergonhosa comédia O Amor Custa Caro (2003) com George Clooney ou a fraca refilmagem de Matadores de Velhinhas (2004) com Tom Hanks: nada parecia escapar da irregularidade. Até agora.
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